Mostrando postagens com marcador preconceito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador preconceito. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Conservadores querem proibir métodos contraceptivos e Projeto de Lei pode voltar à Câmara



O deputado federal Márcio Labre, do PSL-RJ, partido ao qual também está filiado o presidente Jair Bolsonaro, elaborou um Projeto de Lei que discorre sobre a proibição de métodos contraceptivos, os quais ele classifica como "micro abortivos". O PL 261/2019, o sétimo do parlamentar, foi apresentado no dia 4 de fevereiro, segunda-feira. Após repercussão, o deputado retirou o projeto, alegando que o texto não estava finalizado e foi protocolado por equívoco. Em nota, emitida na quarta, dia 6, Labre alegou que a ideia do projeto, que será apresentado depois de reelaboração, é a de informar sobre os efeitos de contraceptivos que, na realidade, seriam “abortivos”.
No PL 261/2019, que está disponível na página da Câmara, estão classificados como "micro abortivos" o DIU, as pílulas anticoncepcionais de progestogênio (também conhecidas como minipílulas), o implante subcutâneo, pílulas do dia seguinte, bem como qualquer outro que, segundo consta no projeto, "provoque a morte do ser humano já concebido".
Além da proibição de uso e prescrição, o Projeto também prevê que as autoridades competentes pela fiscalização (que caberá ao Ministério da Saúde por meio da ANVISA) deverão apreender e destruir o material que incentive o uso dos referidos métodos. A multa para quem infringir a lei pode ir de mil a dez mil salários mínimos.
Além da notória falta de conhecimento do deputado conservador acerca do funcionamento de contraceptivos e dos erros gramaticais presentes no documento que pode ser conferido na página da Câmara, a justificativa para o referido projeto estaria no fato de que a vida começaria na concepção, antes mesmo da nidação (quando o embrião se implanta no útero), motivo pelo qual deve ser protegida.
De acordo com o texto, o uso de métodos como o DIU, que impedem precisamente a concepção, teriam o efeito real de induzir o aborto, de forma que as mulheres estariam sendo enganadas pela medicina. Nos parágrafos finais, o deputado diz que conta "com a proteção de Deus" e com o apoio de movimentos "pró-vida" brasileiros que se colocaram contra a norma do ministro José Serra (que esteve à frente do Ministério da Saúde de 1998 a 2002), classificada como "abortiva".
A norma técnica a que Labre se refere é o manual intitulado "Assistência em planejamento familiar", que, na verdade, foi lançado pela primeira vez em 1988. Sua 4ª edição foi distribuída em 2002, após a aprovação, em 1996, de Projeto de Lei regulamentando o planejamento familiar e estabelecendo os procedimentos adequados para profissionais do SUS. A implementação da lei e a revisão do manual ocorreram quando Serra comandava o Ministério da Saúde. A primeira parte do manual técnico trata da assistência à anticoncepção, além de abordar meios de prevenção ao vírus HIV e a outras infecções sexualmente transmissíveis.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Caos e caça às bruxas


Faz tempo que não encontro palavras para escrever aqui. É um misto de cansaço, falta de tempo, excesso de tarefas e muita ignorância vista no dia a dia da internet, esta última tomando proporções absurdas nos últimos dias, com a polêmica do "QueerMuseu" e o falso alarmismo criado pelo MBL em parceria com cristãos conservadores.

Eu estudei - muito - sobre "queer" durante o mestrado e continuo a estudar sobre esse tema, porque sei que ele é alvo de críticas e das acusações mais bizarras, não apenas por parte de conservadores, mas também por membros da comunidade LGBT e por ativistas do feminismo que propagam inverdades como a de que o "queer" defende a pedofilia.

Em julho, durante o pouco que tive de férias, pude reler um livro chamado "Cultura do medo", do sociólogo Barry Glassner, em que ele mostra como nossa cultura tem cada vez mais se voltado para o fomento do medo, do temor, da insegurança, principalmente por conta da maneira como os veículos de comunicação funcionam, transformando histórias pontuais em exemplos do perigo constante que o cidadão corre e distorcendo dados para comprovar essa realidade criada por eles mesmos.

