domingo, 17 de abril de 2016
quinta-feira, 14 de abril de 2016
A transfobia continua e a culpa é de todos
Na segunda-feira eu publiquei uma notícia sobre como a transfobia não parte só das pessoas que agridem fisicamente um indivíduo trans, mas também daquelas que fazem comentários preconceituosos mascarados como "opiniões".
Agora, a YouTuber Mandy Candy expôs mais exemplos - ainda piores - de como o ódio deliberado a pessoas transgênero é propagado pela rede. E se o teor dos comentários já nos incomoda por si só, imagine como é para alguém que lê (ou ouve) esse tipo de coisa diariamente...
Em um vídeo extremamente corajoso, ela revelou sobre sua cirurgia de redesignação e explicou, de forma bastante clara, sua necessidade de passar pelo procedimento e como se sentia antes dele.
Não faltaram comentários afirmando que ela havia se mutilado, que é um absurdo o SUS oferecer essa cirurgia, que ela precisa de tratamento psicológico porque é doente...
A questão é que as pessoas não precisam ser favoráveis à transgeneridade ou até aceitar conviver com alguém trans intimamente. Mas compreender o sofrimento desses indivíduos e procurar exercer alguma tolerância por saber que se trata de uma condição sobre a qual eles/as não têm controle é o mínimo que se espera de um indivíduo com qualquer resquício de bom senso.
É certo que as ciências e a medicina ainda não descobriram todos os fatores envolvidos na transgeneridade (na verdade, não descobriram nem mesmo os fatores envolvidos na identidade de maneira geral), mas há um número considerável de pesquisas que oferecem uma prova da existência dessa condição a nível biológico. Sendo assim, não se trata de "acreditar" ou não que uma pessoa se identifique como alguém do outro gênero, pois a existência dessa pessoa já foi comprovada e legitimada cientificamente - e numa sociedade em que as ciências são vistas como discursos inquestionáveis, isso é muito importante.
Para que alguém chegue a passar pela cirurgia de redesignação genital, é certo que já tentaram tratamentos psicológicos, psiquiátricos (pelo menos aquelas pessoas que têm condição para tanto) e passaram muito tempo se perguntando se a decisão pelo procedimento era o certo a se fazer. Por ser uma cirurgia grande, complexa, a recuperação é longa e requer muito cuidado, um dos muitos motivos que levam pessoas trans a não desejar passar pela redesignação.
Vale lembrar também que não existem apenas dois tipos de genitais - esses dois tipos, o pênis e a vagina, são o que a ciência usa como modelo. Há casos múltiplos de genitais intersexo e o motivo de afirmarmos que as classificações "homem" e "mulher" não pode ser restrita à aparência do órgão sexual externo tem relação com essa impossibilidade de se apontar, em certos casos, se a pessoa é de fato "homem" ou "mulher". Isso sem falar em toda a simbologia social atrelada aos "sexos" sem qualquer base na biologia.
Sobre a dor e o sofrimento pelo qual passam essas pessoas que não podem se enxergar em seu próprio corpo, certamente a Mandy pode falar melhor que eu:
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
Cura gay?
Nos meios religiosos é comum as propagandas falando de palestras oferecidas por pessoas que se intitulam "ex-gay" e "ex-travesti", indivíduos que aparentemente foram "curados" de seus "males". (O caso da Sarah Winter como ex-feminista não se encaixa aqui, ok? Falta de discernimento, algo que ela já demonstrava quando se dizia feminista, é outro tópico...)
Sabemos que na estratégia em que predomina a desonestidade intelectual vale tudo, por isso peço que se atentem às minhas palavras tendo em mente que eu não estou defendendo uma suposta "cura gay". Meu objetivo aqui é o de demonstrar que mudança de comportamento e mudança de orientação do desejo sexual são coisas diferentes e que o primeiro é possível - sem que ocorra o segundo.
No caso da "ex-travesti", essa pessoa provavelmente opta por suprimir sua identidade de gênero - o que, novamente, não significa que ela não se identifique como alguém do "gênero feminino", mas que escolheu não viver de acordo com esse aspecto de sua identidade.
Tomamos nossas decisões com base no que julgamos ser mais importante em nossa vida e isso faz com que cada um assuma suas próprias prioridades. E para muitos, encaixar-se nos padrões de "normalidade" pode ser uma necessidade subjetiva muito maior que poder exercer livremente sua sexualidade. Sendo assim, é possível que um indivíduo se torne "ex-gay" se ele preferir seguir os preceitos da igreja, por exemplo, em detrimento de sua orientação sexual.
O fato de uma pessoa ser "ex-homossexual" não significa que ela não sinta mais o desejo homossexual, mas que ela optou por negar essa parte de sua identidade.
E por falar em identidade, vale lembrar que assumir uma posição identitária é uma atitude política e social - a qual não vai, necessariamente, ditar todos os seus atos. O que quero dizer com isso? Bom, um homem homossexual pode muito bem fazer sexo com uma mulher e se sentir excitado durante a relação. Ele não deixa de ser homossexual por isso, uma vez que politicamente se identifica como tal e vê, no desejo homoafetivo e na necessidade de vivê-lo livremente, uma prioridade para si.
É muito difícil entrar no mérito da "felicidade" quando não damos conta de defini-la conceitualmente - e, particularmente, eu acredito que uma pessoa que decida por se tornar "ex-gay" considera esse caminho o que lhe trará menos sofrimento. Contudo, quando essa mudança lhe é forçada pelos pais ou pela igreja, certamente ela trará ainda mais danos à pessoa, por não lhe respeitar a liberdade de escolha.
Por mais que eu deteste admitir, quando o pastor Silas Malafaia diz que "ninguém nasce homossexual", ele está certo. Mas sua fala ignora (acredito que voluntariamente) que ninguém nasce heterossexual também. Se o pastor realmente se formou em psicologia, ele aprendeu que tanto o desejo homossexual quanto o heterossexual se formam no indivíduo por volta dos 4 ou 5 anos de idade, quando passamos pela fase edipiana. A sexualidade é algo que vai amadurecendo no sujeito e o desenvolvimento sexual ocorre gradativamente, tal e qual os desenvolvimentos físico e emocional.
É, inclusive, curioso como os conservadores lutam tanto para que os filhos não tenham contato com temas que envolvam a sexualidade ao mesmo tempo em que dizem que o sexo entre homem e mulher é algo natural. Afinal, se é algo natural, não seria adequado que falássemos dele para as crianças, então? Se até uma determinada idade não se julga que a criança deva saber sobre sexo e sexualidade, é porque se julga que não existe, até então, formação sexual - logo, não existe objeto de desejo, nem orientação, indicando que essa criança não poderia ser chamada nem de heterossexual nem de homossexual.
Ainda não sabemos ao certo o que causa a homossexualidade, mas já existem estudos demonstrando interessantes especificações biológicas que indicam que não se trata meramente de um comportamento que pode ser aprendido e deixado de lado quando se bem entende.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
Nos trending topics, a ignorância escancarada
Isso aconteceu em resposta a uma campanha lançada com a hashtag #SouFeministaPq, visando à discussão sobre problemas ainda hoje enfrentados pelas mulheres apenas por serem mulheres. Entre as motivações da luta feminista está o assédio constante sofrido por mulheres na rua - e do qual são culpadas porque "provocam" -, além do fato de que, no Brasil, ocorre 1 estupro a cada 11 minutos.
As mulheres precisaram lutar para ter o direito de votar, delegado ao homem desde sempre (exceto aos pobres), precisaram se manifestar para ter direito à educação e até mesmo para ter o direito de dizer "não" ao marido. Na sociedade vitoriana, por exemplo, a mulher não tinha direito às posses que dividia com o marido nem à guarda dos filhos; no caso de separação, tudo ia para o marido, independentemente de o bem ter sido herdado pela mulher.
As mulheres ainda não têm o direito de escolher se desejam ou não ter filhos - não interessa se quem passa por todo o processo físico da gravidez é ela - e porque engravidam recebem menos em seus empregos quando conseguem ser contratadas. Até hoje a mulher que não quer ser mãe é condenada.
