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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

sábado, 17 de setembro de 2016

Resgatando a história LGBTTTQ

Walter Benjamin escreveu, em suas Teses sobre o conceito de história, que aprendemos, com a tradição dos oprimidos, que o "estado de exceção" é, na verdade, uma regra. Para as minorias sexuais, a violência e discriminação são habituais e a obtenção de direitos requer lutas intensas e longas, algo que fica bastante óbvio quando nos dedicamos a estudar o passado dessas pessoas e o comparamos a um presente não muito melhor - no Brasil e no resto do mundo.

1) The New York Times fala sobre a violência LGBTfóbica no Brasil
2) Ataques a LGBTs continuam recorrentes no Brasil
3) Ativista trans foi estuprada e queimada até a morte na Turquia
4) Operação Tarântula: a caça às travestis no Brasil durante os anos 1970 e 80
5) Conheça a história de Gisberta, trans brasileira assassinada em Portugal

quinta-feira, 14 de julho de 2016

ANTES DA CHEGADA DOS CRISTÃOS EUROPEUS, NATIVOS NORTE-AMERICANOS RECONHECIAM 5 GÊNEROS

Com a conversão forçada ao cristianismo, foi imposto também o sistema que só reconhece os gêneros masculino e feminino.


[Nota: O artigo original foi publicado no Blasting News, por mim, em 29 de junho. Esta é uma versão que revisei e ampliei, devido à grande repercussão do texto.]

Muitos conservadores continuam a insistir em uma "ideologia de gênero" que negaria a "natureza" humana ao afirmar que os gêneros são culturalmente construídos. Para eles, só existiriam dois gêneros, correspondentes aos sexos "masculino" e "feminino", algo que já estaria determinado por "Deus" antes do nascimento.
No entanto, a ideia restrita dos papéis de gênero como a conhecemos hoje, baseada no binário homem/mulher, apenas foi incorporada pelas tribos norte-americanas após a chegada dos europeus, com a imposição das crenças cristãs.
A visão diferenciada dos gêneros, que existia em muitas comunidades indígenas, não apenas na América do Norte, mostra como a cultura de um povo influencia os papéis de gênero e a maneira como enxergamos as expressões e sexualidades de acordo com nossas crenças.
Para os nativos norte-americanos, havia um grupo de regras específicas que tanto homens quanto mulheres deveriam obedecer para que fossem considerados "normais" dentro de uma tribo. As pessoas que reuniam em si características femininas e masculinas eram vistas com reverência, pois se acreditava que tinham grande poder.
Segundo o site Indian Country Today, especializado em notícias sobre povos indígenas, entre os norte-americanos eram reconhecidos 5 gêneros diferentes: masculino, feminino, dois-espíritos masculino, dois-espíritos feminino e o que hoje chamaríamos de transgênero. As nomenclaturas são diferentes para cada tribo, de acordo com os dialetos, mas referem-se a identidades de gênero semelhantes.
A crença dos indígenas norte-americanos era a de que algumas pessoas nasciam com um espírito feminino e outro masculino que se expressavam perfeitamente em um mesmo corpo. Em geral, não havia questões morais nem hierárquicas associadas às expressões de gênero ou à sexualidade; uma pessoa era julgada pela sociedade conforme seu caráter e de acordo com o que contribuía para a tribo.
A maioria dos grupos indígenas tem palavras específicas para se referir aos membros de sua sociedade cujas expressões de gênero são variantes em relação ao binário normativo. 
Entre os índios Yuman, por exemplo, chama-se elxa o indivíduo que, nascido como do "sexo masculino", teria sofrido uma mudança em seu espírito, resultante de sonhos que tinham durante a puberdade. Chama-se kwe'rhame a pessoa que, nascida como do "sexo feminino", desde pequena brinca com artefatos masculinos e que, ao crescerem, apresentam características sexuais secundárias femininas subdesenvolvidas.
Os índios Cocopa chamam e L ha aos indivíduos do "sexo masculino" que desde bebê demonstram um "caráter feminino". Os war'hemeh, por sua vez, nascem como do "sexo feminino", mas brincam com meninos e aprendem a confeccionar arcos e flechas.
Entre os Mohave, garotos destinados a se tornarem xamãs costumavam colocar os pênis entre as pernas e se exibir como garotas, passando ainda por um ritual de iniciação aos 10 ou 11 anos de idade, em que o futuro xamã é publicamente vestido com uma saia e tem seu rosto pintado. Além dessa manifestação, reconheciam-se também as alyha (que insistiam inclusive que o pênis fosse chamado de clitóris) e os hwane.
Os Navaho usavam o termo nadlE para se referir a "travestis" e hermafroditas.  
Desde 1989, nativo-americanos que militavam pela diversidade sexual e de gêneros resgataram o termo "dois-espíritos" (em inglês, two-spirit) para reafirmar sua identidade trans. Assim, "dois-espíritos" passou a ser uma expressão universal para identificar nativos e seus descendentes, que se considerassem transgênero, entre as tribos norte-americanas. 
Quando chegaram ao território norte-americano, exploradores que testemunharam a presença desses indivíduos que não se encaixavam no padrão binário do masculino e feminino consideraram aquilo um pecado, uma espécie de maldição que recaiu sobre aquelas comunidades por não se dedicarem ao cristianismo.
Estudos apontam que a existência de pessoas que hoje reconhecemos como transgêneros teria sido observada em quase todo o continente norte-americano. Vistos como homens efeminados que se travestiam, esses indivíduos foram chamados de "berdache" pelos colonizadores, termo que acabou sendo usado de forma genérica até mesmo por antropólogos e pesquisadores até o fim do século XX. Contudo, sua origem revela que se trata de uma denominação pejorativa: o termo é derivado do francês, "bardache", usado para se referir a homossexuais passivos e homens que se prostituíam.
A extinção das crenças nativas também aconteceu por todo o continente americano. Colonizadores espanhóis também se empenharam em destruir códices (manuscritos gravados em madeira) aztecas que mencionavam dois-espíritos e seus poderes mágicos. No Brasil, portugueses igualmente se esforçaram para erradicar as identidades de gêneros e comportamentos sexuais que hoje seriam considerados como transgeneridade e homossexualidade.
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Fontes:

quinta-feira, 14 de abril de 2016

A transfobia continua e a culpa é de todos


Na segunda-feira eu publiquei uma notícia sobre como a transfobia não parte só das pessoas que agridem fisicamente um indivíduo trans, mas também daquelas que fazem comentários preconceituosos mascarados como "opiniões".

Agora, a YouTuber Mandy Candy expôs mais exemplos - ainda piores - de como o ódio deliberado a pessoas transgênero é propagado pela rede. E se o teor dos comentários já nos incomoda por si só, imagine como é para alguém que lê (ou ouve) esse tipo de coisa diariamente...

Em um vídeo extremamente corajoso, ela revelou sobre sua cirurgia de redesignação e explicou, de forma bastante clara, sua necessidade de passar pelo procedimento e como se sentia antes dele.
Não faltaram comentários afirmando que ela havia se mutilado, que é um absurdo o SUS oferecer essa cirurgia, que ela precisa de tratamento psicológico porque é doente...

A questão é que as pessoas não precisam ser favoráveis à transgeneridade ou até aceitar conviver com alguém trans intimamente. Mas compreender o sofrimento desses indivíduos e procurar exercer alguma tolerância por saber que se trata de uma condição sobre a qual eles/as não têm controle é o mínimo que se espera de um indivíduo com qualquer resquício de bom senso.

É certo que as ciências e a medicina ainda não descobriram todos os fatores envolvidos na transgeneridade (na verdade, não descobriram nem mesmo os fatores envolvidos na identidade de maneira geral), mas há um número considerável de pesquisas que oferecem uma prova da existência dessa condição a nível biológico. Sendo assim, não se trata de "acreditar" ou não que uma pessoa se identifique como alguém do outro gênero, pois a existência dessa pessoa já foi comprovada e legitimada cientificamente - e numa sociedade em que as ciências são vistas como discursos inquestionáveis, isso é muito importante.

Para que alguém chegue a passar pela cirurgia de redesignação genital, é certo que já tentaram tratamentos psicológicos, psiquiátricos (pelo menos aquelas pessoas que têm condição para tanto) e passaram muito tempo se perguntando se a decisão pelo procedimento era o certo a se fazer. Por ser uma cirurgia grande, complexa, a recuperação é longa e requer muito cuidado, um dos muitos motivos que levam pessoas trans a não desejar passar pela redesignação.

Vale lembrar também que não existem apenas dois tipos de genitais - esses dois tipos, o pênis e a vagina, são o que a ciência usa como modelo. Há casos múltiplos de genitais intersexo e o motivo de afirmarmos que as classificações "homem" e "mulher" não pode ser restrita à aparência do órgão sexual externo tem relação com essa impossibilidade de se apontar, em certos casos, se a pessoa é de fato "homem" ou "mulher". Isso sem falar em toda a simbologia social atrelada aos "sexos" sem qualquer base na biologia.

Sobre a dor e o sofrimento pelo qual passam essas pessoas que não podem se enxergar em seu próprio corpo, certamente a Mandy pode falar melhor que eu:

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Desserviço: "imprensa" que distorce e não se informa


Após ter feito a cirurgia de redesignação genital em 2012 na Tailândia, Lea T. tem falado, em algumas entrevistas, sobre seu arrependimento.

Tendo passado por uma experiência ruim durante a recuperação, Lea T. repensou sua condição de mulher, afirmando que "ninguém vai virar mulher com a vaginoplastia". Essa fala é importante e deve ser destrinchada - e não distorcida como a imprensa vem fazendo.

Após a vaginoplastia, a modelo teve gangrena, certamente um trauma que a deve ter feito refletir muito. O que ela diz é que muitas trans procuram se tornar "mulheres completas" de acordo com os padrões impostos pela sociedade, que não aceita uma mulher trans que esteja satisfeita com seu corpo antes da redesignação genital.

Ao que parece, seu arrependimento foi o de ter procurado satisfazer esses padrões e, como ela disse de forma muito clara em entrevista à Oprah Winfrey: "Para mim foi um periodo intenso, de muita pressão sobre mim e minha vida. Fazer uma operação de mudança de sexo mudará uma parte de seu corpo. Uma parte realmente íntima do seu corpo, mas isso é tudo. Você não muda o seu cérebro, não muda os seus olhos, não se torna uma princesa após a operação.... Você continua a ser a mesma pessoa. Quando acordei (da cirurgia), ainda era eu mesmo, gostava das mesmas coisas".

É interessante notar como a fala de Lea expõe a pressão que todas enfrentam pela sociedade e como isso influencia em grande parte as decisões de uma pessoa. Normalmente, ninguém procura se informar a fundo a respeito da transgeneridade antes de dar sua opinião - quase sempre equivocada e infundada - e vê no discurso agora proferido por ela uma justificativa para se posicionar contra a aceitação dos indivíduos trans.