O argumento de Glassner é que é muito mais lucrativo manter o cidadão com medo - fazendo com que ele compre armas, caros sistemas de vigilância, seguros de vida... - e, para isso, eleger inimigos específicos - como os negros que vivem nas periferias e as drogas -, tirando os fatos de seus devidos contextos e transformando-os em perigos absolutos, o que serve bem a muitos políticos em suas candidaturas. (Adendo: o livro se refere aos Estados Unidos na década de 1990 e início dos anos 2000, mas o argumento cai como uma luva para a atual situação brasileira, em que Bolsonaros e Felicianos se beneficiam do pânico moral causado pelo sensacionalismo da mídia em detrimento de grupos minoritários específicos.)

O "queer" é um desses inimigos e, como foi possível testemunhar nesta última semana, sua demonização é bastante conveniente. Por se tratar de um posicionamento amplo e sem uma definição precisa, o "queer" - e a Teoria Queer - pode ser aplicado de muitas formas para justificar comportamentos e escolhas identitárias variadas. E se grupos conservadores ou ativistas podem moldar seus escritos e teorias para provar seus argumentos contrários ao "queer", é óbvio que grupos obscuros também podem fazer o mesmo para tentar validar seus atos - e, sim, refiro-me a defensores da pedofilia e da zoofilia!

Afinal de contas, é muito fácil recortar parágrafos e trechos de livros de forma a usá-los para propósitos aos quais eles não servem quando colocados em contexto - Derrida explica melhor essa questão ao abordar a citacionalidade. A verdade é que fazemos isso o tempo todo, não importa qual doutrina ou ideologia sigamos.

Pois bem, nesses anos em que venho me dedicando aos Estudos Queer (pelo menos desde 2011), o que vejo é uma gama de teorias e propostas bastante complexas que têm como prioridade o questionamento das regras que nos são impostas como "naturais", daquilo que nos é colocado como "normal". Se eu me deparei com defesa da pedofilia? Uma única vez, por um grupo de homens heterossexuais, em nada relacionados ao movimento LGBT. Defesa da zoofilia? O grupo que vi defendendo essa prática não evocava, em momento algum, a Teoria Queer.

E que fique bem claro: eu, que considero os Estudos Queer uma excelente ferramenta de questionamento do status quo da sociedade e das imposições de gênero e sexualidade que transformam os sujeitos em receptáculos de regras, abomino ambas as práticas e defendo que sejam consideradas crimes em qualquer lugar do mundo. Mas acho necessário falar sobre elas com objetividade e distanciamento, entendendo que elas existem e sempre existiram, pois a única forma de lidar com o problema é compreendendo as condições que permitem sua emergência.

Com a Teoria Queer, temos a possibilidade de, como pesquisadores e professores, falarmos não apenas das diferenças de gênero e sexualidade aceitáveis, mas também de abordarmos coisas abjetas e moralmente condenáveis por um viés crítico, sendo uma importante ferramenta de discernimento para aqueles que têm maturidade o suficiente para lidar com as complexidades da teoria propriamente dita.

Quanto à exposição "QueerMuseu", que o Santander decidiu cancelar por pressão de um grupo formado por uma direita de pretensos liberalistas não-liberais que decidiram se aliar a conservadores e cristãos picaretas, o propósito me parece o mesmo: refletir sobre o que nos é imposto em relação a expressões de gênero e sexualidades.

Sendo assim, um quadro como o de Adriana Varejão, intitulado "Cena de interior II", em que é possível observar uma pessoa segurando um animal enquanto a outra o penetra, mais duas pessoas brancas fazendo sexo com um negro e uma pessoa de aparência oriental em uma rede sendo penetrada por um negro, além de duas mulheres japonesas usando uma espécie de brinquedo sexual, é uma representação da realidade. Cabe a quem contempla a obra interpretá-la.


O que eu vejo, na pintura, são cenas de práticas que, de fato, acontecem. O negro, desde o período da colonização, vem sendo usado como objeto sexual, abusado, estuprado, tanto para que permaneça em contínua posição de subjugado (uma vez que estupro tem mais a ver com poder do que com desejo sexual) quanto para "aliviar" a libido do colonizador que, assim, não precisa deflorar uma branca.