Eu poderia falar mais sobre o feminismo, inclusive sobre a história da luta por igualdade de direitos, a qual acabou também por criar correntes diferentes de pensamento, levando à existência de feminismoS múltiplos. Deve-se lembrar, ainda, que feminismo não é o mesmo que ódio aos homens (ódio que pode até fazer parte de uma ou outra linha de pensamento, mas que não é uma regra) e que o desprezo pelo machismo vem de vidas inteiras sendo submetidas a essa dominação que coloca o homem como superior à mulher.
Quando, em resposta a uma campanha pelo feminismo, pessoas adotam uma hashtag do tipo #RolaNoRaboDasFeministas, fica evidente que a "rola" ou seja, o falo, ainda é um instrumento dominador. É como se a "rola" fosse capaz de fazer com que a mulher deixasse de ser feminista por meio da humilhação. Aliás, aqui se mostra outro pensamento machista: o de que uma pessoa sexualmente passiva é alguém menor que, por gostar de ser penetrada pela "rola" é uma espécie de masoquista.
Não é a feminista que sente repulsa pela "rola", mas o "macho" que é ensinado, desde pequeno, a orgulhar-se de sua "rola" e de demonstrar aversão pela "rola" alheia. Aliás, viris como são, esses "machos" não podem se sensibilizar com luta alguma, pois devem sentir orgulho também da própria ignorância e falta de empatia.
Desserviço: "imprensa" que distorce e não se informa
Após ter feito a cirurgia de redesignação genital em 2012 na Tailândia, Lea T. tem falado, em algumas entrevistas, sobre seu arrependimento.
Tendo passado por uma experiência ruim durante a recuperação, Lea T. repensou sua condição de mulher, afirmando que "ninguém vai virar mulher com a vaginoplastia". Essa fala é importante e deve ser destrinchada - e não distorcida como a imprensa vem fazendo.
Após a vaginoplastia, a modelo teve gangrena, certamente um trauma que a deve ter feito refletir muito. O que ela diz é que muitas trans procuram se tornar "mulheres completas" de acordo com os padrões impostos pela sociedade, que não aceita uma mulher trans que esteja satisfeita com seu corpo antes da redesignação genital.
Ao que parece, seu arrependimento foi o de ter procurado satisfazer esses padrões e, como ela disse de forma muito clara em entrevista à Oprah Winfrey: "Para mim foi um periodo intenso, de muita pressão sobre mim e minha vida. Fazer uma operação de mudança de sexo mudará uma parte de seu corpo. Uma parte realmente íntima do seu corpo, mas isso é tudo. Você não muda o seu cérebro, não muda os seus olhos, não se torna uma princesa após a operação.... Você continua a ser a mesma pessoa. Quando acordei (da cirurgia), ainda era eu mesmo, gostava das mesmas coisas".
É interessante notar como a fala de Lea expõe a pressão que todas enfrentam pela sociedade e como isso influencia em grande parte as decisões de uma pessoa. Normalmente, ninguém procura se informar a fundo a respeito da transgeneridade antes de dar sua opinião - quase sempre equivocada e infundada - e vê no discurso agora proferido por ela uma justificativa para se posicionar contra a aceitação dos indivíduos trans.
Um exemplo é a matéria preconceituosa e rasa publicada no blog do Leo Dias, no jornal O Dia:
Como se não fosse o suficiente, a matéria mistura gênero e sexualidade, como se uma mulher trans fosse, por associação, heterossexual. Isso reforça o que chamamos de "heteronormatividade", que apenas enxerga o comportamento hétero como norma e ignora outras orientações.
Uma mulher trans pode muito bem ser lésbica ou bissexual. E, reforçamos, Lea T. não se arrepende de ser uma mulher trans. Seu arrependimento está na decisão de passar por uma cirurgia bastante invasiva e delicada que fez com que ela ficasse muito tempo em recuperação - e que não alterou sua mente.
Seu caso não é exclusivo. Muitas mulheres que se submetem à vaginoplastia o fazem para se encaixar na sociedade e acabam se arrependendo depois porque o resultado é unicamente físico. Uma cirurgia não torna uma mulher realizada - e isso serve para todas. Há pessoas trans que não sentem a menor necessidade de passar por intervenções cirúrgicas e isso deve ser respeitado, pois sua realização não depende das modificações físicas.
As pessoas parecem incapazes de entender que existe uma gama muito ampla de expressões de feminilidade e masculinidade, e que nem sempre adequar-se ao que esperam de você é sinônimo de felicidade. Uma mulher trans é uma mulher, pois é essa sua identidade. O que ela fará em seu corpo para expressar essa identidade é uma escolha que só cabe a ela.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
Professores que cometem abuso são uma realidade
Desde muito novos somos apresentados à ideia de que o
professor é o responsável por nos transmitir conhecimento e de que passaremos
grande parte da nossa vida sob suas tutelas. A convivência deve ser respeitosa
e amigável e, não raro, são as professoras e professores os primeiros adultos,
à parte dos familiares, a quem admiramos intensamente.
Na verdade, construímos com eles o mesmo tipo de relação
que temos com as demais pessoas que amamos e com quem convivemos por muito
tempo – às vezes conturbada, às vezes tranquila, às vezes com uma proximidade e
carinho evidentes, próprios dos grandes amigos.
Quando passamos a ter professores diferentes para matérias
específicas, a sensação de tutela se dissipa e não existe a mesma cumplicidade,
a não ser com aqueles com quem temos mais afinidades, seja pela matéria que
lecionam, seja pela personalidade que nos cativa. Ainda assim, não deixamos de
confiar nesses profissionais e até mesmo de recorrer a eles quando precisamos
de ajuda – inclusive no âmbito pessoal.
Concordo que para algumas pessoas essa descrição que acabo
de fazer vai soar romantizada. Mas a questão da confiança, em maior ou menor
grau, é importante para o relacionamento que compreende o aluno, o professor e
a instituição em que ambos se encontram, ou seja, a escola. Quando essa confiança
é quebrada, desmantela-se também a sensação de segurança que nos deve ser
garantida pela escola.
Assim, é assustador pensar que, dentro da instituição à
qual confiamos o bem-estar da criança, encontra-se um indivíduo capaz de tirar
proveito da situação para abusar de seus próprios alunos.
Recentemente, foi publicada a notícia de um professor
acusado de abusar sexualmente de garotas de 9 e 10 anos de idade, alunas do 5º
ano do fundamental, em escola municipal da cidade de Cajati, no Vale do Ribeira, interior de São Paulo.
O docente teria
agido levando as meninas durante os intervalos a uma sala de aula vazia, onde pedia
beijos na boca e tocava os genitais das vítimas. Acredita-se que ele tenha
feito isso com pelo menos três alunas, mas os detalhes do caso ainda não podem
ser revelados por este estar em processo.
No Facebook, a
página “Meu Professor Abusador” publica, anonimamente, relatos de pessoas que
foram vítimas de seus próprios professores, tanto na escola como em cursinhos e
universidades. No ar desde 9 de fevereiro deste ano, a página tem quase 600
relatos publicados e já tem sido alvo de ameaças judiciais.
Ali, os casos são
apresentados anonimamente, sem que a vítima seja exposta – e também sem que o
suspeito tenha seu nome revelado, apesar de às vezes ser possível, para as
pessoas próximas à vítima e ao acusado, reconhecer de quem se trata.
A existência dessa
página é importante para mostrar como a figura do professor abusador é real e pode
se tratar de alguém que age da mesma forma há muito tempo sem ser denunciado.
Ao coletar os relatos e publicá-los, dá-se às vítimas oportunidade de
perceberem que não estão sozinhas e podem ser fonte de motivação para que
denunciem seus agressores.
A maior parte dos
casos acontece com garotas assediadas por professores, no entanto, cabe
ressaltar que professoras também podem cometer abuso sexual e que garotos
também podem ser vítimas. Infelizmente, no caso de meninos abordados por
professores ou professoras, é ainda mais difícil haver denúncia formal, por
vergonha das vítimas ou por acreditarem que um homem “não pode sofrer abuso”.
