segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Sobre Laércios e novinhas

No Big Brother Brasil, a repercussão do atrito entre os participantes Ana Paula e Laércio trouxe à tona um tema que precisa ser discutido com seriedade: o sexo entre pessoas mais velhas e adolescentes.

Primeiramente, gostaria de alertar para o fato de que não estou tratando, aqui, de pedofilia, tema do qual tratarei em outro texto. Resumidamente, o indivíduo pedófilo é aquele que sente atração sexual por crianças pré-púberes. No entanto, ter a criança como objeto de desejo não significa, necessariamente, agir para satisfazer esse desejo e cometer abuso. Muitos pedófilos não são criminosos e passam sua vida reprimindo e controlando essa atração repulsiva – na verdade, uma minoria dos pedófilos (no sentido de pessoas que realmente apresentam um transtorno) comete crimes.

Sendo assim, o tal Laércio não é um pedófilo. Ele pode apresentar problemas sérios de conduta, mas não é um pedófilo. Ele é, inclusive, suspeito de ter cometido um crime ao abusar sexualmente de uma menor de idade e os rumores sobre sua conduta são anteriores ao episódio do conflito com Ana Paula.
Além do mais, em sua página no Facebook, ele admite gostar de adolescentes e de fazer sexo com garotas bêbadas:




Quando assume que gosta de uma “novinha”, o indivíduo parece não ver algo de errado nessa preferência. E isso acontece porque no Brasil existe uma cultura de hipersexualização da “novinha” que vem se perpetuando inclusive por meio de letras de músicas populares, por exemplo, “Me Lambe”, dos Raimundos, “Novinha do Orkut”, de Claudinho e Buchecha, “Fica Caladinha”, do Bonde do Tigrão, entre muitas outras.

Justamente na música, a hipersexualização fica ainda mais evidente quando observamos letras cantadas por garotos como MC Pedrinho, que mal entrou na adolescência, mas ganha dinheiro com títulos como “Na Putaria”, “Geometria da Putaria”, “Planeta da Putaria”...

Em pesquisa, realizada pela página pornô PornHub, revelou-se que “novinha” é o termo mais buscado no Brasil. Esse resultado é uma indicação do imaginário brasileiro – e de muitos outros países, em que a palavra mais procurada era “teen”, ou seja, “adolescente”.


A atração pela ninfeta pode ser explicada pelo fato de se tratar de garotas ainda imaturas que podem facilmente se deixar convencer por homens mais velhos. Vale lembrar que o conceito de “ninfeta” passa, necessariamente, pela ideia de adolescente ou menina que incita o desejo sexual.

É impossível refletir sobre essa questão sem levar em conta a oposição à educação sexual nas escolas por parte de muitos pais e adultos formadores de opinião. Ao mesmo tempo em que se procura ignorar a sexualidade infantil, luta-se para “proteger” as crianças de uma realidade com a qual elas se deparam muito cedo.

A garota que o pai deseja proteger por meio da proibição de aulas sobre sexo e sexualidade no âmbito educacional é a mesma que, na rua, é assediada constantemente e tratada como um objeto de desejo (no pior sentido da palavra) independentemente de sua idade.

Vale lembrar as palavras de Carol Patronício em seu texto escrito na ocasião do Master Chef Junior, quando homens fizeram comentários a respeito de uma criança de 12 anos que participou do programa:

Enquanto meninas são encaminhadas a uma maturidade precoce, os meninos e homens são perdoados por todos seus erros porque são apenas garotos, independente da sua idade — vamos deixar claro também que isso acontece com mais força quando relacionado a homens brancos e de certa posição socioeconômica, aos homens e meninos negros ou pobres sobra apenas a desconfiança e teorias que apontam seus erros como biológicos.

Some a toda essa cultura a ideia de que todas as mulheres são vagabundas. Todas aquelas que não estão dentro do padrão esperado por aquele homem, já que não existe um consenso sobre como deveria ser o comportamento feminino de uma não-vadia. Quando a mulher é bonita, então, o problema é ainda maior: ela é tida como burra, é objetificada, estereotipada e tem tomada de si a possibilidade de dizer não a qualquer investida. O preço disso é ser tachada de metida. E não importa o que uma mulher faça: basta despertar o desejo em um homem e você se torna vagabunda.

O desejo é responsabilidade de quem o sente e não de quem o desperta. Quando um adulto sente desejo por uma criança é ele o culpado por ir contra uma norma social que protege a infância, a integridade e o corpo de uma incapaz (de acordo com a lei). Porém é muito simples inverter esse raciocínio ao dizer que a menina já tem em si a sexualidade de uma mulher, que ela usa roupas provocativas e que pede atenção masculina. Com essa ideia o homem torna-se a vítima de uma “destruidora de lares” que ainda brinca de boneca, apesar de ter sim sexualidade, ainda que muito diferente da de uma mulher adulta.

Enquanto garotos são, desde muito novos, estimulados a vocalizar e a agir em favor de seus “instintos”, inclusive sexuais, garotas são ensinadas a manter o recato. Logo, quando a menina se mostra mais expansiva, é considerada culpada de “aguçar” o desejo masculino – na visão da sociedade, aparentemente, não interessa se essa menina tem apenas 16 anos e seu comportamento é típico de uma adolescente. Raramente a responsabilidade do homem adulto, o qual deveria zelar pela integridade da adolescente e não a abordar com intenções sexuais, é colocada em pauta e questionada. 

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Leitura recomendada:

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

29 de janeiro, Dia da Visibilidade Trans


Como já devem ter notado pelas redes sociais, hoje é o Dia da Visibilidade Trans (na foto, a lindíssima Raquel Virgínia, uma das vocalistas da banda As Bahias e a Cozinha Mineira). A data vem para nos lembrar da luta - esta, diária - das pessoas trans para que seus direitos básicos sejam garantidos em uma sociedade que pouco ou nada faz para acolhê-las.

Há algumas notícias boas no que concerne principalmente à adoção do nome social por parte de algumas instituições, além de histórias pessoais inspiradoras. Mulheres como Maria Clara Araújo, Sofia FaveroDaniela Andrade, entre outras - e outros também - expõem a realidade trans e escrevem sobre suas experiências de forma esclarecedora e contundente, militando diariamente pelo direito de ter suas identidades legitimadas.

Por outro lado, os dados continuam a assustar: só neste 2016 foram registradas, até o momento, 56 mortes de mulheres trans! Ao lado desse número encontramos ainda comentários discriminatórios e que estimulam ainda mais o ódio ao sujeito transgênero. Um exemplo é a postagem, feita no Facebook, por um professor da Unicamp, a qual ele parece ter apagado após reclamações:


Esse professor não deixa clara somente sua intolerância, mas também seu desconhecimento do funcionamento da língua - que é extremamente maleável e está em constante transformação - e, principalmente, sua desatualização em relação à biologia. Como se não bastasse, é antiquado o suficiente para falar em roupas "de garoto", como se uma travesti precisasse usar roupas "femininas" para ter sua feminilidade reconhecida.