O sexo com animais tem sido uma prática comum no interior do país e não é raro nos depararmos com homens que fazem piada com o fato de já terem "transado" com galinhas, cabras, vacas, jumentas... Adriana Varejão não está fazendo apologia a nada disso, está apenas ilustrando esses casos. Não à toa, o quadro pertence a uma série chamada "Histórias à margem", em que tudo aquilo que permanece escondido, omitido, é revelado. A própria artista já disse que não tem intenção de julgar se aquilo é bom ou ruim.

---------------

Leituras adicionais:

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Quem é Biel? (ou "Precisamos rever nossa idolatria")



Eu nem sabia quem era esse garoto até surgir a notícia do assédio que ele cometeu e - maldita a minha curiosidade! - fui ao YouTube descobrir se conhecia algo dele. Honestamente, preferia não ter conhecido. Trata-se de um cara malhado que dizem ser parecido com o Justin Bieber, mas com uma voz infinitamente mais irritante e sem qualquer conhecimento musical (algo que, no caso de Bieber, justifica que ele se mantenha até hoje produzindo e evoluindo).

Por um lado, é bom saber que ele não vai durar muito e em pouco tempo não mais nos lembraremos dele. Por outro lado, ele é só mais um entre tantos artistas que cometem assédio em diferentes níveis e, ainda assim, quando sua atitude se repercute, acham-se no direito de se colocar como prejudicados. Biel é só mais um a reforçar a cultura do estupro e a reproduzir discursos preconceituosos e nojentos na mídia, sem sofrer represália alguma.

Hoje, repercutiram postagens que o "cantor" fez no Twitter, algumas delas já deletadas, provavelmente por aconselhamento da equipe que o acompanha. O que as postagens revelam é mais um garoto privilegiado que vê graça em discriminar e falar merda e que, conforme atestou o Huffington Post Brasil, não vai mudar, afinal, não lhe convém.

Ao lado de Biel, está uma quantidade imensurável de jovens que não enxergam as opressões que não sofrem e acham normal uma cultura de violência propagada principalmente pelo bullying. Uma lista de 10 motivos para não odiar o artista, feita por uma fã, serve como exemplo disso:

1. "Ele é gostoso, então merece ter tudo que tem e ter a mulher que quiser."
Obviamente, a primeira razão está em sua estética: se ele está dentro dos padrões estabelecidos para que um homem seja considerado atraente, ele tem privilégios. Soma-se a isso a ideia de que mulheres estariam apenas interessadas em homens malhados como ele e é impossível que não se sintam atraídas.
2. "Ele é um menino em fase de crescimento e comete erros."
A forma como enxergamos a questão da idade é, até hoje, desigual para homens e mulheres. Com 21 anos, ele é legalmente considerado um adulto e deve sofrer as consequências que um adulto sofreria. Socialmente, de acordo com o senso comum, a adolescência termina aos 18 anos de idade. Ainda socialmente falando, à mulher com 18 anos cabem muito mais responsabilidades e consequências, como se a maturidade fosse exclusiva do gênero feminino pelo menos até os, digamos, os 30 anos de idade.
3. "Ele vem sofrendo racismo brancofóbico".

Não vou comentar isso, né?
4. "Toda mulher gostaria de dar pro Biel e ser cantada por ele."

Eu, particularmente, não gostaria de dar pro Biel e nem de ser cantada por ele, ainda mais com essa vozinha chata e esse jeitinho arrogante. E aposto que encontro pelo menos um milhão de outras mulheres que também não gostariam.
5. "Ele se inspira no Justin. Ambos são percebidos por serem brancos e gostosos."

Se ele se inspirasse no Justin, poderia pelo menos ter aprendido música, ou a cantar. Ninguém é percebido por ser branco, mas por se portar de uma forma mais relacionada à cultura negra, mesmo sendo branco. Eu não gosto do Justin, mas ao menos eu acho que ele tem algumas qualidades. O Biel, não.
6. "Ele é hetero e todos os heteros merecem expressar sua sexualidade."

Expressar sexualidade é diferente de cometer assédio. Todos nós podemos expressar nossa sexualidade, mas não temos o direito de ofender diretamente a outras pessoas enquanto nos expressamos.
7. "Ele sofre preconceito por ser homem, hoje a moda é ser gay."