Por fim, em tempos
de redes sociais, cabe algumas dicas sobre como agir no caso de assédio (não
apenas de professor, mas de qualquer um que venha a abordar):
- Não publique imediatamente um texto com foto no Facebook denunciando a pessoa. Se isso for feito antes que seja registrado um boletim de ocorrência ou mesmo enquanto o caso estiver em julgamento, você pode sofrer acusação por parte do suspeito, por danos morais, calúnia ou difamação.
- Se você for menor de idade, converse com seus pais antes de procurar a direção da escola ou cursinho, para que vocês possam decidir juntos o que fazer.
- Converse com um advogado para que ele possa lhe orientar a respeito de como proceder.
- Se a pessoa que abusou de você fizer comentários nos seus perfis em redes sociais, ou enviar mensagens pessoais a você, dê “print” em tudo e salve no seu computador – de preferência, faça ainda um back up e guarde em local seguro – e não apague as postagens. Esses registros podem servir de prova em um processo.
Ainda sobre essa questão de ocorridos pela internet, o vídeo da advogada Gisele Truzzi é bem esclarecedor:
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Precisamos falar sobre pedofilia
Devido ao episódio ocorrido no Big Brother Brasil sobre o qual falei no texto anterior, em que Ana Paula chama Laércio de pedófilo, uma discussão surgiu nas redes sociais: o que é pedofilia e o que leva um indivíduo a ser pedófilo?
Por se tratar de um desejo sexual tabu, pouco se fala e muito se equivoca na hora de tratar desse problema. Em partes, porque o senso comum tende a generalizar as coisas e em partes porque nossa atitude, diante do comportamento pedofílico, é um tanto quanto histérica e pouco racional.
Não estou, em hipótese alguma, defendendo a pedofilia. O que defendo é o esclarecimento sobre ela para que possamos justamente refletir sobre as melhores soluções possíveis no que concerne ao tratamento e mesmo à punição de pedófilos. A generalização acrescida à demonização do pedófilo faz com que as coisas piorem: porque evitamos compreender tal comportamento, somente nos voltamos para sua realidade quando o abuso infantil acontece e o sujeito é condenado, quando já é tarde demais.
O termo "pedofilia" foi cunhado pelo sexólogo Richard von Krafft-Ebing em 1886. Ele designa aquelas pessoas que sentem atração primária por crianças impúberes ou no início da puberdade (por volta dos 13 anos de idade). A "filia", no grego, pode significar tanto amor como amizade.
Os motivos de uma pessoa ser pedófila não foram ainda completamente descobertos, mas pesquisas realizadas ao longo de mais de uma década pelo Dr. James Cantor, do CAMH (Centre for Addiction and Mental Health), indicam que se trata de algo tão arraigado quanto a orientação sexual, de cunho biológico e, portanto, identificável no cérebro.
Muitas pessoas, obviamente, jamais vão revelar que são pedófilas, nem mesmo a um terapeuta ou psiquiatra. Sendo assim, não existe um estudo preciso sobre quantos pedófilos existem no mundo e as estatísticas variam de 1% a 20% da população mundial. A falta de pesquisas é justificada, por algumas instituições, pelo fator econômico atrelado ao tabu: se uma organização conduzir um estudo sobre pedófilos pode passar a impressão de que, ao querer entendê-los, é empática a eles, o que certamente levaria empresas a deixarem de contribuir com doações.
Nos poucos estudos realizados com voluntários, descobriu-se que cerca de 17% dos homens que se consideram "normais" (ou seja, que não se descrevem como pedófilos) seriam capazes de se excitar sexualmente por alguma criança abaixo dos 12 anos de idade.
Uma pesquisa feita em 2006, por Becker-Blease e colegas, usando um questionário preenchido por 531 homens universitários, revelou que 7% dos participantes admitiram sentir atração sexual por "crianças pequenas", enquanto 18% disseram ter fantasias sexuais com crianças - dos quais 8% se masturbavam com essas fantasias e 4% admitiam que fariam sexo com uma criança "se ninguém descobrisse".
Há ainda menos estudos tratando da pedofilia entre mulheres. Em 1996, uma pesquisa feita por Smiljanich e Briere sugere que 3% de um grupo de 180 mulheres admitem atração por "crianças pequenas" e 4% usam pornografia infantil.
Lembrando que todos os estudos foram feitos com voluntários e que nem todos os pedófilos revelam seu desejo, essas estatísticas provavelmente mostram um número muito menor do que a realidade. A conclusão? A pedofilia não é rara, mas recorrente entre as pessoas. O que acontece é que a sociedade não tem a menor ideia do que fazer com pedófilos que não cometem crimes.
Ninguém se importa em procurar entender e ajudar aqueles pedófilos que não agem em função desse desejo sexual e que precisam, com urgência, de tratamento para que aprendam a controlar seus impulsos e não cometam abuso contra crianças. Contudo, porque enxergamos a atração sexual por crianças como um crime por si só, partimos diretamente para a culpabilização e desejo de punição, pulando o referido tratamento que pode ser crucial para se reduzir o número de abusos.
Devemos nos lembrar, ainda, que o fator cultural faz com que nem todo abusador de crianças seja, necessariamente, pedófilo - da mesma forma que nem todo pedófilo é um abusador.
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Fontes e leituras recomendadas:
- "5 Ways We Misunderstand Pedophilia (That Makes it Worse)"
- "Is Pedophilia a Sexual Orientation?"
- "How can we prevent child abuse if we don't understand pedophilia?"
- "Paedophilia: bringing dark desires to light"
- "Diferença entre pedofilia e pederastia"
- "Entenda a diferença entre pedofilia, violência, abuso e exploração sexual"
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
Sobre Laércios e novinhas
No Big Brother Brasil,
a repercussão do atrito entre os participantes Ana Paula e Laércio trouxe à
tona um tema que precisa ser discutido com seriedade: o sexo entre pessoas mais
velhas e adolescentes.
Primeiramente, gostaria de alertar para o fato de que não
estou tratando, aqui, de pedofilia, tema do qual tratarei em outro texto. Resumidamente,
o indivíduo pedófilo é aquele que sente atração sexual por crianças
pré-púberes. No entanto, ter a criança como objeto de desejo não significa,
necessariamente, agir para satisfazer esse desejo e cometer abuso. Muitos
pedófilos não são criminosos e passam sua vida reprimindo e controlando essa
atração repulsiva – na verdade, uma minoria dos pedófilos (no sentido de
pessoas que realmente apresentam um transtorno) comete crimes.
Sendo assim, o tal Laércio não é um pedófilo. Ele pode
apresentar problemas sérios de conduta, mas não é um pedófilo. Ele é,
inclusive, suspeito de ter cometido um crime ao abusar sexualmente de uma menor de idade e os rumores sobre sua conduta são anteriores ao episódio do conflito
com Ana Paula.
Além do mais, em sua página no Facebook, ele admite gostar de adolescentes e de fazer sexo com garotas bêbadas:
Além do mais, em sua página no Facebook, ele admite gostar de adolescentes e de fazer sexo com garotas bêbadas:
Quando assume que gosta de uma “novinha”, o indivíduo parece não ver algo de errado nessa preferência. E isso acontece porque no Brasil existe uma cultura de hipersexualização da “novinha” que vem se perpetuando inclusive por meio de letras de músicas populares, por exemplo, “Me Lambe”, dos Raimundos, “Novinha do Orkut”, de Claudinho e Buchecha, “Fica Caladinha”, do Bonde do Tigrão, entre muitas outras.
Justamente na música, a hipersexualização fica ainda mais
evidente quando observamos letras cantadas por garotos como MC Pedrinho, que
mal entrou na adolescência, mas ganha dinheiro com títulos como “Na Putaria”, “Geometria
da Putaria”, “Planeta da Putaria”...
