A língua tem desses dilemas que me fazem refletir por horas
e horas. Essas reflexões são geralmente provocadas por afirmações assertivas
feitas por debatedores apegados em certezas e frases prontas. A última que li
foi a de que “não existe terceiro sexo”, baseada na noção de que, na natureza,
só há “macho” e “fêmea”.
De fato, há dois paradigmas na natureza como um todo,
classificadores da reprodução sexuada, os quais se convencionou chamar de
“macho” e “fêmea”. Contudo, o problema da afirmação de não existir um “terceiro
sexo” já aparece quando pensamos em plantas hermafroditas – afinal, se elas não
podem ser consideradas nem “macho” nem “fêmea”, é preciso que haja um terceiro
termo para classifica-las de acordo com sua configuração sexual.
Mas voltemos aos seres humanos. Na concepção do dimorfismo
sexual, o que nos permitiria dizer que um indivíduo é “macho” ou “fêmea”
concentra-se, sobretudo, em cinco fatores específicos. São a presença ou ausência do cromossomo Y; o
tipo de gônadas; hormônios sexuais; anatomia reprodutiva interna (como
o útero nas
“fêmeas”); e genitália externa.
[Precisamente aqui está uma questão no que se refere à fala
do médico, ao nascimento, de atestar que o bebê é “menino” ou “menina”:
raramente usa-se algum outro fator além da genitália externa para tal
determinação, sendo os demais ignorados ou apenas levados em conta quando há
algo que parece se diferenciar do paradigma.]
Pois bem, quando há cromossomia XX, ovários que produzirão
estrógeno e progesterona, útero e uma vagina, diz-se que aquela pessoa é
“fêmea”. Quando há cromossomia XY, testículos que produzirão testosterona e
secretarão espermatozoides, próstata e um pênis, diz-se que aquela pessoa é
“macho”. Esse é o paradigma do dimorfismo sexual.
Mas, como sabemos, há pessoas que nascem sem determinados
órgãos internos, ou apresentam cromossomias variantes, ou ainda que nascem com
genitálias ambíguas. Ora, se elas se encontram fora do paradigma, é correto
chama-las de “macho” ou “fêmea”? Ou é preciso usar um termo diferenciado?
Os casos de pessoas intersexo são especialmente
interessantes para se discutir o tema. Portanto, antes de tirar suas conclusões, peço que assista ao vídeo abaixo:
Se dizemos que não existe um "terceiro sexo" estamos eliminando a possibilidade de haver algo além do "macho" e da "fêmea" - sendo que a própria ciência já descobriu haver um continuum entre os extremos "macho" e "fêmea" que não permitem uma identificação plena de certos indivíduos no que diz respeito ao chamado "sexo biológico".
O mesmo pode ser dito em relação à manifestação do gênero. As identidades de gênero não precisam se restringir ao "masculino" e "feminino", pois comportam um espectro muito maior.
Em tempo: "Existe mesmo uma ideologia de gênero?"
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