Também não preciso comentar isso, né?
8. "Ele é humilde e comeria uma mulher, mesmo se ela fosse feia."

Favor procurar no dicionário o conceito de humildade.
9. "Ele gosta de brincar com tudo."

"Brincar" é algo relativo. No humor, o chiste é uma brincadeira ou piada que tem como objetivo atingir a uma pessoa ou grupo específico, normalmente por meio de uma ofensa. Em suma, brincar com algo não significa que o indivíduo não esteja ofendendo, muito pelo contrário, uma estratégia bastante comum é o ato de mascarar a ofensa com a brincadeira, algo que indivíduos preconceituosos fazem com bastante frequência.
10. "Ele só respeita mulheres que se dão o respeito."

"Dar-se ao respeito" é outra questão altamente relativa. A meu ver, no vídeo da entrevista, a jornalista se deu ao respeito e foi bastante profissional, assumindo uma postura descontraída mas, ao mesmo tempo, impondo seus limites - tanto é que negou quando Biel se ofereceu para beijá-la.

A futilidade de cada razão proposta pela fã chega a ser risível, mas é preocupante notar que esses são os valores defendidos por muitos e muitas jovens. Muito provavelmente, isso faz com que sujeitos como o próprio Biel cheguem à fama, mesmo sendo pessoas abertamente desprezíveis. E tudo isso por causa de seu corpo.

Outra questão bastante assustadora é a fixação de Biel pelo estupro. A jornalista relatou que, depois de terminada a entrevista, o "cantor" disse que, se não tivesse que atender outros jornalistas posteriormente, a levaria ao hotel e a "estupraria rapidinho". Em seus posts no Twitter, o termo "estupro" é usado de forma banal.

Em entrevista, o recado de Biel à jornalista assediada reforça o caráter egoísta de alguém que não está acostumado à responsabilidade e procura apontar o outro como causador de efeitos que, na verdade, resultaram de seus próprios erros: “Eu queria primeiro deixá-la ciente do quanto ela prejudicou minha carreira. É um trabalho de anos, não só meu, mas de um grupo empresarial, de uma gravadora”. 


segunda-feira, 9 de maio de 2016

UFLA e a discriminação

[Nota prévia: Vini, obrigada por ser quem é!]

No dia 5 de maio, quinta-feira, Pablo Gabriel Galiza Barbosa, estudante do curso de Química da UFLA (Universidade Federal de Lavras) vestiu-se com uma camiseta customizada e uma saia preta longa para ir à faculdade. Lá, foi interpelado pelo segurança, que afirmou que a maneira como Pablo estava vestido era um trote e que, devido às políticas da instituição ele não poderia assistir às aulas usando aquelas roupas.

Mesmo depois de Pablo ter afirmado, com todas as letras, que aquela era a forma como se vestia normalmente, e que não havia relação alguma com brincadeiras aplicadas por universitários, o segurança se recusou a permitir que ele permanecesse na faculdade, chegando ao ponto de acionar a Polícia Militar lotada no campus para que abordasse o aluno.

Ainda que Pablo insistisse no fato de que havia escolhido sua roupa e que aquela era uma opção de seu cotidiano, a PM lhe fez ler o regimento interno, em que constavam as políticas da universidade a respeito do trote.

Claramente, nem o segurança nem a PM estavam dispostos a ouvir o que o universitário tinha a dizer. Pablo foi encaminhado para conversar com o pró-reitor, que não estava presente e, porque no momento, compreensivelmente, encontrava-se nervoso, foi levado à sala da psicóloga da universidade. No entanto, o segurança que interpelara o aluno adentrou com ele na sala para dar sua versão dos fatos. Pela terceira vez, Pablo foi silenciado.

Os atos do segurança revelam como a questão da discriminação não é levada a sério quando ocorre pontualmente e de maneira velada. O critério utilizado para vetar a entrada do aluno é baseado em princípios preconceituosos, como é possível notar ainda na fala do reitor, José Roberto Scolforo, em entrevista para a EPTV. Segundo afirmou, "A pessoa veio fora de um padrão considerado por ele razoável observando as normas e, portanto, ele de uma forma extremamente cortês considerou que aquilo ali não era uma vestimenta adequada".