Em pesquisa, realizada pela página pornô PornHub, revelou-se
que “novinha” é o termo mais buscado no Brasil. Esse resultado é uma indicação
do imaginário brasileiro – e de muitos outros países, em que a palavra mais
procurada era “teen”, ou seja, “adolescente”.
A atração pela ninfeta pode ser explicada pelo fato de se
tratar de garotas ainda imaturas que podem facilmente se deixar convencer por
homens mais velhos. Vale lembrar que o conceito de “ninfeta” passa,
necessariamente, pela ideia de adolescente ou menina que incita o desejo
sexual.
É impossível refletir sobre essa questão sem levar em conta
a oposição à educação sexual nas escolas por parte de muitos pais e adultos
formadores de opinião. Ao mesmo tempo em que se procura ignorar a sexualidade
infantil, luta-se para “proteger” as crianças de uma realidade com a qual elas
se deparam muito cedo.
A garota que o pai deseja proteger por meio da proibição de
aulas sobre sexo e sexualidade no âmbito educacional é a mesma que, na rua, é
assediada constantemente e tratada como um objeto de desejo (no pior sentido da
palavra) independentemente de sua idade.
Vale lembrar as palavras de Carol Patronício em seu texto escrito na ocasião do Master Chef Junior, quando homens fizeram comentários a respeito de uma criança de 12 anos que participou do programa:
Enquanto meninas são encaminhadas a uma maturidade precoce, os meninos e homens são perdoados por todos seus erros porque são apenas garotos, independente da sua idade — vamos deixar claro também que isso acontece com mais força quando relacionado a homens brancos e de certa posição socioeconômica, aos homens e meninos negros ou pobres sobra apenas a desconfiança e teorias que apontam seus erros como biológicos.Some a toda essa cultura a ideia de que todas as mulheres são vagabundas. Todas aquelas que não estão dentro do padrão esperado por aquele homem, já que não existe um consenso sobre como deveria ser o comportamento feminino de uma não-vadia. Quando a mulher é bonita, então, o problema é ainda maior: ela é tida como burra, é objetificada, estereotipada e tem tomada de si a possibilidade de dizer não a qualquer investida. O preço disso é ser tachada de metida. E não importa o que uma mulher faça: basta despertar o desejo em um homem e você se torna vagabunda.O desejo é responsabilidade de quem o sente e não de quem o desperta. Quando um adulto sente desejo por uma criança é ele o culpado por ir contra uma norma social que protege a infância, a integridade e o corpo de uma incapaz (de acordo com a lei). Porém é muito simples inverter esse raciocínio ao dizer que a menina já tem em si a sexualidade de uma mulher, que ela usa roupas provocativas e que pede atenção masculina. Com essa ideia o homem torna-se a vítima de uma “destruidora de lares” que ainda brinca de boneca, apesar de ter sim sexualidade, ainda que muito diferente da de uma mulher adulta.
Enquanto garotos são, desde muito novos, estimulados a
vocalizar e a agir em favor de seus “instintos”, inclusive sexuais, garotas são
ensinadas a manter o recato. Logo, quando a menina se mostra mais expansiva, é
considerada culpada de “aguçar” o desejo masculino – na visão da sociedade,
aparentemente, não interessa se essa menina tem apenas 16 anos e seu
comportamento é típico de uma adolescente. Raramente a responsabilidade do
homem adulto, o qual deveria zelar pela integridade da adolescente e não a
abordar com intenções sexuais, é colocada em pauta e questionada.
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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
29 de janeiro, Dia da Visibilidade Trans
Há algumas notícias boas no que concerne principalmente à adoção do nome social por parte de algumas instituições, além de histórias pessoais inspiradoras. Mulheres como Maria Clara Araújo, Sofia Favero, Daniela Andrade, entre outras - e outros também - expõem a realidade trans e escrevem sobre suas experiências de forma esclarecedora e contundente, militando diariamente pelo direito de ter suas identidades legitimadas.
Por outro lado, os dados continuam a assustar: só neste 2016 foram registradas, até o momento, 56 mortes de mulheres trans! Ao lado desse número encontramos ainda comentários discriminatórios e que estimulam ainda mais o ódio ao sujeito transgênero. Um exemplo é a postagem, feita no Facebook, por um professor da Unicamp, a qual ele parece ter apagado após reclamações:
Esse professor não deixa clara somente sua intolerância, mas também seu desconhecimento do funcionamento da língua - que é extremamente maleável e está em constante transformação - e, principalmente, sua desatualização em relação à biologia. Como se não bastasse, é antiquado o suficiente para falar em roupas "de garoto", como se uma travesti precisasse usar roupas "femininas" para ter sua feminilidade reconhecida.
O conceito de "travesti" ao qual o professor se refere não é mais usado há muito tempo; à pessoa que se transveste chamamos "cross-dresser". Estudos sobre o grupo social ao qual hoje denominamos "travestis" vêm sendo feitos desde os anos 1990 e a denominação foi apropriada em toda a América Latina por travestis ativistas já naquela época.
Sobre a questão biológica, não nos esqueçamos, existe também um número considerável de estudos tanto sobre a inconformidade entre corpo e mente que é classificada como "transexualidade" como sobre o amplo espectro sexual de espécies diversas, comprovando a não limitação ao mero binômio homem/mulher ou macho/fêmea. Além do mais, um sujeito que ignora a existência da transgeneridade invalida, ainda, inúmeras culturas ao redor do mundo nas quais, desde a antiguidade, expressões de gênero para além da masculina e da feminina são reconhecidas.
Em suma, esse professor revela desconhecer os processos de formação e modificação da linguagem, os estudos médico-biológicos a respeito do tema, além das ciências sociais e antropológicas que legitimam o sujeito trans. Não se trata, dessa forma, de alguém capaz de tecer comentários sobre essa questão.
A travesti que entra no banheiro feminino não está tomando o espaço de ninguém. Se a mulher que está no banheiro (no caso, o relato é da esposa do professor) sente que seu espaço está sendo tomado pela presença de outra pessoa isso significa que aquela mulher não sabe dividir o espaço com as diferenças - para ela, somente as mulheres iguais à ela devem dividir o mesmo banheiro. Afinal, se a mulher que se incomodou preocupa-se com um assédio, ela está cometendo um pré-julgamento com base no estereótipo da travesti "barraqueira"; essa mulher deve sentir-se preocupada, também, se uma mulher com roupas "de garoto" entrar no banheiro por aparentar masculinidade, ou com uma mulher que entre usando roupas sujas, por aparentar pobreza. Para esse tipo de pensamento não há outro nome: é discriminação.
Sabemos que o conservadorismo emerge com mais força quando se vê afrontado por mudanças. Indivíduos conservadores têm medo do novo, têm medo de ser obrigados a conviver com as diferenças, pois são elas que revelam o quão frágeis são seus pensamentos e suas "verdades absolutas" (para maiores informações, ver: Como conversar com um fascista, de Márcia Tiburi).
Meu último recado é para as mulheres que precisarem usar um banheiro público à noite: se encontrarem uma travesti, aproveitem a oportunidade para fazer uma nova amizade. E se o lugar for deserto, não se esqueça de propor: "vamos juntas?".
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
Como o islã vê a transexualidade?
A islamofobia é um problema real. Porque encaramos a sociedade islâmica a partir de nossas concepções cristãs-ocidentais, restringimos nossa visão e nos pautamos apenas nas notícias por aqui veiculadas - a maior parte delas tratando somente de guerras e ações terroristas.
Como é o caso de todas as religiões, o islã também apresenta segmentos fundamentalistas, alguns tendo se tornado conhecidos por seu radicalismo e violência. Mas não se pode dizer que são eles os representantes dos indivíduos muçulmanos, os quais correspondem a cerca de 23% da população mundial. São, antes, uma minoria.
Em termos de governos no poder em países de maioria muçulmana, de fato, predomina o conservadorismo. Política e religião estão intimamente ligadas na maior parte dos países de maioria islâmica e muitas das leis instituídas encontram suas justificativas exclusivamente nos ensinamentos sagrados.