O conceito de "travesti" ao qual o professor se refere não é mais usado há muito tempo; à pessoa que se transveste chamamos "cross-dresser". Estudos sobre o grupo social ao qual hoje denominamos "travestis" vêm sendo feitos desde os anos 1990 e a denominação foi apropriada em toda a América Latina por travestis ativistas já naquela época. 

Sobre a questão biológica, não nos esqueçamos, existe também um número considerável de estudos tanto sobre a inconformidade entre corpo e mente que é classificada como "transexualidade" como sobre o amplo espectro sexual de espécies diversas, comprovando a não limitação ao mero binômio homem/mulher ou macho/fêmea. Além do mais, um sujeito que ignora a existência da transgeneridade invalida, ainda, inúmeras culturas ao redor do mundo nas quais, desde a antiguidade, expressões de gênero para além da masculina e da feminina são reconhecidas.

Em suma, esse professor revela desconhecer os processos de formação e modificação da linguagem, os estudos médico-biológicos a respeito do tema, além das ciências sociais e antropológicas que legitimam o sujeito trans. Não se trata, dessa forma, de alguém capaz de tecer comentários sobre essa questão.

A travesti que entra no banheiro feminino não está tomando o espaço de ninguém. Se a mulher que está no banheiro (no caso, o relato é da esposa do professor) sente que seu espaço está sendo tomado pela presença de outra pessoa isso significa que aquela mulher não sabe dividir o espaço com as diferenças - para ela, somente as mulheres iguais à ela devem dividir o mesmo banheiro. Afinal, se a mulher que se incomodou preocupa-se com um assédio, ela está cometendo um pré-julgamento com base no estereótipo da travesti "barraqueira"; essa mulher deve sentir-se preocupada, também, se uma mulher com roupas "de garoto" entrar no banheiro por aparentar masculinidade, ou com uma mulher que entre usando roupas sujas, por aparentar pobreza. Para esse tipo de pensamento não há outro nome: é discriminação. 

Sabemos que o conservadorismo emerge com mais força quando se vê afrontado por mudanças. Indivíduos conservadores têm medo do novo, têm medo de ser obrigados a conviver com as diferenças, pois são elas que revelam o quão frágeis são seus pensamentos e suas "verdades absolutas" (para maiores informações, ver: Como conversar com um fascista, de Márcia Tiburi).

Meu último recado é para as mulheres que precisarem usar um banheiro público à noite: se encontrarem uma travesti, aproveitem a oportunidade para fazer uma nova amizade. E se o lugar for deserto, não se esqueça de propor: "vamos juntas?".

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Como o islã vê a transexualidade?

A islamofobia é um problema real. Porque encaramos a sociedade islâmica a partir de nossas concepções cristãs-ocidentais, restringimos nossa visão e nos pautamos apenas nas notícias por aqui veiculadas - a maior parte delas tratando somente de guerras e ações terroristas.

Como é o caso de todas as religiões, o islã também apresenta segmentos fundamentalistas, alguns tendo se tornado conhecidos por seu radicalismo e violência. Mas não se pode dizer que são eles os representantes dos indivíduos muçulmanos, os quais correspondem a cerca de 23% da população mundial. São, antes, uma minoria.

Em termos de governos no poder em países de maioria muçulmana, de fato, predomina o conservadorismo. Política e religião estão intimamente ligadas na maior parte dos países de maioria islâmica e muitas das leis instituídas encontram suas justificativas exclusivamente nos ensinamentos sagrados.

A homossexualidade ainda é considerada um crime em diversos países islâmicos, podendo ser punida com a morte na Arábia Saudita, Sudão, Somália, Mauritânia e Irã. Em outras nações, por sua vez, há certa tolerância, como no caso do Egito, Tunísia, Indonésia, Albânia, Turquia etc. Porém, mesmo nesses países a discriminação contra homossexuais é recorrente, vindo com a não aceitação da família e, por vezes, o assassinato.

Curiosamente, apesar da condenação da homossexualidade, os tratamentos dispensados a transexuais são, por vezes, de relativa aceitação - não quero dizer que pessoas trans são bem tratadas ou totalmente aceitas, mas que a transfobia pode ser mais amena em algumas das nações muçulmanas.

Um caso interessante é o do Irã, que permite a cirurgia de redesignação genital desde 1983, após o líder islâmico, aiatolá Khomeini, passar uma fatwa (pronunciamento legal no Islã emitido por uma autoridade religiosa) permitindo a operação aos "diagnosticados como transexuais".


O governo ajuda a pagar pelas cirurgias pois considera a transexualidade uma doença que pode ser curada, usando como argumento o fato de a condição não ser mencionada no Alcorão, nem considerada como um pecado - diferentemente da homossexualidade, que é encarada como um comportamento imoral e condenável segundo o livro sagrado.

O fato de o país permitir a cirurgia também não significa que haja uma liberdade de escolha para pessoas transgênero: passar pelas operações são uma necessidade para que o indivíduo se encaixe na sociedade como alguém "normal". Aqueles ou aquelas que não passam pela transição e pela cirurgia são considerados disruptivos, enganadores, pois dizem ser portadores da "doença" mas rejeitam sua "cura". Seu comportamento é visto como um pecado porque rompe com a ordem e a organização social.

Há outras questões ainda mais complexas no que diz respeito à permissão para que sejam realizadas cirurgias de redesignação e à suposta aceitação de transexuais no Irã. A primeira delas tem a ver com a precipitação que pode acometer algumas pessoas que, sentindo-se "diferentes", logo buscam a operação - afinal, quando a homossexualidade é veementemente condenada, qualquer homem que se sinta "efeminado" ou mulher "masculinizada" pode encarar o diagnóstico de transexualidade e posterior transição como uma maneira de se obter melhor qualidade de vida ou mesmo de sobreviver num país onde ser gay é crime capital.

A segunda questão está no próprio reforço da normatividade, quando ainda se busca ter controle sobre o corpo de cada cidadão. Se, por um lado, permite-se a transição, por outro, não se trata de uma escolha ou de um apoio à diversidade. Na verdade, essa permissão trabalha a favor de uma uniformização do gênero por meio da qual transexuais são apoiados a fim de se encaixarem na sociedade que visa à manutenção da ordem.

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Documentário: "Transexual no Irã (Ser como os outros)"

Disciplina excessiva e suicídio: o que não falam sobre o Japão


Quando falamos em benefícios da disciplina, frequentemente usamos o Japão como exemplo a ser seguido. O país cultua uma imagem de organização e eficiência que desperta a admiração de todo o mundo e povoa os desejos dos mais conservadores, que sonham com uma sociedade igualmente disciplinada e organizada.