Podemos inferir que um padrão considerado razoável pelo segurança passa pela lógica que divide roupas entre “femininas” e “masculinas”, mas não é esse o maior problema na atitude do funcionário. A tentativa de imposição de sua percepção, segundo alunos da faculdade que conhecem Pablo e acompanharam o desenrolar da situação, foi de intimidação e silenciamento do garoto.

Se o trabalho do segurança é o de cumprir ordens da instituição e obedecer às regras, isso não pode ser feito com violação da dignidade de qualquer aluno. Ademais, ao acionar a Polícia Militar, o segurança excedeu sua função, pois somente a reitoria é autorizada a isso.

A indignação de Pablo e das demais pessoas que protestaram nas dependências da universidade é, antes, causada pelo cerceamento da expressão de identidades dentro de um local em que a liberdade deveria prevalecer.


Um grupo de 5 estudantes conversou com o reitor após o ocorrido, estabelecendo alguns acordos, conforme relatado pelo Vinícius Lucas de Carvalho, estudante do mestrado da UFLA e militante pelos direitos LGBTTTQIA+. Reproduzo, aqui, suas próprias palavras, após segunda matéria (tendenciosa) veiculada na EPTV, filial da Rede Globo de Lavras:

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Luana, negra, pobre e lésbica, morre após ser espancada por PMs


Luana Barbosa dos Reis Santos, de 34 anos, ao levar o filho de 14 anos à aula, em Ribeirão Preto, parou para cumprimentar um amigo que estava num bar. Parada na esquina da rua onde morava, no bairro Jardim Paiva II, localizado na periferia da cidade, foi abordada e espancada por policiais.
De repente, gritos e tiros tomaram conta do local na noite de 8 de abril, e uma vizinha se apressou a avisar os familiares: “Corre que eles vão matar a Luana”. 
As versões de como tudo começou variam. Segundo a própria Luana, em vídeo gravado logo após as agressões, os policiais a mandaram abaixar a cabeça e colocar as mãos para trás. Ao pedir que a revista fosse feita por uma policial mulher e não ter seus direitos respeitados, Luana se recusou a deixar que o procedimento continuasse e foi aí que as agressões começaram. O vídeo com o relato de Luana contém cenas fortes:

Depois de algemada, Luana recebeu um soco e um chute, além de apanhar repetidas vezes com cassetetes e até mesmo com seu próprio capacete. De acordo com testemunhas, policiais chutaram Luana para fazê-la abrir as pernas e ela caiu no chão.  Ao se levantar, deu um soco em um dos policiais e chutou o pé de outro, o que levou as agressões a se intensificarem.
Após o espancamento, os PMs entraram na casa dos familiares, alguns escoltando o filho de Luana e perguntando se ela usava ou traficava drogas, se roubava, no que trabalhava. Revistaram o quarto dela, bem como objetos de outros familiares.
Ela teria sido levada à delegacia apenas de top e cueca, com os olhos inchados, marcas pelo corpo, principalmente na região do abdômen. Segundo um familiar entrevistado pela Ponte Jornalismo, ela vomitava muito e precisou de ajuda para assinar os termos que ela mal conseguia ler, por conta do inchaço nos olhos e porque cambaleava.
Somente depois de prestar declaração, foi leva à Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas, onde permaneceu internada, mas faleceu 5 dias depois devido a uma isquemia cerebral aguda causada por traumatismo crânio-encefálico.
Os policiais relatam que a abordagem se deu porque Luana era suspeita de estar pilotando uma moto roubada. Conforme consta no documento oficial da delegacia, os PMs alegam terem sido desacatados e agredidos pela mulher, que estava "descontrolada".
Emdeclaração ao G1, o tenente coronel da PM, Francisco Mango Neto, nega quetenha havido excessos na abordagem e completa: "Na realidade foi para contê-la. Tanto que os policiais estavam muito mais lesionados, com cortes, e ela não. Ela foi íntegra para a delegacia, lá foi solicitado exame de corpo de delito, o qual ela deveria passar". Sobre a morte, disse que ainda seria preciso uma apuração: "Vamos apurar se esse AVE ela teve por lesão ou se teve por um outro motivo, como drogas, anabolizantes, porque ela era uma lutadora de arte marcial, bem forte".
Os suspeitos da agressão de Luana, Douglas Luiz de Paula, Fábio Donizeti Pultz e André Donizeti Camilo, do 51º Batalhão da corporação, estão sendo investigados. Procurados pela Ponte Jornalismo, não quiseram dar declarações sobre o caso.
Trata-se de uma situação recorrente no Brasil: pobre e negra, Luana havia deixado a prisão em 2009, quando foi acusada de porte de arma e roubo. A irmã Roseli, professora, conta que desde então ela havia dado continuidade aos estudos e estava trabalhando como faxineira, garçonete e vendedora. Seu passado e sua identidade fizeram com que Luana estivesse vulnerável à violência policial.
Indignada, a irmã desabafou à Ponte Jornalismo: “Ela não pode refazer a vida? Ela não tem mais direitos e nem é ser humano por ter passagem? Não tinha nenhuma acusação contra ela. Estão tentando usar o fato de ela já ter tido passagem para convencer a opinião publica de que foi merecido. Que bandido bom é bandido morto. Por que não levaram ela presa pelo desacato? Por que fizeram tudo isso com ela? Ela já estava rendida, não tinha necessidade disso".



quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Como o islã vê a transexualidade?

A islamofobia é um problema real. Porque encaramos a sociedade islâmica a partir de nossas concepções cristãs-ocidentais, restringimos nossa visão e nos pautamos apenas nas notícias por aqui veiculadas - a maior parte delas tratando somente de guerras e ações terroristas.

Como é o caso de todas as religiões, o islã também apresenta segmentos fundamentalistas, alguns tendo se tornado conhecidos por seu radicalismo e violência. Mas não se pode dizer que são eles os representantes dos indivíduos muçulmanos, os quais correspondem a cerca de 23% da população mundial. São, antes, uma minoria.

Em termos de governos no poder em países de maioria muçulmana, de fato, predomina o conservadorismo. Política e religião estão intimamente ligadas na maior parte dos países de maioria islâmica e muitas das leis instituídas encontram suas justificativas exclusivamente nos ensinamentos sagrados.

A homossexualidade ainda é considerada um crime em diversos países islâmicos, podendo ser punida com a morte na Arábia Saudita, Sudão, Somália, Mauritânia e Irã. Em outras nações, por sua vez, há certa tolerância, como no caso do Egito, Tunísia, Indonésia, Albânia, Turquia etc. Porém, mesmo nesses países a discriminação contra homossexuais é recorrente, vindo com a não aceitação da família e, por vezes, o assassinato.

Curiosamente, apesar da condenação da homossexualidade, os tratamentos dispensados a transexuais são, por vezes, de relativa aceitação - não quero dizer que pessoas trans são bem tratadas ou totalmente aceitas, mas que a transfobia pode ser mais amena em algumas das nações muçulmanas.

Um caso interessante é o do Irã, que permite a cirurgia de redesignação genital desde 1983, após o líder islâmico, aiatolá Khomeini, passar uma fatwa (pronunciamento legal no Islã emitido por uma autoridade religiosa) permitindo a operação aos "diagnosticados como transexuais".


O governo ajuda a pagar pelas cirurgias pois considera a transexualidade uma doença que pode ser curada, usando como argumento o fato de a condição não ser mencionada no Alcorão, nem considerada como um pecado - diferentemente da homossexualidade, que é encarada como um comportamento imoral e condenável segundo o livro sagrado.

O fato de o país permitir a cirurgia também não significa que haja uma liberdade de escolha para pessoas transgênero: passar pelas operações são uma necessidade para que o indivíduo se encaixe na sociedade como alguém "normal". Aqueles ou aquelas que não passam pela transição e pela cirurgia são considerados disruptivos, enganadores, pois dizem ser portadores da "doença" mas rejeitam sua "cura". Seu comportamento é visto como um pecado porque rompe com a ordem e a organização social.