A homossexualidade ainda é considerada um crime em diversos países islâmicos, podendo ser punida com a morte na Arábia Saudita, Sudão, Somália, Mauritânia e Irã. Em outras nações, por sua vez, há certa tolerância, como no caso do Egito, Tunísia, Indonésia, Albânia, Turquia etc. Porém, mesmo nesses países a discriminação contra homossexuais é recorrente, vindo com a não aceitação da família e, por vezes, o assassinato.
Curiosamente, apesar da condenação da homossexualidade, os tratamentos dispensados a transexuais são, por vezes, de relativa aceitação - não quero dizer que pessoas trans são bem tratadas ou totalmente aceitas, mas que a transfobia pode ser mais amena em algumas das nações muçulmanas.
Um caso interessante é o do Irã, que permite a cirurgia de redesignação genital desde 1983, após o líder islâmico, aiatolá Khomeini, passar uma fatwa (pronunciamento legal no Islã emitido por uma autoridade religiosa) permitindo a operação aos "diagnosticados como transexuais".
O governo ajuda a pagar pelas cirurgias pois considera a transexualidade uma doença que pode ser curada, usando como argumento o fato de a condição não ser mencionada no Alcorão, nem considerada como um pecado - diferentemente da homossexualidade, que é encarada como um comportamento imoral e condenável segundo o livro sagrado.
O fato de o país permitir a cirurgia também não significa que haja uma liberdade de escolha para pessoas transgênero: passar pelas operações são uma necessidade para que o indivíduo se encaixe na sociedade como alguém "normal". Aqueles ou aquelas que não passam pela transição e pela cirurgia são considerados disruptivos, enganadores, pois dizem ser portadores da "doença" mas rejeitam sua "cura". Seu comportamento é visto como um pecado porque rompe com a ordem e a organização social.
Há outras questões ainda mais complexas no que diz respeito à permissão para que sejam realizadas cirurgias de redesignação e à suposta aceitação de transexuais no Irã. A primeira delas tem a ver com a precipitação que pode acometer algumas pessoas que, sentindo-se "diferentes", logo buscam a operação - afinal, quando a homossexualidade é veementemente condenada, qualquer homem que se sinta "efeminado" ou mulher "masculinizada" pode encarar o diagnóstico de transexualidade e posterior transição como uma maneira de se obter melhor qualidade de vida ou mesmo de sobreviver num país onde ser gay é crime capital.
A segunda questão está no próprio reforço da normatividade, quando ainda se busca ter controle sobre o corpo de cada cidadão. Se, por um lado, permite-se a transição, por outro, não se trata de uma escolha ou de um apoio à diversidade. Na verdade, essa permissão trabalha a favor de uma uniformização do gênero por meio da qual transexuais são apoiados a fim de se encaixarem na sociedade que visa à manutenção da ordem.
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Documentário: "Transexual no Irã (Ser como os outros)"
Como é o caso de todas as religiões, o islã também apresenta segmentos fundamentalistas, alguns tendo se tornado conhecidos por seu radicalismo e violência. Mas não se pode dizer que são eles os representantes dos indivíduos muçulmanos, os quais correspondem a cerca de 23% da população mundial. São, antes, uma minoria.
Em termos de governos no poder em países de maioria muçulmana, de fato, predomina o conservadorismo. Política e religião estão intimamente ligadas na maior parte dos países de maioria islâmica e muitas das leis instituídas encontram suas justificativas exclusivamente nos ensinamentos sagrados.
A homossexualidade ainda é considerada um crime em diversos países islâmicos, podendo ser punida com a morte na Arábia Saudita, Sudão, Somália, Mauritânia e Irã. Em outras nações, por sua vez, há certa tolerância, como no caso do Egito, Tunísia, Indonésia, Albânia, Turquia etc. Porém, mesmo nesses países a discriminação contra homossexuais é recorrente, vindo com a não aceitação da família e, por vezes, o assassinato.
Curiosamente, apesar da condenação da homossexualidade, os tratamentos dispensados a transexuais são, por vezes, de relativa aceitação - não quero dizer que pessoas trans são bem tratadas ou totalmente aceitas, mas que a transfobia pode ser mais amena em algumas das nações muçulmanas.
Um caso interessante é o do Irã, que permite a cirurgia de redesignação genital desde 1983, após o líder islâmico, aiatolá Khomeini, passar uma fatwa (pronunciamento legal no Islã emitido por uma autoridade religiosa) permitindo a operação aos "diagnosticados como transexuais".
O governo ajuda a pagar pelas cirurgias pois considera a transexualidade uma doença que pode ser curada, usando como argumento o fato de a condição não ser mencionada no Alcorão, nem considerada como um pecado - diferentemente da homossexualidade, que é encarada como um comportamento imoral e condenável segundo o livro sagrado.
O fato de o país permitir a cirurgia também não significa que haja uma liberdade de escolha para pessoas transgênero: passar pelas operações são uma necessidade para que o indivíduo se encaixe na sociedade como alguém "normal". Aqueles ou aquelas que não passam pela transição e pela cirurgia são considerados disruptivos, enganadores, pois dizem ser portadores da "doença" mas rejeitam sua "cura". Seu comportamento é visto como um pecado porque rompe com a ordem e a organização social.
Há outras questões ainda mais complexas no que diz respeito à permissão para que sejam realizadas cirurgias de redesignação e à suposta aceitação de transexuais no Irã. A primeira delas tem a ver com a precipitação que pode acometer algumas pessoas que, sentindo-se "diferentes", logo buscam a operação - afinal, quando a homossexualidade é veementemente condenada, qualquer homem que se sinta "efeminado" ou mulher "masculinizada" pode encarar o diagnóstico de transexualidade e posterior transição como uma maneira de se obter melhor qualidade de vida ou mesmo de sobreviver num país onde ser gay é crime capital.
A segunda questão está no próprio reforço da normatividade, quando ainda se busca ter controle sobre o corpo de cada cidadão. Se, por um lado, permite-se a transição, por outro, não se trata de uma escolha ou de um apoio à diversidade. Na verdade, essa permissão trabalha a favor de uma uniformização do gênero por meio da qual transexuais são apoiados a fim de se encaixarem na sociedade que visa à manutenção da ordem.
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Documentário: "Transexual no Irã (Ser como os outros)"
Disciplina excessiva e suicídio: o que não falam sobre o Japão
Quando falamos em benefícios da disciplina, frequentemente usamos o Japão como exemplo a ser seguido. O país cultua uma imagem de organização e eficiência que desperta a admiração de todo o mundo e povoa os desejos dos mais conservadores, que sonham com uma sociedade igualmente disciplinada e organizada.
No entanto, a cultura japonesa é muito mais complexa do que nosso senso comum é levado a crer e, por trás dessa perfeita disciplina há fatores extremamente sérios envolvendo, inclusive, um número alto de suicídios até mesmo entre crianças.
Entre os anos de 1973 e 2012, mais de 18 mil crianças cometeram suicídio; em 2014, essa foi considerada a primeira causa de morte entre os jovens de 10 a 19 anos de idade. Os períodos em que a taxa é mais alta são durante a volta às aulas.
Nas escolas japonesas, não há espaço para individualidade e criatividade; desde muito pequenas as crianças começam a aprender matérias como inglês e matemática, além de assistirem aulas extras para conseguirem entrar nas melhores instituições. A competitividade que pressiona os alunos e requer dedicação estrema leva também ao bullying que é, por vezes, encorajado pelo comportamento dos professores ao punirem os alunos.
Há jardins de infância - mais rígidos, considerados os melhores - em que os uniformes das crianças consistem apenas de shorts, sem camisa ou blusa que aqueçam os pequenos alunos durante o frio, uma forma de os tornarem resistentes ao clima gelado. É comum, por exemplo, que estudantes assistam aulas até meia-noite já no primeiro ano na escola.
Em sua maioria, pedagogos japoneses não acreditam que uma criança possa ser criativa, apenas espontânea e qualquer excentricidade deve ser desencorajada. O sistema de ensino autoritário acaba por suprimir as emoções dos alunos, não interessa o quão jovens sejam. Assim, o bullying passa despercebido simplesmente porque estudantes não devem relatá-lo, mas aprender a conviver com ele. Ademais, não existem políticas educacionais para inclusão de autistas ou indivíduos com dificuldades de aprendizagem.