No entanto, a cultura japonesa é muito mais complexa do que nosso senso comum é levado a crer e, por trás dessa perfeita disciplina há fatores extremamente sérios envolvendo, inclusive, um número alto de suicídios até mesmo entre crianças.

Entre os anos de 1973 e 2012, mais de 18 mil crianças cometeram suicídio; em 2014, essa foi considerada a primeira causa de morte entre os jovens de 10 a 19 anos de idade. Os períodos em que a taxa é mais alta são durante a volta às aulas.

Nas escolas japonesas, não há espaço para individualidade e criatividade; desde muito pequenas as crianças começam a aprender matérias como inglês e matemática, além de assistirem aulas extras para conseguirem entrar nas melhores instituições. A competitividade que pressiona os alunos e requer dedicação estrema leva também ao bullying que é, por vezes, encorajado pelo comportamento dos professores ao punirem os alunos

Há jardins de infância - mais rígidos, considerados os melhores - em que os uniformes das crianças consistem apenas de shorts, sem camisa ou blusa que aqueçam os pequenos alunos durante o frio, uma forma de os tornarem resistentes ao clima gelado. É comum, por exemplo, que estudantes assistam aulas até meia-noite já no primeiro ano na escola.

Em sua maioria, pedagogos japoneses não acreditam que uma criança possa ser criativa, apenas espontânea e qualquer excentricidade deve ser desencorajada. O sistema de ensino autoritário acaba por suprimir as emoções dos alunos, não interessa o quão jovens sejam. Assim, o bullying passa despercebido simplesmente porque estudantes não devem relatá-lo, mas aprender a conviver com ele. Ademais, não existem políticas educacionais para inclusão de autistas ou indivíduos com dificuldades de aprendizagem.

O que se observa, em suma, é que a disciplina que consideramos exemplar é obtida às custas da própria humanidade das pessoas desde pequenas. A importância de se manter as aparências faz com que seja condenável falar o que se pensa; a separação da vida íntima e pessoal da vida social deve ser preservada por todos. Em casa, os filhos têm pouco contato com os pais, que se tornam workaholics - em função da competitividade - e se deparam com as exigências das mães para que sejam também bem sucedidos.

Outra consequência do sistema educacional japonês é o aumento da violência cometida por jovens que, devido à pressão, tornam-se agressivos. O número de adolescentes que, transtornados, recorrem a crimes violentos como forma de reagir contra o sistema vem aumentando desde 2002 e, em resposta, estima-se que cerca de 1 milhão de jovens vivam reclusos em suas casas. Eles o fazem por exigência da própria família, envergonhada pelo filho incapaz de ser bem sucedido; outros, acreditando terem falhado em seu dever para com a sociedade, seja por não apresentarem um bom desempenho na escola ou por não conseguirem um bom emprego, entram em reclusão ainda na adolescência por vontade própria - são os chamados "hikkikomori".

As estatísticas têm alarmado o governo japonês, que busca formas de reinventar sua cultura educacional com medidas como o fim das aulas aos sábados ou a redução das notas exigidas nas universidades.

Quando uma pessoa defende uma educação regida por militares, mirando-se no exemplo japonês, ela não leva em conta especificamente o fator humano e a que custo se mantém uma cultura disciplinar. Nesse tipo de sistema um ensino bem sucedido depende de um adestramento que ignora por completo as subjetividades - e essas pessoas vão tentar dar vazão a essas necessidades subjetivas de outras formas, o que pode ter um efeito negativo na sociedade como um todo.

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Leituras recomendadas:
Documentários (em inglês):

domingo, 17 de janeiro de 2016

Vamos falar de sexualidade na infância?

Acho que está ficando cada vez mais complicado prever até que ponto vai a desonestidade das pessoas que, na tentativa de defender seus ideais, literalmente inventam notícias e informações que validariam seus pontos de vista.

Bolsonaro fez um vídeo recentemente tratando de um livro sobre sexualidade que, segundo o próprio, seria distribuído nas escolas públicas. A publicação, intitulada “Aparelho Sexual & Cia”, da editora Cia. das Letras, não tem relação alguma com o MEC e não existe proposta de distribuição do mesmo em escolas, conforme o próprio Ministério divulgou em nota oficial.

Trata-se de uma obra de autoria de Hélène Bruller e Zep, a primeira, quadrinista e ilustradora francesa, ex-mulher do segundo, um quadrinista suíço, ambos com obras que são sempre sucesso de vendas – incluindo a referida “Le Guide du zizi sexuel, que traz Titeuf, famoso personagem de Zep, com o intuito de explicar a sexualidade para PRÉ-ADOLESCENTES. Publicado na França em 2001, o livro já vendeu mais de 1,5 milhão de cópias em todo o mundo.




De maneira bastante clara e objetiva – e com humor –, a obra trata justamente daquilo que os pais têm dificuldade de abordar em conversas com os filhos em fase de desenvolvimento: a sexualidade. Não se trata de um estímulo à sexualidade precoce, mas de uma forma eficaz de sanar as dúvidas que as crianças possam ter sem que os pais se embaracem para responder a certas perguntas.

Na mesma linha de desonestidade intelectual, uma postagem andou sendo compartilhada no Facebook a respeito de outro livro que seria distribuído pelo MEC; a página fotografada e difundida trazia um desenho certamente voltado ao público infantil e a descrição do ato sexual.


Nesse caso, bastava ler o texto para notar que nem sequer se tratava de um livro brasileiro, uma vez que a acentuação das palavras é bastante diferente, além de trazer expressões específicas: “bebé”; “o pai mete-se (...)”; “pénis”; “mamã”. A obra é de autoria de um autor galego (o idioma, de fato, é bem próximo ao português), de nome Pepe Carreiro, e faz parte de uma série que envolve seus personagens infantis, os Bochechas, e faz enorme sucesso em Portugal. Novamente, o conteúdo do texto é a sexualidade, explicada de maneira direta, sem rodeios.

Além da questão concernente à falsidade das “notícias”, é interessante que pensemos sobre a sexualidade propriamente dita. As crianças não estão completamente alheias ao sexo, por mais novas que sejam. A partir do momento em que a criança percebe a si mesma e a seu corpo, ela já está em contato com a sexualidade e já no período entre os 2 e 6 anos de idade começará a fazer indagações sobre os motivos das coisas – o que pode incluir o porquê de os bebês nascerem ou de existirem os casais. Diga-se de passagem, foi comprovado cientificamente que é nessa idade que as crianças se dão conta de suas identidades de gênero.

No período que compreende os 6 e os 10 anos, começam as brincadeiras a nível “sensual” – exploratórias dos órgãos genitais e de áreas de prazer. De certa forma, esses interesses sinalizam a entrada na puberdade. Falar de sexo, propriamente dito, nessa idade, é uma maneira de esclarecer e de educar as crianças para que estejam cientes de seu próprio corpo e até mesmo para que possam compreender o que está por vir.