Um exemplo é a matéria preconceituosa e rasa publicada no blog do Leo Dias, no jornal O Dia:

O texto do blog sugere que Lea T. está arrependida de ter "virado transexual" (entre aspas, afinal, ninguém "vira" trans, a pessoa É trans), como se quisesse "voltar" a ser do gênero masculino. Aqui, o discurso claramente confunde a experiência traumática de Lea e seu arrependimento de ter decidido pela redesignação com um arrependimento por ser quem é - este último, uma afirmação absurda.

Como se não fosse o suficiente, a matéria mistura gênero e sexualidade, como se uma mulher trans fosse, por associação, heterossexual. Isso reforça o que chamamos de "heteronormatividade", que apenas enxerga o comportamento hétero como norma e ignora outras orientações.

Uma mulher trans pode muito bem ser lésbica ou bissexual. E, reforçamos, Lea T. não se arrepende de ser uma mulher trans. Seu arrependimento está na decisão de passar por uma cirurgia bastante invasiva e delicada que fez com que ela ficasse muito tempo em recuperação - e que não alterou sua mente.

Seu caso não é exclusivo. Muitas mulheres que se submetem à vaginoplastia o fazem para se encaixar na sociedade e acabam se arrependendo depois porque o resultado é unicamente físico. Uma cirurgia não torna uma mulher realizada - e isso serve para todas. Há pessoas trans que não sentem a menor necessidade de passar por intervenções cirúrgicas e isso deve ser respeitado, pois sua realização não depende das modificações físicas.

As pessoas parecem incapazes de entender que existe uma gama muito ampla de expressões de feminilidade e masculinidade, e que nem sempre adequar-se ao que esperam de você é sinônimo de felicidade. Uma mulher trans é uma mulher, pois é essa sua identidade. O que ela fará em seu corpo para expressar essa identidade é uma escolha que só cabe a ela.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

29 de janeiro, Dia da Visibilidade Trans


Como já devem ter notado pelas redes sociais, hoje é o Dia da Visibilidade Trans (na foto, a lindíssima Raquel Virgínia, uma das vocalistas da banda As Bahias e a Cozinha Mineira). A data vem para nos lembrar da luta - esta, diária - das pessoas trans para que seus direitos básicos sejam garantidos em uma sociedade que pouco ou nada faz para acolhê-las.

Há algumas notícias boas no que concerne principalmente à adoção do nome social por parte de algumas instituições, além de histórias pessoais inspiradoras. Mulheres como Maria Clara Araújo, Sofia FaveroDaniela Andrade, entre outras - e outros também - expõem a realidade trans e escrevem sobre suas experiências de forma esclarecedora e contundente, militando diariamente pelo direito de ter suas identidades legitimadas.

Por outro lado, os dados continuam a assustar: só neste 2016 foram registradas, até o momento, 56 mortes de mulheres trans! Ao lado desse número encontramos ainda comentários discriminatórios e que estimulam ainda mais o ódio ao sujeito transgênero. Um exemplo é a postagem, feita no Facebook, por um professor da Unicamp, a qual ele parece ter apagado após reclamações:


Esse professor não deixa clara somente sua intolerância, mas também seu desconhecimento do funcionamento da língua - que é extremamente maleável e está em constante transformação - e, principalmente, sua desatualização em relação à biologia. Como se não bastasse, é antiquado o suficiente para falar em roupas "de garoto", como se uma travesti precisasse usar roupas "femininas" para ter sua feminilidade reconhecida.

O conceito de "travesti" ao qual o professor se refere não é mais usado há muito tempo; à pessoa que se transveste chamamos "cross-dresser". Estudos sobre o grupo social ao qual hoje denominamos "travestis" vêm sendo feitos desde os anos 1990 e a denominação foi apropriada em toda a América Latina por travestis ativistas já naquela época. 

Sobre a questão biológica, não nos esqueçamos, existe também um número considerável de estudos tanto sobre a inconformidade entre corpo e mente que é classificada como "transexualidade" como sobre o amplo espectro sexual de espécies diversas, comprovando a não limitação ao mero binômio homem/mulher ou macho/fêmea. Além do mais, um sujeito que ignora a existência da transgeneridade invalida, ainda, inúmeras culturas ao redor do mundo nas quais, desde a antiguidade, expressões de gênero para além da masculina e da feminina são reconhecidas.

Em suma, esse professor revela desconhecer os processos de formação e modificação da linguagem, os estudos médico-biológicos a respeito do tema, além das ciências sociais e antropológicas que legitimam o sujeito trans. Não se trata, dessa forma, de alguém capaz de tecer comentários sobre essa questão.

A travesti que entra no banheiro feminino não está tomando o espaço de ninguém. Se a mulher que está no banheiro (no caso, o relato é da esposa do professor) sente que seu espaço está sendo tomado pela presença de outra pessoa isso significa que aquela mulher não sabe dividir o espaço com as diferenças - para ela, somente as mulheres iguais à ela devem dividir o mesmo banheiro. Afinal, se a mulher que se incomodou preocupa-se com um assédio, ela está cometendo um pré-julgamento com base no estereótipo da travesti "barraqueira"; essa mulher deve sentir-se preocupada, também, se uma mulher com roupas "de garoto" entrar no banheiro por aparentar masculinidade, ou com uma mulher que entre usando roupas sujas, por aparentar pobreza. Para esse tipo de pensamento não há outro nome: é discriminação. 

Sabemos que o conservadorismo emerge com mais força quando se vê afrontado por mudanças. Indivíduos conservadores têm medo do novo, têm medo de ser obrigados a conviver com as diferenças, pois são elas que revelam o quão frágeis são seus pensamentos e suas "verdades absolutas" (para maiores informações, ver: Como conversar com um fascista, de Márcia Tiburi).