O que se observa, em suma, é que a disciplina que consideramos exemplar é obtida às custas da própria humanidade das pessoas desde pequenas. A importância de se manter as aparências faz com que seja condenável falar o que se pensa; a separação da vida íntima e pessoal da vida social deve ser preservada por todos. Em casa, os filhos têm pouco contato com os pais, que se tornam workaholics - em função da competitividade - e se deparam com as exigências das mães para que sejam também bem sucedidos.
Outra consequência do sistema educacional japonês é o aumento da violência cometida por jovens que, devido à pressão, tornam-se agressivos. O número de adolescentes que, transtornados, recorrem a crimes violentos como forma de reagir contra o sistema vem aumentando desde 2002 e, em resposta, estima-se que cerca de 1 milhão de jovens vivam reclusos em suas casas. Eles o fazem por exigência da própria família, envergonhada pelo filho incapaz de ser bem sucedido; outros, acreditando terem falhado em seu dever para com a sociedade, seja por não apresentarem um bom desempenho na escola ou por não conseguirem um bom emprego, entram em reclusão ainda na adolescência por vontade própria - são os chamados "hikkikomori".
As estatísticas têm alarmado o governo japonês, que busca formas de reinventar sua cultura educacional com medidas como o fim das aulas aos sábados ou a redução das notas exigidas nas universidades.
Quando uma pessoa defende uma educação regida por militares, mirando-se no exemplo japonês, ela não leva em conta especificamente o fator humano e a que custo se mantém uma cultura disciplinar. Nesse tipo de sistema um ensino bem sucedido depende de um adestramento que ignora por completo as subjetividades - e essas pessoas vão tentar dar vazão a essas necessidades subjetivas de outras formas, o que pode ter um efeito negativo na sociedade como um todo.
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Leituras recomendadas:
- "Dia de volta às aulas é o que mais tem suicídio de jovens no Japão"
- "Por que o Japão tem uma taxa de suicídios tão alta?"
- "Crianças realizam suicídios no Japão para não terem que voltar a escola"
- "O suicídio é o maior produto de exportação do Japão?"
domingo, 17 de janeiro de 2016
Vamos falar de sexualidade na infância?
Acho que está ficando cada vez mais complicado prever até
que ponto vai a desonestidade das pessoas que, na tentativa de defender seus
ideais, literalmente inventam notícias e informações que validariam seus pontos
de vista.
Bolsonaro fez um vídeo recentemente tratando de um livro
sobre sexualidade que, segundo o próprio, seria distribuído nas escolas
públicas. A publicação, intitulada “Aparelho Sexual & Cia”, da editora Cia.
das Letras, não tem relação alguma com o MEC e não existe proposta de
distribuição do mesmo em escolas, conforme o próprio Ministério divulgou em nota oficial.
Trata-se de uma obra de autoria de Hélène Bruller e Zep, a
primeira, quadrinista e ilustradora francesa, ex-mulher do segundo, um
quadrinista suíço, ambos com obras que são sempre sucesso de vendas – incluindo
a referida “Le Guide du
zizi sexuel”, que traz Titeuf,
famoso personagem de Zep, com o intuito de explicar a sexualidade para
PRÉ-ADOLESCENTES. Publicado na França em 2001, o livro já vendeu mais de 1,5
milhão de cópias em todo o mundo.
De
maneira bastante clara e objetiva – e com humor –, a obra trata justamente
daquilo que os pais têm dificuldade de abordar em conversas com os filhos em
fase de desenvolvimento: a sexualidade. Não se trata de um estímulo à
sexualidade precoce, mas de uma forma eficaz de sanar as dúvidas que as
crianças possam ter sem que os pais se embaracem para responder a certas
perguntas.
Na
mesma linha de desonestidade intelectual, uma postagem andou sendo
compartilhada no Facebook a respeito de outro livro que seria distribuído pelo
MEC; a página fotografada e difundida trazia um desenho certamente voltado ao
público infantil e a descrição do ato sexual.
Nesse caso, bastava ler o texto para notar
que nem sequer se tratava de um livro brasileiro, uma vez que a acentuação das
palavras é bastante diferente, além de trazer expressões específicas: “bebé”;
“o pai mete-se (...)”; “pénis”; “mamã”. A obra é de autoria de um autor galego
(o idioma, de fato, é bem próximo ao português), de nome Pepe Carreiro, e faz
parte de uma série que envolve seus personagens infantis, os Bochechas, e faz
enorme sucesso em Portugal. Novamente, o conteúdo do texto é a sexualidade,
explicada de maneira direta, sem rodeios.
Além da questão concernente à falsidade das “notícias”, é
interessante que pensemos sobre a sexualidade propriamente dita. As crianças
não estão completamente alheias ao sexo, por mais novas que sejam. A partir do
momento em que a criança percebe a si mesma e a seu corpo, ela já está em
contato com a sexualidade e já no período entre os 2 e 6 anos de idade começará
a fazer indagações sobre os motivos das coisas – o que pode incluir o porquê de
os bebês nascerem ou de existirem os casais. Diga-se de passagem, foi
comprovado cientificamente que é nessa idade que as crianças se dão conta de
suas identidades de gênero.
No período que compreende os 6 e os 10 anos, começam as
brincadeiras a nível “sensual” – exploratórias dos órgãos genitais e de áreas
de prazer. De certa forma, esses interesses sinalizam a entrada na puberdade.
Falar de sexo, propriamente dito, nessa idade, é uma maneira de esclarecer e de
educar as crianças para que estejam cientes de seu próprio corpo e até mesmo
para que possam compreender o que está por vir.
Educar a criança sobre a sexualidade é algo benéfico quando
sua curiosidade natural não é ainda permeada por pensamentos maliciosos. É,
inclusive, uma oportunidade adequada para alertarmos a respeito de
comportamentos impróprios e até sobre indivíduos que a possam machucar.
O mundo contemporâneo é permeado pela sexualização: na
música, na TV, nas propagandas e, principalmente, na internet. Afirmar que a
criança de 8, 9 anos não tem ideia do que seja sexo e sexualidade é no mínimo
hipócrita.
Além do mais, os primeiros contatos que uma criança tem com a
sexualidade (e com o sexo) ocorrem dentro de casa, com a família e nos círculos
sociais. Se existe o fenômeno da chamada sexualidade precoce, não se trata de
algo causado pela educação.
Apenas o professor, que adentra à sala de aula, sabe o que é ouvir comentários de cunho sexual diversos da boca de crianças e não poder fazer nada a não ser repreender verbalmente, algo que, sabemos, não adianta muito - são comentários que os pais muitas vezes nem mesmo têm noção de que os filhos fazem.
Na adolescência (e, às vezes, até antes), um número considerável de alunos já inicia sua vida sexual, também sem o conhecimento dos pais. A escola também não consegue impedir que esses jovens adentrem no mundo da sexualidade, mas não pode, de maneira alguma, fechar os olhos para esse fato e ignorá-lo. Daí a necessidade de falarmos de sexualidade enquanto educadores.
Aos anti-petistas de plantão, um aviso:
Jair Bolsonaro não é um político honesto – como a maioria
deles –, mente deliberadamente, como se pode observar por esse vídeo sobre o
livro que ele disse ser aprovado pelo MEC, e tem um histórico para o qual é
preciso se chamar a atenção: ele JÁ FOI CITADO NA LAVA-JATO; suas ofensas a
colegas parlamentares são recorrentes, o pior, feitas a nível pessoal; várias
vezes foi acusado de quebrar o decoro parlamentar, tentando impedir sessões,
principalmente as relativas à Comissão da Verdade; é acusado de receber R$50
mil na ocasião do esquema da chamada Lista de Furnas; foi citado por Joaquim
Barbosa como participante do Mensalão; é alvo de dois inquéritos pelo STF, um
relacionado a racismo e outro a crime contra a fauna.