Educar a criança sobre a sexualidade é algo benéfico quando sua curiosidade natural não é ainda permeada por pensamentos maliciosos. É, inclusive, uma oportunidade adequada para alertarmos a respeito de comportamentos impróprios e até sobre indivíduos que a possam machucar.
O mundo contemporâneo é permeado pela sexualização: na música, na TV, nas propagandas e, principalmente, na internet. Afirmar que a criança de 8, 9 anos não tem ideia do que seja sexo e sexualidade é no mínimo hipócrita.

Além do mais, os primeiros contatos que uma criança tem com a sexualidade (e com o sexo) ocorrem dentro de casa, com a família e nos círculos sociais. Se existe o fenômeno da chamada sexualidade precoce, não se trata de algo causado pela educação.

Apenas o professor, que adentra à sala de aula, sabe o que é ouvir comentários de cunho sexual diversos da boca de crianças e não poder fazer nada a não ser repreender verbalmente, algo que, sabemos, não adianta muito - são comentários que os pais muitas vezes nem mesmo têm noção de que os filhos fazem. 

Na adolescência (e, às vezes, até antes), um número considerável de alunos já inicia sua vida sexual, também sem o conhecimento dos pais. A escola também não consegue impedir que esses jovens adentrem no mundo da sexualidade, mas não pode, de maneira alguma, fechar os olhos para esse fato e ignorá-lo. Daí a necessidade de falarmos de sexualidade enquanto educadores.

Aos anti-petistas de plantão, um aviso:
Jair Bolsonaro não é um político honesto – como a maioria deles –, mente deliberadamente, como se pode observar por esse vídeo sobre o livro que ele disse ser aprovado pelo MEC, e tem um histórico para o qual é preciso se chamar a atenção: ele JÁ FOI CITADO NA LAVA-JATO; suas ofensas a colegas parlamentares são recorrentes, o pior, feitas a nível pessoal; várias vezes foi acusado de quebrar o decoro parlamentar, tentando impedir sessões, principalmente as relativas à Comissão da Verdade; é acusado de receber R$50 mil na ocasião do esquema da chamada Lista de Furnas; foi citado por Joaquim Barbosa como participante do Mensalão; é alvo de dois inquéritos pelo STF, um relacionado a racismo e outro a crime contra a fauna.

Segue, abaixo, um vídeo esclarecedor publicado pela página Nova Escola sobre as declarações do deputado.


Checagem de informações
CHECAGEM DE INFORMAÇÕESO deputado federal Jair Messias Bolsonaro (PP-RJ) publicou há alguns dias um vídeo sobre Educação.NOVA ESCOLA apurou as informações do vídeo. Veja agora os equívocos cometidos pelo deputado e os dados corretos.
Publicado por Nova Escola em Sexta, 15 de janeiro de 2016

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Deus fez o homem, a mulher e as pessoas trans


O chato de você discutir com alguém que usa uma citação bíblica para comprovar seu ponto de vista restrito é que, para essa pessoa, tudo é fruto da vontade de Deus. Por essa lógica, devemos, todos, passar a vida sem modificar nossos corpos; devemos aceitá-los porque estariam de acordo com a vontade divina. Logo, uma pessoa transgênero vai contra essa vontade ao passar pela transição. Mas como é que esse leitor tão ávido da Bíblia e seguidor da palavra de Deus sabe que a transgeneridade não é, também, vontade Dele? Como podemos garantir que, existindo um Deus, ele não faça com que determinadas pessoas nasçam com uma incompatibilidade entre mente e corpo, sabe-se lá por qual motivo?

Para os defensores do determinismo biológico, que afirmam que só existe "macho" e "fêmea", configurações indicadas pelo sistema reprodutor, podemos rebater que exemplos de "transgeneridade" não ocorrem apenas entre os seres humanos - o que difere nossa transgeneridade seria a complexidade da nossa expressão social.

Entre as hienas, por exemplo, são as fêmeas que apresentam personalidade dominadora - característica que, em nossa espécie, afirmamos ser uma essência do homem - e detêm o falo (seus clitóris costumam ser maiores que os pênis dos machos e é a hiena com o clitóris maior a mais disputada para o acasalamento). Entre os leões, algumas fêmeas desenvolvem jubas e são, então, tomadas como machos.

Saindo da categoria dos mamíferos, podemos encontrar ainda os escorpiões amarelos, que se reproduzem por partenogênese porque não existem machos na espécie. Isso sem falar em todas as espécies para as quais a regra é o hermafroditismo (tênias, minhocas, alguns peixes etc.).

Falo disso pois ainda me deparo com muitas pessoas deslegitimando a transgeneridade com base em falsos argumentos biológicos, sem se preocuparem com o que existe em termos de estudos médicos e pesquisas, algumas delas que continuam a ser desenvolvidas e aprofundadas. É possível, sim, indicar causas biológicas da condição trans que fazem com que a pessoa note uma incongruência entre seu corpo e sua percepção de si mesma.

Até hoje, descobriu-se que o receptor de andrógenos, também conhecido como NR3C4, é ativado pela ligação com a testosterona ou dihidrotestosterona, em que tem um papel crítico na formação de características sexuais masculinas primárias e secundárias. Hare et al. descobriu que transexuais do [gênero] masculino para o feminino (mpf) apresentam repetições mais longas do gene, o que reduziria sua efetividade ao acoplar testosterona.

Sobre um variante genotípico para um gene chamado CYP17, que age nos hormônios sexuais pregnenolona e progesterona, descobriu-se estar ligado à transexualidade do [gênero] feminino para o masculino (fpm). Essas pessoas não só apresentam o variante genotípico com maior frequência, mas também têm uma distribuição alela equivalente à dos controles masculinos e diferentemente dos controles femininos.

Zhou et al. (1995) descobriu, em estudo pioneiro, que uma região do cérebro chamada de núcleo leito da estria terminal (em inglês designado pela sigla BSTc, em português, NLET) - conhecida por respostas ao sexo e à ansiedade - aparece, em transexuais mpf, no mesmo tamanho considerado normal para o sexo feminino, enquanto trans fpm apresentam o tamanho que é normal para o sexo masculino. Os transexuais do estudo haviam tomado hormônios, mas entre os indivíduos controle que, por uma variedade de razões médicas, haviam experienciado alguma condição hormonal reversa, o tamanho do NLET ainda se apresentavam de acordo com o gênero com que se identificavam. Não foi encontrada nenhuma relação com a orientação sexual.

Em outro estudo, por Kruijver et al. (2000), focou-se no número de neurônios do NLET em vez de seus volumes. Curiosamente, os resultados encontrados foram semelhantes aos de Zhou et al. (1995), com diferenças ainda mais dramáticas. Um sujeito mpf que nunca havia tomado hormônios também foi incluido e, ainda assim, sua contagem de neurôneos foi correspondente à dos cérebros femininos.