Meu último recado é para as mulheres que precisarem usar um banheiro público à noite: se encontrarem uma travesti, aproveitem a oportunidade para fazer uma nova amizade. E se o lugar for deserto, não se esqueça de propor: "vamos juntas?".

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Como o islã vê a transexualidade?

A islamofobia é um problema real. Porque encaramos a sociedade islâmica a partir de nossas concepções cristãs-ocidentais, restringimos nossa visão e nos pautamos apenas nas notícias por aqui veiculadas - a maior parte delas tratando somente de guerras e ações terroristas.

Como é o caso de todas as religiões, o islã também apresenta segmentos fundamentalistas, alguns tendo se tornado conhecidos por seu radicalismo e violência. Mas não se pode dizer que são eles os representantes dos indivíduos muçulmanos, os quais correspondem a cerca de 23% da população mundial. São, antes, uma minoria.

Em termos de governos no poder em países de maioria muçulmana, de fato, predomina o conservadorismo. Política e religião estão intimamente ligadas na maior parte dos países de maioria islâmica e muitas das leis instituídas encontram suas justificativas exclusivamente nos ensinamentos sagrados.

A homossexualidade ainda é considerada um crime em diversos países islâmicos, podendo ser punida com a morte na Arábia Saudita, Sudão, Somália, Mauritânia e Irã. Em outras nações, por sua vez, há certa tolerância, como no caso do Egito, Tunísia, Indonésia, Albânia, Turquia etc. Porém, mesmo nesses países a discriminação contra homossexuais é recorrente, vindo com a não aceitação da família e, por vezes, o assassinato.

Curiosamente, apesar da condenação da homossexualidade, os tratamentos dispensados a transexuais são, por vezes, de relativa aceitação - não quero dizer que pessoas trans são bem tratadas ou totalmente aceitas, mas que a transfobia pode ser mais amena em algumas das nações muçulmanas.

Um caso interessante é o do Irã, que permite a cirurgia de redesignação genital desde 1983, após o líder islâmico, aiatolá Khomeini, passar uma fatwa (pronunciamento legal no Islã emitido por uma autoridade religiosa) permitindo a operação aos "diagnosticados como transexuais".


O governo ajuda a pagar pelas cirurgias pois considera a transexualidade uma doença que pode ser curada, usando como argumento o fato de a condição não ser mencionada no Alcorão, nem considerada como um pecado - diferentemente da homossexualidade, que é encarada como um comportamento imoral e condenável segundo o livro sagrado.

O fato de o país permitir a cirurgia também não significa que haja uma liberdade de escolha para pessoas transgênero: passar pelas operações são uma necessidade para que o indivíduo se encaixe na sociedade como alguém "normal". Aqueles ou aquelas que não passam pela transição e pela cirurgia são considerados disruptivos, enganadores, pois dizem ser portadores da "doença" mas rejeitam sua "cura". Seu comportamento é visto como um pecado porque rompe com a ordem e a organização social.

Há outras questões ainda mais complexas no que diz respeito à permissão para que sejam realizadas cirurgias de redesignação e à suposta aceitação de transexuais no Irã. A primeira delas tem a ver com a precipitação que pode acometer algumas pessoas que, sentindo-se "diferentes", logo buscam a operação - afinal, quando a homossexualidade é veementemente condenada, qualquer homem que se sinta "efeminado" ou mulher "masculinizada" pode encarar o diagnóstico de transexualidade e posterior transição como uma maneira de se obter melhor qualidade de vida ou mesmo de sobreviver num país onde ser gay é crime capital.

A segunda questão está no próprio reforço da normatividade, quando ainda se busca ter controle sobre o corpo de cada cidadão. Se, por um lado, permite-se a transição, por outro, não se trata de uma escolha ou de um apoio à diversidade. Na verdade, essa permissão trabalha a favor de uma uniformização do gênero por meio da qual transexuais são apoiados a fim de se encaixarem na sociedade que visa à manutenção da ordem.

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Documentário: "Transexual no Irã (Ser como os outros)"

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Deus fez o homem, a mulher e as pessoas trans


O chato de você discutir com alguém que usa uma citação bíblica para comprovar seu ponto de vista restrito é que, para essa pessoa, tudo é fruto da vontade de Deus. Por essa lógica, devemos, todos, passar a vida sem modificar nossos corpos; devemos aceitá-los porque estariam de acordo com a vontade divina. Logo, uma pessoa transgênero vai contra essa vontade ao passar pela transição. Mas como é que esse leitor tão ávido da Bíblia e seguidor da palavra de Deus sabe que a transgeneridade não é, também, vontade Dele? Como podemos garantir que, existindo um Deus, ele não faça com que determinadas pessoas nasçam com uma incompatibilidade entre mente e corpo, sabe-se lá por qual motivo?

Para os defensores do determinismo biológico, que afirmam que só existe "macho" e "fêmea", configurações indicadas pelo sistema reprodutor, podemos rebater que exemplos de "transgeneridade" não ocorrem apenas entre os seres humanos - o que difere nossa transgeneridade seria a complexidade da nossa expressão social.

Entre as hienas, por exemplo, são as fêmeas que apresentam personalidade dominadora - característica que, em nossa espécie, afirmamos ser uma essência do homem - e detêm o falo (seus clitóris costumam ser maiores que os pênis dos machos e é a hiena com o clitóris maior a mais disputada para o acasalamento). Entre os leões, algumas fêmeas desenvolvem jubas e são, então, tomadas como machos.