Segue, abaixo, um vídeo esclarecedor publicado pela página Nova Escola sobre as declarações do deputado.
Checagem de informações
CHECAGEM DE INFORMAÇÕESO deputado federal Jair Messias Bolsonaro (PP-RJ) publicou há alguns dias um vídeo sobre Educação.NOVA ESCOLA apurou as informações do vídeo. Veja agora os equívocos cometidos pelo deputado e os dados corretos.
Publicado por Nova Escola em Sexta, 15 de janeiro de 2016
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
Deus fez o homem, a mulher e as pessoas trans
O chato de você discutir com alguém que usa uma citação bíblica para comprovar seu ponto de vista restrito é que, para essa pessoa, tudo é fruto da vontade de Deus. Por essa lógica, devemos, todos, passar a vida sem modificar nossos corpos; devemos aceitá-los porque estariam de acordo com a vontade divina. Logo, uma pessoa transgênero vai contra essa vontade ao passar pela transição. Mas como é que esse leitor tão ávido da Bíblia e seguidor da palavra de Deus sabe que a transgeneridade não é, também, vontade Dele? Como podemos garantir que, existindo um Deus, ele não faça com que determinadas pessoas nasçam com uma incompatibilidade entre mente e corpo, sabe-se lá por qual motivo?
Para os defensores do determinismo biológico, que afirmam que só existe "macho" e "fêmea", configurações indicadas pelo sistema reprodutor, podemos rebater que exemplos de "transgeneridade" não ocorrem apenas entre os seres humanos - o que difere nossa transgeneridade seria a complexidade da nossa expressão social.
Entre as hienas, por exemplo, são as fêmeas que apresentam personalidade dominadora - característica que, em nossa espécie, afirmamos ser uma essência do homem - e detêm o falo (seus clitóris costumam ser maiores que os pênis dos machos e é a hiena com o clitóris maior a mais disputada para o acasalamento). Entre os leões, algumas fêmeas desenvolvem jubas e são, então, tomadas como machos.
Saindo da categoria dos mamíferos, podemos encontrar ainda os escorpiões amarelos, que se reproduzem por partenogênese porque não existem machos na espécie. Isso sem falar em todas as espécies para as quais a regra é o hermafroditismo (tênias, minhocas, alguns peixes etc.).
Falo disso pois ainda me deparo com muitas pessoas deslegitimando a transgeneridade com base em falsos argumentos biológicos, sem se preocuparem com o que existe em termos de estudos médicos e pesquisas, algumas delas que continuam a ser desenvolvidas e aprofundadas. É possível, sim, indicar causas biológicas da condição trans que fazem com que a pessoa note uma incongruência entre seu corpo e sua percepção de si mesma.
Até hoje, descobriu-se que o receptor de andrógenos, também conhecido como NR3C4, é ativado pela ligação com a testosterona ou dihidrotestosterona, em que tem um papel crítico na formação de características sexuais masculinas primárias e secundárias. Hare et al. descobriu que transexuais do [gênero] masculino para o feminino (mpf) apresentam repetições mais longas do gene, o que reduziria sua efetividade ao acoplar testosterona.
Sobre um variante genotípico para um gene chamado CYP17, que age nos hormônios sexuais pregnenolona e progesterona, descobriu-se estar ligado à transexualidade do [gênero] feminino para o masculino (fpm). Essas pessoas não só apresentam o variante genotípico com maior frequência, mas também têm uma distribuição alela equivalente à dos controles masculinos e diferentemente dos controles femininos.
Zhou et al. (1995) descobriu, em estudo pioneiro, que uma região do cérebro chamada de núcleo leito da estria terminal (em inglês designado pela sigla BSTc, em português, NLET) - conhecida por respostas ao sexo e à ansiedade - aparece, em transexuais mpf, no mesmo tamanho considerado normal para o sexo feminino, enquanto trans fpm apresentam o tamanho que é normal para o sexo masculino. Os transexuais do estudo haviam tomado hormônios, mas entre os indivíduos controle que, por uma variedade de razões médicas, haviam experienciado alguma condição hormonal reversa, o tamanho do NLET ainda se apresentavam de acordo com o gênero com que se identificavam. Não foi encontrada nenhuma relação com a orientação sexual.
Em outro estudo, por Kruijver et al. (2000), focou-se no número de neurônios do NLET em vez de seus volumes. Curiosamente, os resultados encontrados foram semelhantes aos de Zhou et al. (1995), com diferenças ainda mais dramáticas. Um sujeito mpf que nunca havia tomado hormônios também foi incluido e, ainda assim, sua contagem de neurôneos foi correspondente à dos cérebros femininos.
Em 2002, um estudo feito por Chung et al. descobriu que dimorfismos sexuais significantes no NLET não estão estabilizados até a idade adulta. Chung et al. teorizaram que mudanças nos níveis de hormônio no feto produzem mudanças na densidade sináptica do NLET, na atividade neuronal ou no conteúdo neuroquímico, que mais tarde vão resultar em mudanças de tamanho e contagem de neurôneos, ou que o tamanho do NLET é afetado pela falha em se gerar uma identidade de gênero consistente com o sexo anatômico.
Ao rever as evidências em 2006, Gooren confirma a pesquisa como base para o conceito de que a transexualidade seria uma "desordem" de diferenciação sexual do cérebro dimórfico. Dick Swaab (2004) concorda.
Em 2008, uma região com propriedades similares àquelas do NLET em relação à transexualidade foi descoberta por Garcia-Falgueras e Swaab: o terceiro núcleo intersticial do hipotálamo anterior (designado em inglês pela sigla INAH3), parte da área pré-óptica. Para o estudo foi adotado o mesmo método de controle para uso de hormônio visto em Zhoy et al. (1995) e Kruijver et al. (2000). As diferenças encontradas foram ainda mais pronunciadas que no NLET; os homens controle apresentaram em média um volume 1.9 vez maior e 2.3 vezes mais neurônios que as mulheres controle e, novamente, independentemente da exposição a hormônio, transexuais mpf tinham resultados correspondentes aos das mulheres e fpm, correspondentes aos dos homens.
Enquanto a resolução de tomografias de Imagem por Ressonância Magnética (IRM), em geral, são bem claras, núcleos independentes não são visíveis devido à falta de contraste entre os tipos de tecido neurológicos. Sendo assim, imagens de MRI não mostram estruturas detalhadas como o NLET e o INAH3; estudos do NLET foram efetuados pela bissecção post mortem do cérebro.
Ainda assim, o IRM permite o estudo de estruturas maiores do cérebro com relativa facilidade. No estudo de Luders et al. (2009), foram observadas IRMs de transexuais mpf que ainda não haviam começado o tratamento hormonal. Apesar de suas concentrações regionais de massa cinzenta serem mais similares às de homens que de mulheres, notou-se um volume significantemente maior de massa cinzenta no putâmen em comparação aos homens. Dessa forma, concluiu-se que a transexualidade estava associada a padrões cerebrais distintos.
Outro fator foi estudado em um grupo de transexuais fpm que ainda não haviam tomado hormônios: valores fracionários de anisotropia para matéria branca nas partes medial e posterior do fascículo longitudinal superior (FLS) direito, no fórceps menor e no trato corticoespinhal. Rametti et al. (2010) descobriram que, em comparação a mulheres controle, trans fpm apresentaram maiores valores fracionários de anisotropia na parte posterior do FLS direito, no forceps menor e no trato corticoespinhal. Comparados a homens controle, os trans fpm apresentaram apenas valores fracionários de anisotropia menores no trato corticoespinhal.
Hulshoff Pol et al. (2006) estudaram o volume bruto do cérebro de pessoas que passaram pelo tratamento hormonal. Eles descobriram que o volume total do cérebro de um indivíduo muda em direção ao tamanho do sexo para o qual se transiciona durante o tratamento. Assim, concluíram que as descobertas sugerem que, ao longo da vida, os hormônios produzidos pelas gônadas são essenciais para manter certos aspectos sexuais específicos no cérebro humano. Contudo, o estudo não explica as diferenciações encontradas em pessoas transexuais que ainda não haviam começado a tomar hormônios.