Em 2002, um estudo feito por Chung et al. descobriu que dimorfismos sexuais significantes no NLET não estão estabilizados até a idade adulta. Chung et al. teorizaram que mudanças nos níveis de hormônio no feto produzem mudanças na densidade sináptica do NLET, na atividade neuronal ou no conteúdo neuroquímico, que mais tarde vão resultar em mudanças de tamanho e contagem de neurôneos, ou que o tamanho do NLET é afetado pela falha em se gerar uma identidade de gênero consistente com o sexo anatômico.
Ao rever as evidências em 2006, Gooren confirma a pesquisa como base para o conceito de que a transexualidade seria uma "desordem" de diferenciação sexual do cérebro dimórfico. Dick Swaab (2004) concorda.

Em 2008, uma região com propriedades similares àquelas do NLET em relação à transexualidade foi descoberta por Garcia-Falgueras e Swaab: o terceiro núcleo intersticial do hipotálamo anterior (designado em inglês pela sigla INAH3), parte da área pré-óptica. Para o estudo foi adotado o mesmo método de controle para uso de hormônio visto em Zhoy et al. (1995) e Kruijver et al. (2000). As diferenças encontradas foram ainda mais pronunciadas que no NLET; os homens controle apresentaram em média um volume 1.9 vez maior e 2.3 vezes mais neurônios que as mulheres controle e, novamente, independentemente da exposição a hormônio, transexuais mpf tinham resultados correspondentes aos das mulheres e fpm, correspondentes aos dos homens.

Enquanto a resolução de tomografias de Imagem por Ressonância Magnética (IRM), em geral, são bem claras, núcleos independentes não são visíveis devido à falta de contraste entre os tipos de tecido neurológicos. Sendo assim, imagens de MRI não mostram estruturas detalhadas como o NLET e o INAH3; estudos do NLET foram efetuados pela bissecção post mortem do cérebro.

Ainda assim, o IRM permite o estudo de estruturas maiores do cérebro com relativa facilidade. No estudo de Luders et al. (2009), foram observadas IRMs de transexuais mpf que ainda não haviam começado o tratamento hormonal. Apesar de suas concentrações regionais de massa cinzenta serem mais similares às de homens que de mulheres, notou-se um volume significantemente maior de massa cinzenta no putâmen em comparação aos homens. Dessa forma, concluiu-se que a transexualidade estava associada a padrões cerebrais distintos.

Outro fator foi estudado em um grupo de transexuais fpm que ainda não haviam tomado hormônios: valores fracionários de anisotropia para matéria branca nas partes medial e posterior do fascículo longitudinal superior (FLS) direito, no fórceps menor e no trato corticoespinhal. Rametti et al. (2010) descobriram que, em comparação a mulheres controle, trans fpm apresentaram maiores valores fracionários de anisotropia na parte posterior do FLS direito, no forceps menor e no trato corticoespinhal. Comparados a homens controle, os trans fpm apresentaram apenas valores fracionários de anisotropia menores no trato corticoespinhal.

Hulshoff Pol et al. (2006) estudaram o volume bruto do cérebro de pessoas que passaram pelo tratamento hormonal. Eles descobriram que o volume total do cérebro de um indivíduo muda em direção ao tamanho do sexo para o qual se transiciona durante o tratamento. Assim, concluíram que as descobertas sugerem que, ao longo da vida, os hormônios produzidos pelas gônadas são essenciais para manter certos aspectos sexuais específicos no cérebro humano. Contudo, o estudo não explica as diferenciações encontradas em pessoas transexuais que ainda não haviam começado a tomar hormônios.

Em 2013, um estudo baseado em publicações prévias e pesquisas conduzidas na ocasião apresentou dados interessantes referentes à transexualidade em gêmeos. Descobriram que em 39 pares de gêmeos masculinos monozigóticos, 13 (33%) deles se identificavam como transexuais (ambos os gêmeos). O mesmo foi encontrado em 8 de 25 pares de gêmeas (22,5%). Mas apenas 1 par entre 38 gêmeos dizigóticos (2.6%) se identifica como transexual (também, ambos os gêmeos). A porcentagem significante de transexualidade ocorrendo com ambos os gêmeos monozigóticos e a aparente falta de correspondência no caso dos dizigóticos, criados na mesma família ao mesmo tempo, reforça a teoria de que a identidade sexual seja influenciada pela genética.

Para se explicar as descobertas acima mencionadas, os mecanismos comumente citados são a exposição pré-natal ao andrógeno ou a falta dela, ou ainda pouca sensitividade aos andrógenos pré-natais. Schneider, Pickel e Stalla (2006) encontraram uma correlação entre o raio digital (média entre comprimento dos dedos, um marcador geralmente aceito para indicar exposição pré-natal ao andrógeno) e a transexualidade mpf. Trans mpf apresentam maior raio digital que homens controle e sua medida é comparável à de mulheres controle (indicando, portanto, que elas não teriam sido expostas ao andrógeno pré-natal).

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Fontes (em inglês):

E quem é você para discutir comigo?

Meu amigo, Thiago Soares (a.k.a. T. Angel), trouxe a seu blog uma discussão que ainda me choca pelo nível de "apelação" do qual certas pessoas lançam mão quando tentamos questioná-las. Isso, na verdade, é uma rotina no universo das redes sociais - e, a bem da verdade, em qualquer situação na qual precisamos dialogar com um indivíduo que se considera autoridade.

Primeiramente, a postagem na qual se deu a discussão trata de um apontamento sobre termos preconceituosos e discriminatórios que não devem ser usados quando nos referimos a travestis. Sabemos, travestis são pessoas que têm, diariamente, seus direitos negados, ainda que, pela Constituição Federal, devam ser tratadas como todo e qualquer cidadão brasileiro.

Segundo a C.F., temos, logo em seu início:
TÍTULO I
Dos Princípios Fundamentais
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I - a soberania;
II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V - o pluralismo político.
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.
Art. 2º São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.
Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II - garantir o desenvolvimento nacional;
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;

IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Eu, você, as travestis, pessoas transexuais, homossexuais, negros, pobres, os fuzileiros navais, somos todos regidos pela mesma Constituição. Ninguém tem o direito de humilhar ninguém, e usar termos pejorativos para se referir a uma pessoa é uma violência simbólica.

Aceitar a IDENTIDADE de uma pessoa é dar a ela o mínimo de dignidade para que viva, em seu dia-a-dia, gozando de um respeito que ela nem mesmo deveria exigir; o respeito deveria ser concedido a ela automaticamente, como um direito de todo e qualquer cidadão, repito. Isso não tem relação alguma com a laicidade do Estado, diga-se de passagem, pois não estamos tratando de religião, nem mesmo de doutrina, mas de um fato. Há estudos médicos que comprovam fatores biológicos envolvidos na condição da pessoa trans.