Saindo da categoria dos mamíferos, podemos encontrar ainda os escorpiões amarelos, que se reproduzem por partenogênese porque não existem machos na espécie. Isso sem falar em todas as espécies para as quais a regra é o hermafroditismo (tênias, minhocas, alguns peixes etc.).

Falo disso pois ainda me deparo com muitas pessoas deslegitimando a transgeneridade com base em falsos argumentos biológicos, sem se preocuparem com o que existe em termos de estudos médicos e pesquisas, algumas delas que continuam a ser desenvolvidas e aprofundadas. É possível, sim, indicar causas biológicas da condição trans que fazem com que a pessoa note uma incongruência entre seu corpo e sua percepção de si mesma.

Até hoje, descobriu-se que o receptor de andrógenos, também conhecido como NR3C4, é ativado pela ligação com a testosterona ou dihidrotestosterona, em que tem um papel crítico na formação de características sexuais masculinas primárias e secundárias. Hare et al. descobriu que transexuais do [gênero] masculino para o feminino (mpf) apresentam repetições mais longas do gene, o que reduziria sua efetividade ao acoplar testosterona.

Sobre um variante genotípico para um gene chamado CYP17, que age nos hormônios sexuais pregnenolona e progesterona, descobriu-se estar ligado à transexualidade do [gênero] feminino para o masculino (fpm). Essas pessoas não só apresentam o variante genotípico com maior frequência, mas também têm uma distribuição alela equivalente à dos controles masculinos e diferentemente dos controles femininos.

Zhou et al. (1995) descobriu, em estudo pioneiro, que uma região do cérebro chamada de núcleo leito da estria terminal (em inglês designado pela sigla BSTc, em português, NLET) - conhecida por respostas ao sexo e à ansiedade - aparece, em transexuais mpf, no mesmo tamanho considerado normal para o sexo feminino, enquanto trans fpm apresentam o tamanho que é normal para o sexo masculino. Os transexuais do estudo haviam tomado hormônios, mas entre os indivíduos controle que, por uma variedade de razões médicas, haviam experienciado alguma condição hormonal reversa, o tamanho do NLET ainda se apresentavam de acordo com o gênero com que se identificavam. Não foi encontrada nenhuma relação com a orientação sexual.

Em outro estudo, por Kruijver et al. (2000), focou-se no número de neurônios do NLET em vez de seus volumes. Curiosamente, os resultados encontrados foram semelhantes aos de Zhou et al. (1995), com diferenças ainda mais dramáticas. Um sujeito mpf que nunca havia tomado hormônios também foi incluido e, ainda assim, sua contagem de neurôneos foi correspondente à dos cérebros femininos.

Em 2002, um estudo feito por Chung et al. descobriu que dimorfismos sexuais significantes no NLET não estão estabilizados até a idade adulta. Chung et al. teorizaram que mudanças nos níveis de hormônio no feto produzem mudanças na densidade sináptica do NLET, na atividade neuronal ou no conteúdo neuroquímico, que mais tarde vão resultar em mudanças de tamanho e contagem de neurôneos, ou que o tamanho do NLET é afetado pela falha em se gerar uma identidade de gênero consistente com o sexo anatômico.
Ao rever as evidências em 2006, Gooren confirma a pesquisa como base para o conceito de que a transexualidade seria uma "desordem" de diferenciação sexual do cérebro dimórfico. Dick Swaab (2004) concorda.

Em 2008, uma região com propriedades similares àquelas do NLET em relação à transexualidade foi descoberta por Garcia-Falgueras e Swaab: o terceiro núcleo intersticial do hipotálamo anterior (designado em inglês pela sigla INAH3), parte da área pré-óptica. Para o estudo foi adotado o mesmo método de controle para uso de hormônio visto em Zhoy et al. (1995) e Kruijver et al. (2000). As diferenças encontradas foram ainda mais pronunciadas que no NLET; os homens controle apresentaram em média um volume 1.9 vez maior e 2.3 vezes mais neurônios que as mulheres controle e, novamente, independentemente da exposição a hormônio, transexuais mpf tinham resultados correspondentes aos das mulheres e fpm, correspondentes aos dos homens.

Enquanto a resolução de tomografias de Imagem por Ressonância Magnética (IRM), em geral, são bem claras, núcleos independentes não são visíveis devido à falta de contraste entre os tipos de tecido neurológicos. Sendo assim, imagens de MRI não mostram estruturas detalhadas como o NLET e o INAH3; estudos do NLET foram efetuados pela bissecção post mortem do cérebro.

Ainda assim, o IRM permite o estudo de estruturas maiores do cérebro com relativa facilidade. No estudo de Luders et al. (2009), foram observadas IRMs de transexuais mpf que ainda não haviam começado o tratamento hormonal. Apesar de suas concentrações regionais de massa cinzenta serem mais similares às de homens que de mulheres, notou-se um volume significantemente maior de massa cinzenta no putâmen em comparação aos homens. Dessa forma, concluiu-se que a transexualidade estava associada a padrões cerebrais distintos.

Outro fator foi estudado em um grupo de transexuais fpm que ainda não haviam tomado hormônios: valores fracionários de anisotropia para matéria branca nas partes medial e posterior do fascículo longitudinal superior (FLS) direito, no fórceps menor e no trato corticoespinhal. Rametti et al. (2010) descobriram que, em comparação a mulheres controle, trans fpm apresentaram maiores valores fracionários de anisotropia na parte posterior do FLS direito, no forceps menor e no trato corticoespinhal. Comparados a homens controle, os trans fpm apresentaram apenas valores fracionários de anisotropia menores no trato corticoespinhal.