Em 2013, um estudo baseado em publicações prévias e pesquisas conduzidas na ocasião apresentou dados interessantes referentes à transexualidade em gêmeos. Descobriram que em 39 pares de gêmeos masculinos monozigóticos, 13 (33%) deles se identificavam como transexuais (ambos os gêmeos). O mesmo foi encontrado em 8 de 25 pares de gêmeas (22,5%). Mas apenas 1 par entre 38 gêmeos dizigóticos (2.6%) se identifica como transexual (também, ambos os gêmeos). A porcentagem significante de transexualidade ocorrendo com ambos os gêmeos monozigóticos e a aparente falta de correspondência no caso dos dizigóticos, criados na mesma família ao mesmo tempo, reforça a teoria de que a identidade sexual seja influenciada pela genética.
Para se explicar as descobertas acima mencionadas, os mecanismos comumente citados são a exposição pré-natal ao andrógeno ou a falta dela, ou ainda pouca sensitividade aos andrógenos pré-natais. Schneider, Pickel e Stalla (2006) encontraram uma correlação entre o raio digital (média entre comprimento dos dedos, um marcador geralmente aceito para indicar exposição pré-natal ao andrógeno) e a transexualidade mpf. Trans mpf apresentam maior raio digital que homens controle e sua medida é comparável à de mulheres controle (indicando, portanto, que elas não teriam sido expostas ao andrógeno pré-natal).
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Fontes (em inglês):
- "Androgen Receptor Repeat Length Polymorphism Associated with Male-to-Female Transsexualism", HHS Public Access;
- "Transgender: Evidence on the biological nature of gender identity", Science Daily;
- "Causes of transsexualism: Current findings and hypotheses", TS Road Map;
- "What Causes Transsexualism?", Lynn Conway;
- "Regional gray matter variation in male-to-female transsexualism", HHS Public Access;
- "Male-to-Female Transsexuals Show Sex-Atypical Hypothalamus Activation When Smelling Odorous Steroids", Oxford Journals;
- "Transsexuality Among Twins: Identity Concordance, Transition, Rearing, and Orientation", University of Hawai'i;
- "A Further Assessment of Blanchard’s Typology of Homosexual Versus Non-Homosexual or Autogynephilic Gender Dysphoria", HHS Public Access.
E quem é você para discutir comigo?
Meu amigo, Thiago Soares (a.k.a. T. Angel), trouxe a seu blog uma discussão que ainda me choca pelo nível de "apelação" do qual certas pessoas lançam mão quando tentamos questioná-las. Isso, na verdade, é uma rotina no universo das redes sociais - e, a bem da verdade, em qualquer situação na qual precisamos dialogar com um indivíduo que se considera autoridade.
Primeiramente, a postagem na qual se deu a discussão trata de um apontamento sobre termos preconceituosos e discriminatórios que não devem ser usados quando nos referimos a travestis. Sabemos, travestis são pessoas que têm, diariamente, seus direitos negados, ainda que, pela Constituição Federal, devam ser tratadas como todo e qualquer cidadão brasileiro.
Segundo a C.F., temos, logo em seu início:
Eu, você, as travestis, pessoas transexuais, homossexuais, negros, pobres, os fuzileiros navais, somos todos regidos pela mesma Constituição. Ninguém tem o direito de humilhar ninguém, e usar termos pejorativos para se referir a uma pessoa é uma violência simbólica.
Aceitar a IDENTIDADE de uma pessoa é dar a ela o mínimo de dignidade para que viva, em seu dia-a-dia, gozando de um respeito que ela nem mesmo deveria exigir; o respeito deveria ser concedido a ela automaticamente, como um direito de todo e qualquer cidadão, repito. Isso não tem relação alguma com a laicidade do Estado, diga-se de passagem, pois não estamos tratando de religião, nem mesmo de doutrina, mas de um fato. Há estudos médicos que comprovam fatores biológicos envolvidos na condição da pessoa trans.
E eis que, além de tornar claro seu desrespeito para com um grupo de cidadãs, o indivíduo lança mão de seu status social: "Eu sou cabo do corpo de fuzileiros navais e incluo nas minhas piadas a classe que eu quiser. [...] Quem é VC pra dizer o que se configura homofobia ou qualquer outro tipo de palavra que vcs têm inventado pra se vitimizarem [sic]? [...]". Posteriormente, ainda procura a ajuda de um advogado que não se manifesta na discussão, chamando-o de "dr."...
Está aqui um caso claro da demagogia em que o sujeito procura conduzir a discussão usando de uma ferramenta intimidatória. Dizem que é preciso que os respeitemos para que sejamos também respeitados, mas o desrespeito parte justamente deles.
Infelizmente, é esse tipo de discurso que com frequência inibe denúncias por discriminação e má conduta principalmente em se tratando de atos cometidos por oficiais.
Não são apenas os indivíduos que precisam mudar seu comportamento, aliás. As instituições também necessitam rever a abordagem de assuntos que envolvem o tratamento de grupos minoritários. É preciso, ainda, que tomemos consciência do seguinte: as instituições existem para SERVIR o povo e não o contrário.
Primeiramente, a postagem na qual se deu a discussão trata de um apontamento sobre termos preconceituosos e discriminatórios que não devem ser usados quando nos referimos a travestis. Sabemos, travestis são pessoas que têm, diariamente, seus direitos negados, ainda que, pela Constituição Federal, devam ser tratadas como todo e qualquer cidadão brasileiro.
Segundo a C.F., temos, logo em seu início:
TÍTULO I
Dos Princípios Fundamentais
Dos Princípios Fundamentais
Art. 1º A
República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e
Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito
e tem como fundamentos:
I - a
soberania;
II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os
valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V - o
pluralismo político.
Parágrafo
único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes
eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.
Art. 2º São
Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o
Executivo e o Judiciário.
Art. 3º
Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I -
construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II -
garantir o desenvolvimento nacional;
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as
desigualdades sociais e regionais;
IV - promover o bem de todos, sem
preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Eu, você, as travestis, pessoas transexuais, homossexuais, negros, pobres, os fuzileiros navais, somos todos regidos pela mesma Constituição. Ninguém tem o direito de humilhar ninguém, e usar termos pejorativos para se referir a uma pessoa é uma violência simbólica.
Aceitar a IDENTIDADE de uma pessoa é dar a ela o mínimo de dignidade para que viva, em seu dia-a-dia, gozando de um respeito que ela nem mesmo deveria exigir; o respeito deveria ser concedido a ela automaticamente, como um direito de todo e qualquer cidadão, repito. Isso não tem relação alguma com a laicidade do Estado, diga-se de passagem, pois não estamos tratando de religião, nem mesmo de doutrina, mas de um fato. Há estudos médicos que comprovam fatores biológicos envolvidos na condição da pessoa trans.
E eis que, além de tornar claro seu desrespeito para com um grupo de cidadãs, o indivíduo lança mão de seu status social: "Eu sou cabo do corpo de fuzileiros navais e incluo nas minhas piadas a classe que eu quiser. [...] Quem é VC pra dizer o que se configura homofobia ou qualquer outro tipo de palavra que vcs têm inventado pra se vitimizarem [sic]? [...]". Posteriormente, ainda procura a ajuda de um advogado que não se manifesta na discussão, chamando-o de "dr."...
Está aqui um caso claro da demagogia em que o sujeito procura conduzir a discussão usando de uma ferramenta intimidatória. Dizem que é preciso que os respeitemos para que sejamos também respeitados, mas o desrespeito parte justamente deles.
Infelizmente, é esse tipo de discurso que com frequência inibe denúncias por discriminação e má conduta principalmente em se tratando de atos cometidos por oficiais.
Não são apenas os indivíduos que precisam mudar seu comportamento, aliás. As instituições também necessitam rever a abordagem de assuntos que envolvem o tratamento de grupos minoritários. É preciso, ainda, que tomemos consciência do seguinte: as instituições existem para SERVIR o povo e não o contrário.
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