Há outras questões ainda mais complexas no que diz respeito à permissão para que sejam realizadas cirurgias de redesignação e à suposta aceitação de transexuais no Irã. A primeira delas tem a ver com a precipitação que pode acometer algumas pessoas que, sentindo-se "diferentes", logo buscam a operação - afinal, quando a homossexualidade é veementemente condenada, qualquer homem que se sinta "efeminado" ou mulher "masculinizada" pode encarar o diagnóstico de transexualidade e posterior transição como uma maneira de se obter melhor qualidade de vida ou mesmo de sobreviver num país onde ser gay é crime capital.

A segunda questão está no próprio reforço da normatividade, quando ainda se busca ter controle sobre o corpo de cada cidadão. Se, por um lado, permite-se a transição, por outro, não se trata de uma escolha ou de um apoio à diversidade. Na verdade, essa permissão trabalha a favor de uma uniformização do gênero por meio da qual transexuais são apoiados a fim de se encaixarem na sociedade que visa à manutenção da ordem.

-------
Documentário: "Transexual no Irã (Ser como os outros)"

domingo, 7 de junho de 2015

Tatuados e preconceituosos - parte 2

Em setembro do ano passado eu publiquei aqui um texto sobre o preconceito dentro da própria comunidade de adeptos das modificações corporais. Acho extremamente irônico como muitas pessoas que sofrem com o preconceito não se importam em lutar contra ele e, não raro, acabam por propaga-lo ou reforça-lo ainda mais.

Desta vez, a manifestação de preconceito de um tatuador foi direcionada à comunidade LGBT. Novamente, trata-se de alguém sujeito à discriminação social que, nem por isso, preocupa-se em deixar de discriminar outros grupos.


Infelizmente, o comentário do tal tatuador não me surpreende. O meio dos adeptos à tatuagem tem uma certa reputação como machista, ainda que muito tenha mudado nos últimos anos. Não há muito tempo que tatuadoras eram tratadas com pouco respeito por profissionais e tatuados, e ainda acontece de indivíduos se recusarem a ser tatuados por mulheres, por incrível que pareça.

Outra questão sobre a qual gostaria de chamar a atenção está no teor sarcástico do comentário do tatuador - afinal, um grupo oprimido adquirir direitos não significa que o grupo opressor perderá direitos; trata-se apenas de se nivelar a situação. Quando a união civil homossexual não era permitida, a união civil heterossexual era um privilégio detido por um grupo; ao se permitir que o homossexual tenha o mesmo privilégio de heterossexuais, ambos os grupos passam a ter uma igualdade de direito no âmbito em questão.

No meio LGBT talvez o grupo representado por homens homossexuais tenha se tornado mais visível - a começar pelo próprio uso mais frequente do termo "gay", como em "Parada Gay" - e por essa razão lésbicas, bissexuais e transgêneros vêm procurando dar mais ênfase a suas respectivas vozes. Daí a chamada publicada pelo Portal Terra.

Ao questionar se o heterossexual ainda teria os mesmos direitos o tatuador simplesmente mostra como tendemos a enxergar nossos próprios umbigos. Ora, heterossexuais sempre tiveram seus direitos garantidos sem precisar lutar por eles e isso não vai mudar! Aquele que não tem o direito é que deve clamar por ele, na busca por se igualar, na medida do possível, ao opressor, em termos de "facilidade social".

Passemos, então, a outro grupo oprimido: o dos tatuados. Ainda temos de nos impor diante de situações específicas, por exemplo, no que diz respeito ao mercado de trabalho. Empresas e instituições governamentais que se recusam a empregar tatuados continuam a existir - elas nos negam o direito de trabalhar. Então não deveríamos lutar para garanti-lo? Imagine você se, ao perceber que uma instituição empregou alguns sujeitos tatuados, um "não-tatuado" começasse a questionar a empresa, perguntando se ela ainda estaria empregando pessoas sem tatuagem... Pois é, não há lógica nenhuma nisso. Mas é justamente essa linha de pensamento que deve ser empregada no comentário feito pelo tatuador na notícia sobre LGBTs.

Parece-me que as pessoas estão cada vez mais impulsivas. O imediatismo que se instalou em nossa cultura se instalou também em nossa fala... queremos tanto comentar, falar, marcar nossa "presença virtual" que não estamos dispostos a gastar um pouco de tempo na reflexão. As respostas devem ser cada vez mais imediatas e, por consequência, cada vez menos "pensadas".