Hulshoff Pol et al. (2006) estudaram o volume bruto do cérebro de pessoas que passaram pelo tratamento hormonal. Eles descobriram que o volume total do cérebro de um indivíduo muda em direção ao tamanho do sexo para o qual se transiciona durante o tratamento. Assim, concluíram que as descobertas sugerem que, ao longo da vida, os hormônios produzidos pelas gônadas são essenciais para manter certos aspectos sexuais específicos no cérebro humano. Contudo, o estudo não explica as diferenciações encontradas em pessoas transexuais que ainda não haviam começado a tomar hormônios.

Em 2013, um estudo baseado em publicações prévias e pesquisas conduzidas na ocasião apresentou dados interessantes referentes à transexualidade em gêmeos. Descobriram que em 39 pares de gêmeos masculinos monozigóticos, 13 (33%) deles se identificavam como transexuais (ambos os gêmeos). O mesmo foi encontrado em 8 de 25 pares de gêmeas (22,5%). Mas apenas 1 par entre 38 gêmeos dizigóticos (2.6%) se identifica como transexual (também, ambos os gêmeos). A porcentagem significante de transexualidade ocorrendo com ambos os gêmeos monozigóticos e a aparente falta de correspondência no caso dos dizigóticos, criados na mesma família ao mesmo tempo, reforça a teoria de que a identidade sexual seja influenciada pela genética.

Para se explicar as descobertas acima mencionadas, os mecanismos comumente citados são a exposição pré-natal ao andrógeno ou a falta dela, ou ainda pouca sensitividade aos andrógenos pré-natais. Schneider, Pickel e Stalla (2006) encontraram uma correlação entre o raio digital (média entre comprimento dos dedos, um marcador geralmente aceito para indicar exposição pré-natal ao andrógeno) e a transexualidade mpf. Trans mpf apresentam maior raio digital que homens controle e sua medida é comparável à de mulheres controle (indicando, portanto, que elas não teriam sido expostas ao andrógeno pré-natal).

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Fontes (em inglês):

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A dor e o suicídio das pessoas trans


Pessoas transgênero estão sujeitas à violência desde muito cedo, tendo sua identidade de gênero deslegitimada por um discurso que essencializa a aparência dos genitais, logo no nascimento. Assim, pressupõe-se que nosso gênero deva estar de acordo com o suposto “sexo biológico” – digo suposto pois essa determinação é feita pelo médico baseada somente na existência de pênis ou vagina.

Essa determinação, aparentemente simples, é o primeiro ato de constrição das identidades de gênero, o qual será reforçado por atitudes subsequentes que incluem a adoção de códigos de vestuário e comportamento – o conjunto dos códigos adotados indica a expressão de gênero que se espera do indivíduo com identidade de gênero masculina ou feminina.

Das meninas é esperada uma série de atitudes e preferências que as diferenciem dos meninos e vice-versa. Essas expectativas são plantadas logo que se descobre a gravidez: o feto mais agitado só pode ser um menino; no ultrassom, a imagem de um pênis avantajado é sinal de que ele será um “macho de verdade”.

Desde muito nova a criança cujo comportamento (ou seja, cuja expressão de gênero) não aparenta estar de acordo com o gênero que lhe foi designado é constantemente perseguida, pressionada, forçada a se “normalizar”. Trata-se de uma violência simbólica – não rara acompanhada de violência física – que possivelmente afetará o indivíduo pelo resto de sua vida.

A perseguição, de fato, não é exercida apenas pela família. Ela vem de frentes diversas, que incluem os amigos, a escola (logo no jardim de infância), a igreja, os vizinhos e vão continuar no trabalho, na faculdade, nas instituições de saúde, na política e assim por diante.

Essa pressão intensa pela adequação, somada aos discursos de exclusão e de negação da legitimidade da condição transgênero leva essas pessoas a internalizarem a discriminação. Elas passam a desprezar-se como a sociedade as despreza, a sentir vergonha de si mesmas e “dos problemas que causam” (por resistirem à adequação) – afinal, a culpa não é, nunca, da sociedade, mas dos “anormais”.

Dessa forma, o suicídio acaba sendo encarado, pelas pessoas trans, como uma saída de um mundo em que elas não se encaixam, numa sociedade que é incapaz de aceita-las como elas são.
Quando se matou, em dezembro de 2014, Leelah Alcorn, de 17 anos, deixou uma mensagem em seu Tumblr, dizendo: “A vida que eu teria vivido não valia a pena ser vivida... porque eu sou transgênero”.

Esse sentimento traz alguma compreensão às estatísticas de pesquisa publicada em janeiro de 2014 pelo Instituto Williams de Los Angeles, que revela que 41% das pessoas trans entrevistadas já tentou cometer suicídio em algum ponto da vida – em comparação a 20% de gays, lésbicas e bissexuais e 4,6% da população geral. Em outra pesquisa, feita em Ontário, no Canadá, 35% das pessoas trans entrevistadas relataram ter pensado em suicídio em 2014 e 11% chegou a tentar se matar.  

No Brasil ainda não há uma pesquisa formal realizada entre pessoas transgênero, mas, infelizmente, suponho que os números apresentem uma mesma realidade. Entre jovens LGBTTA+, o desejo de se matar não parece ser um relato pouco frequente – na verdade, o que impede de haver mais pesquisas sobre o tema é sua condição de tabu.

Pouco tempo depois da morte de Leelah, em fevereiro de 2015, Ash Haffner, um garoto trans de 16 anos, também cometeu suicídio jogando-se na frente de um veículo – a mesma maneira como Leelah tirou sua vida.