E eis que, além de tornar claro seu desrespeito para com um grupo de cidadãs, o indivíduo lança mão de seu status social: "Eu sou cabo do corpo de fuzileiros navais e incluo nas minhas piadas a classe que eu quiser. [...] Quem é VC pra dizer o que se configura homofobia ou qualquer outro tipo de palavra que vcs têm inventado pra se vitimizarem [sic]? [...]". Posteriormente, ainda procura a ajuda de um advogado que não se manifesta na discussão, chamando-o de "dr."...

Está aqui um caso claro da demagogia em que o sujeito procura conduzir a discussão usando de uma ferramenta intimidatória. Dizem que é preciso que os respeitemos para que sejamos também respeitados, mas o desrespeito parte justamente deles.

Infelizmente, é esse tipo de discurso que com frequência inibe denúncias por discriminação e má conduta principalmente em se tratando de atos cometidos por oficiais.

Não são apenas os indivíduos que precisam mudar seu comportamento, aliás. As instituições também necessitam rever a abordagem de assuntos que envolvem o tratamento de grupos minoritários. É preciso, ainda, que tomemos consciência do seguinte: as instituições existem para SERVIR o povo e não o contrário.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A banalidade do mal e o vazio de pensamento


Mesmo não conhecendo a obra de Hannah Arendt, é provável que todos estamos mais ou menos familiarizados com o termo “banalidade do mal”. Essa expressão foi cunhada pela filósofa em seu livro Eichmann em Jerusalém, publicado em 1963 com base nos relatos de Arendt para o jornal The New Yorker, a respeito do julgamento do oficial nazista Adolf Eichmann.

Eichmann teria sido responsável pela eficiente logística que levou milhares de pessoas ao extermínio durante a 2ª Guerra Mundial, tendo organizado o sistema de identificação e transporte dos indivíduos aos campos de concentração espalhados pela Alemanha.

Julgado em 1961, em Israel, por crimes contra a Humanidade, genocídio de judeus e por pertencer a uma organização com fins criminosos, Eichmann se declarou inocente, mas foi condenado por todas as acusações e enforcado no ano seguinte.

A análise de Arendt daquele indivíduo revela que ele não apresentava nenhum histórico de violência ou mesmo antissemitismo, além de não mostrar características de ser alguém doente ou com transtornos de personalidade.

Como oficial do Partido Nazista, Eichmann agiu segundo o que acreditava ser seu dever, cumprindo ordens superiores. Movido pelo desejo de ser bem-sucedido em sua carreira profissional, ele simplesmente cumpria as ordens sem questioná-las, com o devido zelo e eficiência. Para ele, não havia a questão moral de estar cometendo crimes, uma vez que naquele Estado de exceção o extermínio fazia parte das regras – um Estado no qual o “mal” era algo banal.

Assim, para a filósofa, o mal não é uma categoria ontológica, natural, com a qual alguém nasce ou que faça parte da essência de um sujeito; é, antes, algo político e histórico, que se manifesta onde encontra espaço institucional para isso e é produzido pelos próprios seres humanos. No tempo e espaço em que o mal é permitido e sancionado, a violência se torna algo trivial, correspondendo ao “vazio de pensamento” (outra expressão cunhada por Arendt na obra). Em suma, não se pensa sobre o ato violento cometido, por ser esse tipo de comportamento banal.

Atendo-nos ao Brasil, podemos fazer analogias diversas com situações nas quais a “banalidade do mal” se faz presente, fruto de vazios do pensamento provocados por uma cultura em que a violência é apresentada como solução para a violência, uma vez que essa reação não requer abertura para o outro – trata-se da solução ideal oferecida às personalidades autoritárias.

Temos, por exemplo, na Polícia, um caso muito semelhante ao dos oficiais nazistas: agem apenas cumprindo ordens. Nas ocupações das escolas por estudantes em São Paulo, a Polícia Militar foi filmada e fotografada agredindo adolescentes e agindo com a mesma truculência da qual lança mão para apreender um criminoso. Cumpriu com seu trabalho dentro de uma instituição que permite, sanciona e até estimula a violência

Quando trataram os estudantes lançando mão de abuso de poder e de força física, é bem provável que não estivessem se preocupando com o bem estar daqueles jovens e que acreditassem estar fazendo seu trabalho com eficiência. Não há espaço para subjetividade quando se cumprem ordens - nem para o senso lógico de que aqueles alunos eram fisicamente menos fortes que os policiais.




Em uma sociedade na qual o próprio Estado é violento, o governo é violento e os líderes apresentam discursos que estimulam a violência, é de se esperar que a população seja também violenta.

A escolha de um (ou mais) inimigos seria fator a justificar a violência, como se apenas o espancamento, o linchamento, o extermínio dos grupos considerados inimigos solucionassem o problema da desigualdade – ou melhor, da existência do outro. As pessoas se voltam para o inimigo em surtos de histeria coletiva como os que presenciamos nas últimas manifestações pró-impeachment quando os chamados “cidadãos de bem” se deparam com indivíduos os quais eles não enxergam como sujeitos, mas como males que precisam ser eliminados da sociedade – leia-se, aqueles que não pertencem aos grupos dominantes.


Podemos até dizer que o “vazio de pensamento” demonstrado por essas pessoas que agem dentro do grupo é voluntário, uma vez que não se deseja o esclarecimento – como já fui obrigada a ouvir diversas vezes, quando tentava explicar racionalmente algum movimento social: “não quero saber de Marx”; “o que vem de Marx eu nem leio”; “saber disto não me interessa”. 

Há uma vontade de se permanecer ignorante, de não se abrir para explicações e reflexões que, em outro contexto, seriam óbvias. A principal atitude tomada por esses “cidadãos de bem” refletem, na verdade, um ataque pronto, sem ter havido, antes, uma ação à qual seja preciso revidar. Afinal, a possibilidade de se abrirem para qualquer racionalização diferente daquela já pronta em suas mentes traz consigo a ameaça da desconstrução.

sábado, 28 de novembro de 2015

Oprimidos vs. oprimidos (ou "Sobre falsas simetrias")

Se tem uma coisa que as redes sociais vêm me mostrando é como nós podemos nos enganar a respeito de uma pessoa, acreditando que ela é inteligente e sensata quando, na verdade, é mais uma que se orgulha da própria ignorância. Tudo começou quando um conhecido meu compartilhou, no Facebook, a seguinte postagem:

Ora, ao se compartilhar um "texto" como esse, convenhamos, o clichê máximo de "respeitar para ser respeitado" deixa de valer, uma vez que a postagem em si desrespeita a pessoa que defende a construção social do gênero, diretamente. Logo, sentindo-me desrespeitada, eu não creio que o defensor da ideia propagada por essa postagem esteja em posição de exigir respeito quando ele mesmo é incapaz de respeitar o ponto de vista diferente. Há muitas formas de se discutir sobre o gênero e se colocar uma crença.

Essa "história" da nota de 5 reais usada como analogia para questões de gênero não é apenas absurda, é um verdadeiro tratado de estupidez, a começar por se tratar de um objeto inanimado desprovido de toda e qualquer subjetividade. O verbo "sentir" não revela, em si, a complexidade do pensamento humano e dos processos cerebrais pelos quais passamos ao longo de toda nossa vida. Basta dizer que nós não somos capazes nem mesmo de explicar nossos sentimentos inteiramente - seja em nível subjetivo, científico, médico, neurofisiológico...

Quando dizemos que o gênero é um construto social não estamos afirmando que uma pessoa "acorda se sentindo homem" ou "acorda se sentindo mulher". Desde o momento em que nascemos somos imersos em ideologias que vão ter um papel ativo e constante no desenvolvimento de nossa identidade. Nós, seres humanos, não existimos fora de uma sociedade e, mesmo como indivíduos, precisamos de um instrumento social - a língua - para determinar quem somos.

Quando o assunto é gênero NÃO EXISTE ESCOLHA, e por mais que afirmemos isso sujeitos como o que pensou na história da nota parecem não estar dispostos a entender. Sua preocupação é, antes, invalidar expressões de gênero que não estejam de acordo com a configuração corporal da pessoa - em outras palavras, desejam invalidar a transgeneridade. 

O que mais me decepciona, contudo, não é o fato de ainda existirem pessoas iludidas com pseudo-argumentos estúpidos como o desenvolvido na postagem acima. O que me decepciona é notar que indivíduos que não deveriam se alienar com esse tipo de discurso acabam convencidos e decidem compartilhá-lo como se fosse uma explicação válida e, pior ainda, julgam-se críticos e não se mostram capazes de enxergar a própria venda que os cega.

O sujeito que faz parte de uma subcultura como a da modificação corporal não deveria ser um alienado, simplesmente porque seu próprio estilo de vida o faz enxergar o mundo de maneira diferente - ou pelo menos é o mais provável de acontecer. Adeptos da modificação corporal se encaixam na categoria de "anormais", pois fogem dos padrões de maneira visível, sendo um tanto quanto inaceitável que se mantenham conservadores e moralistas.

Há muitas relações entre a modificação corporal e a noção de identidade que construímos para nós mesmos, relações que passam exatamente pelo "sentir". Afinal, eu moldo e modifico meu corpo para me sentir melhor.
Aqui, sim, eu posso fazer uma analogia interessante: pessoas transgênero passam por processos de modificação corporal a fim de se sentirem melhor nos corpos que habitam. 

Se eu modifico meu corpo por meio de tatuagens, piercings, implantes, escarificações e procedimentos experimentais, eu o faço para construir a mim mesmo. Eu assumo meu direito a meu próprio corpo para moldá-lo e tornar visível ao mundo quem eu sou e como me sinto. Se eu modifico meu corpo por meio de hormonização e cirurgias plásticas, tenho o mesmo objetivo. O que faço, tanto em um caso como em outro, é trabalhar com a biologia e o conhecimento médico para promover uma adequação do meu corpo à minha identidade, a forma como eu me enxergo.

Eu não escolho "ser diferente", ser "freak". Poderíamos, sim, optar por não modificar nosso corpo, mas como sabemos, a questão não é tão simples assim e muitos de nós não conseguiríamos viver se não tivéssemos nos modificado. Acho que aqui podemos perceber outra semelhança com a questão transgênero.

Particularmente, acho ainda mais estranho quando um indivíduo negro e adepto da modificação corporal se coloca numa posição de intolerância para com outros grupos oprimidos. De certa forma, parte de sua visão está baseada justamente na ignorância, no "não saber" mesmo, na falta de uma percepção mais aprofundada de questões sociais que ligam grupos excluídos de maneira tênue. O que me incomoda, aqui, não é a ignorância em si, mas o orgulho de ser ignorante e o desejo de permanecer ignorante. O cara que compartilhou esse texto diz que "não defende nada", sem perceber que o compartilhamento da postagem é, por si só, uma tomada de posição. Sem contar que a noção de "não defender nada" é incabível, pois sempre vamos defender a nós mesmos e o grupo ao qual pertencemos, consciente ou inconscientemente.

Uma coisa é não defender uma causa. Outra é se posicionar contra ela e querer se justificar dizendo que "não defende nada". Querer invalidar uma causa (a da chamada equivocadamente de "ideologia de gênero") é colocar-se contra ela, abertamente.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Terceiro sexo ou terceiro gênero?

A língua tem desses dilemas que me fazem refletir por horas e horas. Essas reflexões são geralmente provocadas por afirmações assertivas feitas por debatedores apegados em certezas e frases prontas. A última que li foi a de que “não existe terceiro sexo”, baseada na noção de que, na natureza, só há “macho” e “fêmea”.

De fato, há dois paradigmas na natureza como um todo, classificadores da reprodução sexuada, os quais se convencionou chamar de “macho” e “fêmea”. Contudo, o problema da afirmação de não existir um “terceiro sexo” já aparece quando pensamos em plantas hermafroditas – afinal, se elas não podem ser consideradas nem “macho” nem “fêmea”, é preciso que haja um terceiro termo para classifica-las de acordo com sua configuração sexual.

Mas voltemos aos seres humanos. Na concepção do dimorfismo sexual, o que nos permitiria dizer que um indivíduo é “macho” ou “fêmea” concentra-se, sobretudo, em cinco fatores específicos. São a presença ou ausência do cromossomo Y; o tipo de gônadashormônios sexuais; anatomia reprodutiva interna (como o útero nas “fêmeas”); e genitália externa.

[Precisamente aqui está uma questão no que se refere à fala do médico, ao nascimento, de atestar que o bebê é “menino” ou “menina”: raramente usa-se algum outro fator além da genitália externa para tal determinação, sendo os demais ignorados ou apenas levados em conta quando há algo que parece se diferenciar do paradigma.]

Pois bem, quando há cromossomia XX, ovários que produzirão estrógeno e progesterona, útero e uma vagina, diz-se que aquela pessoa é “fêmea”. Quando há cromossomia XY, testículos que produzirão testosterona e secretarão espermatozoides, próstata e um pênis, diz-se que aquela pessoa é “macho”. Esse é o paradigma do dimorfismo sexual.

Mas, como sabemos, há pessoas que nascem sem determinados órgãos internos, ou apresentam cromossomias variantes, ou ainda que nascem com genitálias ambíguas. Ora, se elas se encontram fora do paradigma, é correto chama-las de “macho” ou “fêmea”? Ou é preciso usar um termo diferenciado?


Os casos de pessoas intersexo são especialmente interessantes para se discutir o tema. Portanto, antes de tirar suas conclusões, peço que assista ao vídeo abaixo:


Se dizemos que não existe um "terceiro sexo" estamos eliminando a possibilidade de haver algo além do "macho" e da "fêmea" - sendo que a própria ciência já descobriu haver um continuum entre os extremos "macho" e "fêmea" que não permitem uma identificação plena de certos indivíduos no que diz respeito ao chamado "sexo biológico".