As reportagens sobre Leelah e Ash chamam a atenção por conta das declarações dos pais de ambos os jovens. Claramente, os pais de Leelah não aceitavam sua transgeneridade, algo que ela mencionou em seu bilhete de suicídio e que foi reforçado pelas declarações dadas por sua mãe à CNNtratando-a como “seu filho” e afirmando que não apoiavam sua decisão, “religiosamente”.

A mãe de Ash, por sua vez, insiste em trata-lo no feminino em declarações à TV, dizendo que o bullying foi a causa do suicídio “de sua filha”.  

Neste outubro de 2015, Ashley Hallstrom, de 26 anos, também se jogou na frente de um caminhão em uma estrada movimentada. De acordo com a página Planet Transgender, ela é a 20ª pessoa trans nos Estados Unidos a cometer suicídio em 2015.

Em sua nota de suicídio no Facebook, Ashley conta que desde cedo aprendeu que “pessoas como ela eram aberrações e abominações”, o que fez com que ela odiasse quem ela era. Apesar dos anos de sofrimento e depressão, Ashley manteve o desejo de ajudar outras pessoas trans ao deixar sua carta, que pede para que as pessoas compartilhem o máximo possível.


Como Leelah, Ashley alerta para como a sociedade precisa mudar para ser capaz de aceitar, receber e ajudar as pessoas trans. 

O estudo canadense publicado em junho de 2015 (sobre o qual falei anteriormente), realizado entre habitantes da cidade de Ontário, é um dos primeiros a considerar fatores que podem intervir nos riscos de suicídio das pessoas transgênero e as conclusões são bem claras: apoio social, redução da transfobia e o acesso a documentos retificados de acordo com a identidade de gênero são fatores associados a grande redução relativa ou até absoluta dos riscos de suicídio, bem como o acesso à terapia hormonal e às cirurgias que a pessoa julgar necessárias. Além do mais, o apoio dos pais foi bastante associado à redução do pensamento de suicídio entre as pessoas, juntamente com a auto-aceitação.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Pequenos detalhes que importam muito

(ilustração: Daniel Bueno, junho de 2013, para a Folha de S. Paulo)

Antes de expor minha crítica, gostaria de parabenizar a atitude da mãe Mariana Munhão e sua coragem ao dar um depoimento sobre a história do filho.

A pessoa que se assume trans passa por sofrimentos e conflitos imensuráveis, e o apoio da família e dos amigos é crucial para que se sintam bem no próprio corpo - um corpo que, de certa forma, os engana desde o nascimento. Somente o sujeito trans conhece e experiencia a própria dor. Mas quem o acompanha de perto, o ama e se preocupa com ele, também passa por seus dilemas, principalmente quando são indivíduos muito próximos, como os pais e os irmãos.

Às vezes, por mais que nos esforcemos para demonstrar apoio, compreensão e uma mente aberta, escorregamos em palavras e expressões que reforçam nosso apego ao chamado determinismo biológico - a crença de que a aparência de seus genitais e seu provável fenótipo é o que determina seu "sexo".

O relato de Mariana Munhão é profundo e serve como um ensinamento a muitos pais. Contudo, não posso deixar de expressar meu incômodo com a "frase de impacto" escolhida pela jornalista Gabriela Varella, que tomou o depoimento, para usar como chamada ao texto.

Da perspectiva de uma mãe, que viu o filho nascer com aspectos que fizeram com que ele fosse interpelado como "filha", é de se compreender que a sensação é a de uma garota que "virou" garoto - afinal, se desde o nascimento até a descoberta da transgeneridade Luan foi designado como menina, tem-se mesmo a impressão de uma pessoa se tornar outra, ao menos fisicamente.

Porém, quando a imprensa dá destaque a essa frase, "Não é fácil acordar e saber que sua filha virou filho", ela promove o reforço de uma ideia equivocada, que vem sendo propagada há muito e que é, em partes, responsável pela maneira discriminatória com que a sociedade enxerga as pessoas trans.
Ora, a filha não virou filho; "ela" sempre foi filho, "ela" se sentiu filho desde que pôde compreender sua identidade e compará-la com a de outras pessoas.

A pressão da família é a primeira de muitas enfrentadas pela pessoa trans. A pressão da escola, que evita tratar de questões de gênero e sexualidade - e agora ainda tem proteção de vereadores para que esses assuntos não sejam abordados -, vem em seguida e é quando o indivíduo pode realmente entender o que lhe espera na sociedade.

A criança cis - aquela que não questiona o gênero que lhe foi designado ao nascer - se certifica de sua identidade de gênero muito cedo e tem o aval dos pais para expressar como se sente, de acordo com essa identidade, pois está dentro das nossas expectativas sociais e culturais. A criança trans, por sua vez, é desencorajada pelo mesmo sistema, que a avalia como confusa - ou até como alguém com tendências homossexuais - e como incapaz de saber qual sua identidade de gênero tão cedo (veja bem, ninguém faz o mesmo questionamento a uma criança cis, aplaudida por reafirmar sua identidade diariamente).

Um estudo publicado em janeiro de 2015 mostrou que crianças trans demonstram suas identidades de gênero com a mesma consistência que crianças trans. Isso indica que, da mesma forma que a criança cis sabe qual é sua identidade de gênero, a criança trans também sabe de sua identidade "desviante", e elas são capazes de ter essa certeza desde os 5 anos de idade.

Ou seja, a criança trans não quer "virar" alguém do outro gênero, ela já se sente como alguém do outro gênero, mas precisa mostrar ao mundo esse sentimento e depende de outras pessoas - principalmente seus pais - para que ele seja validado. É a partir daí que entram as expressões de gênero associadas ao que é normalmente considerado masculino ou feminino. Para demonstrar sua transgeneridade, a criança passará a agir como as outras pessoas do gênero com o qual se identifica.

O problema do discurso que afirma que "é muito cedo para saber" tem a ver com uma ignorância voluntária por parte das pessoas, que usam essa justificativa somente quando o comportamento da criança não é o que se esperava. Afinal, para o garotão que nasceu com "o saco roxo" e adora ir para o colo de mulheres, nunca vai ser "muito cedo para saber" que ele é um macho heterossexual!

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Pela causa trans


Hoje, uma nova movimentação está rolando no Facebook. Na semana passada, com a aprovação do casamento igualitário pela Suprema Corte dos E. U. A., muita gente começou a modificar suas fotos de perfil para uma que tivesse as cores da bandeira LGBT. O que se iniciou como uma forma de comemorar rapidamente deu lugar a uma rede de apoio à causa, com heterossexuais aderindo a uma campanha global - e, não tem como negar, a uma moda, vá lá.

Acontece que, mesmo dentro da comunidade LGBT, existem "categorias" com menor visibilidade, como é o caso da letra "T", que designa indivíduos transgênero - transexuais, travestis e pessoas trans em geral.

Porque a sociedade ainda está apegada a uma lógica que associa automaticamente sexo biológico, gênero e sexualidade, muitos continuam a não compreender a condição trans, apesar dos esforços por parte de ativistas e artistas trans em torno do esclarecimento. Por vezes, pessoas trans sofrem com a rejeição até mesmo entre grupos LGBT, dentro dos quais deveriam encontrar apoio e empatia!

Como pessoa que escolheu transitar entre os gêneros, nunca senti, na pele, a mesma exclusão que pessoas trans, mas sei o quão doloroso é a jornada de cada um que deseja modificar o corpo para se sentir em conformidade com a mente. Por isso acho extremamente importante apoiar a causa e dar visibilidade às questões trans, para que essas pessoas deixem de ser vistas como "estranhas", "erradas", "doentes"... Apesar da tristeza que é tomar consciência do quão transfóbica é a sociedade ocidental, acredito no poder da visibilidade e da educação.



Peço, então, nesta sexta-feira, dia 3 de julho, e pelo restante do mês, que mudem suas fotos de perfil com as cores da bandeira trans, em apoio a nossos irmãos, amigos, companheiros, que lutam bravamente pelo direito de serem vistos como "pessoas reais".
Para aplicar o filtro, é só enviar uma foto do seu PC para o aplicativo (http://messica.codes/transflag) e salvá-la de volta - infelizmente, ele não faz a mudança automática, mas é só enviar a foto normalmente para o Facebook.

Abaixo, fiz a tradução do texto (com a devida permissão da autora) da própria criadora do app, Jessica Willow, explicando suas motivações e a importância de uma ação que, apesar de pequena, faz uma grande diferença...

Só pra constar, eu não estou nem aí pra limitar esses posts sobre meu filtro da bandeira trans (propaganda descarada - http://messica.codes/transflag). Apesar de ainda ser relativamente pequeno em termos de internet, essa iniciativa atingiu uma proporção que eu não imaginava, sendo compartilhada por celebridades trans, ativistas e grupos LGBT por todo o mundo (até agora chegou a 124 países, pra ser exata), e até mesmo iniciou uma ação no Brazil em protesto contra a violência que atinge pessoas trans.
Ainda assim, eu reparei em algumas confusões a respeito de certas coisas que eu gostaria de esclarecer. Não se trata apenas de orgulho, trata-se também de apoiar e mudar a opinião pública. É por isso que é ABSOLUTAMENTE CRUCIAL que ALIADOS CIS compartilhem e participem, bem como a comunidade trans. Como muitos de vocês sabem, a visibilidade pode ser extremamente perigosa para pessoas trans e o Facebook adora mirar em indivíduos trans por conta da política do nome “real”, então eu não estou pedindo para que nenhum trans se exponha etc.
De forma resumida, se você é um dos 26 MILHÕES de usuários do Facebook que mudaram sua foto para colocar a bandeira do arco-íris a fim de apoiar os direitos LGBT, você já deveria estar apoiando o “T”. Se você não apoia o “T”, livre-se da bandeira do arco-íris... pelo menos até você se educar a respeito da história do movimento LGBT (e não é nosso trabalho te educar também – por favor, pesquise, não é difícil)
Se você apoia o “T”, tente mudar sua foto com a bandeira para uma bandeira trans, para dar apoio à comunidade transgênero E ESPECIALMENTE A MULHERES TRANS “DE COR”, que começaram esse movimento. Nós podemos mudar a opinião pública e, obviamente, isso já aconteceu. 10 anos atrás eu não poderia imaginar que os direitos LGBT progrediriam dessa forma, mas vejam onde chegamos agora. Não podemos esperar mais 50 anos para que o “T” alcance o mesmo nível e DEMANDAMOS UMA AÇÃO AGORA. Claro que existem outras formas, reais, materiais, de nos apoiar, mas essa é uma ação bem pequena, simples, que tem o potencial de mudar o mundo.
(texto em inglês disponível no Tumblr da autora
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Sobre a questão das mulheres trans "de cor" terem dado início ao movimento LGBT, basta procurar pelo nome de Marsha P. Johnson no Google e saber quem ela foi. Eu mesma já falei um pouco dela em um texto anterior: "Sobre paradas, tensões e representações"