O mesmo pode ser dito em relação à manifestação do gênero. As identidades de gênero não precisam se restringir ao "masculino" e "feminino", pois comportam um espectro muito maior. 

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Sobre o ENEM e as idiotices que as pessoas falam

Doutrina é definida como um conjunto de princípios que servem de base a um sistema, que pode ser literário, filosófico, político e religioso. Doutrina também pode ser uma fonte do direito.  
Doutrina está sempre relacionado à disciplina, a qualquer coisa que seja objeto de ensino, e pode ser propagada de várias maneiras, através de pregações, opinião de pessoas conhecidas, ensinamentos, textos de obras, e até mesmo através da catequese, como uma forma de doutrina da Igreja Católica. (fonte: http://www.significados.com.br/doutrina/)
Uma movimentação bastante curiosa vem acontecendo em torno da prova do ENEM deste ano de 2015: indivíduos doutrinados pela direita acusam o teste de ser uma tentativa de doutrinação pela esquerda.

A razão dessas acusações vem, principalmente, de UMA única questão objetiva e da proposta de redação. Diga-se de passagem, não há nada na questão em específico que incite o apoio ou a crença do aluno que esteja fazendo a prova, como se pode ver:


Trata-se de uma questão modelo de toda e qualquer prova, na qual é retirado um trecho de um livro e solicitado ao aluno que contextualize o texto com um período histórico.

Sobre a obra escolhida é preciso explicar, ainda, que são dois livros relativamente extensos, em que a autora discorre sobre a condição feminina como ela a percebia em sua época. O trecho que começa com a famosa frase “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher” diz respeito a como a criança, nascida “fêmea”, passa por uma série de experiências que vão determinar sua identidade de “mulher”. Isso quer dizer que a “fêmea” não nasce sabendo cuidar da casa, por exemplo, nem criar os filhos, nem sendo submissa ao homem – ela se torna uma pessoa assim.

Convenhamos, não é preciso nem sequer coadunar com o pensamento feminista para compreender o quão lógica e óbvia é essa frase.

O pensamento de Beauvoir inspirou o movimento feminista, e essa é toda a informação que precisaríamos saber para responder à questão. Eu nem mesmo precisaria conhecer Simone de Beauvoir e sua biografia para marcar uma resposta correta.

Em suma, a biografia de Beauvoir não interessa – até mesmo porque o importante, em relação a sua obra, foram as releituras que ela originou, não o que ela, como pessoa, fez em vida.

É a mesma coisa de saber, por exemplo, que as ideias propagadas pela Revolução Francesa influenciaram a Inconfidência Mineira. Ou que a utopia nazista de que seria possível controlar a genética a fim de se produzir seres humanos fisicamente superiores fez com que os médicos do Reich alemão conduzissem uma série de experimentos e estudos científicos, algo que contribuiu imensamente para o avanço da medicina. São fatos historicamente verificáveis que independem das ideologias defendidas por uma pessoa. 

O mesmo acontece no caso da proposta para a redação: colocaram-se, ali, dados específicos. A morte de mulheres provocada por seus companheiros é uma realidade. E antes que perguntem, há, sim, assassinato de homens por suas esposas, bem como abuso físico e psicológico dos parceiros pelas parceiras. Mas não era disso que a proposta da redação falava.

Não é preciso ser feminista para constatar que, em muitas famílias, o senso de dominação do esposo/pai leva à agressão e até ao assassinato da mulher. Não é preciso ser feminista para constatar também que a morte de mulheres provocada dentro de uma situação doméstica é incrivelmente alta, pois existem pesquisas que revelam esses números – essa é uma questão de segurança pública.

O tema para a redação era esperado, aliás, por conta de uma pesquisa realizada pelo DataSenado em agosto deste ano. Estamos cansados de saber que precisamos estar atentos às notícias e acontecimentos pois são as maiores indicações de qual será a proposta da redação. Poderia muito bem ter sido pedido para que o candidato dissertasse sobre o racismo e a xenofobia, em função dos casos de agressão a imigrantes que foram noticiados. 

Em momento algum é pedido que o aluno assuma uma postura política de esquerda ou de direita. Ele deve tão somente dissertar de maneira lógica sobre um dado que lhe foi apresentado.

Aliás, não há justificativa para crer que UMA PROVA é um instrumento de doutrinação, uma vez que nunca houve um indivíduo que mudasse suas crenças sócio-políticas depois de prestar o ENEM. O exagero de quem acusa o exame de tentar doutrinar me parece, antes, uma espécie de delírio coletivo desses que adotaram o que acham ser o "comunismo" como bode expiatório.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A dor e o suicídio das pessoas trans


Pessoas transgênero estão sujeitas à violência desde muito cedo, tendo sua identidade de gênero deslegitimada por um discurso que essencializa a aparência dos genitais, logo no nascimento. Assim, pressupõe-se que nosso gênero deva estar de acordo com o suposto “sexo biológico” – digo suposto pois essa determinação é feita pelo médico baseada somente na existência de pênis ou vagina.

Essa determinação, aparentemente simples, é o primeiro ato de constrição das identidades de gênero, o qual será reforçado por atitudes subsequentes que incluem a adoção de códigos de vestuário e comportamento – o conjunto dos códigos adotados indica a expressão de gênero que se espera do indivíduo com identidade de gênero masculina ou feminina.

Das meninas é esperada uma série de atitudes e preferências que as diferenciem dos meninos e vice-versa. Essas expectativas são plantadas logo que se descobre a gravidez: o feto mais agitado só pode ser um menino; no ultrassom, a imagem de um pênis avantajado é sinal de que ele será um “macho de verdade”.

Desde muito nova a criança cujo comportamento (ou seja, cuja expressão de gênero) não aparenta estar de acordo com o gênero que lhe foi designado é constantemente perseguida, pressionada, forçada a se “normalizar”. Trata-se de uma violência simbólica – não rara acompanhada de violência física – que possivelmente afetará o indivíduo pelo resto de sua vida.

A perseguição, de fato, não é exercida apenas pela família. Ela vem de frentes diversas, que incluem os amigos, a escola (logo no jardim de infância), a igreja, os vizinhos e vão continuar no trabalho, na faculdade, nas instituições de saúde, na política e assim por diante.

Essa pressão intensa pela adequação, somada aos discursos de exclusão e de negação da legitimidade da condição transgênero leva essas pessoas a internalizarem a discriminação. Elas passam a desprezar-se como a sociedade as despreza, a sentir vergonha de si mesmas e “dos problemas que causam” (por resistirem à adequação) – afinal, a culpa não é, nunca, da sociedade, mas dos “anormais”.

Dessa forma, o suicídio acaba sendo encarado, pelas pessoas trans, como uma saída de um mundo em que elas não se encaixam, numa sociedade que é incapaz de aceita-las como elas são.
Quando se matou, em dezembro de 2014, Leelah Alcorn, de 17 anos, deixou uma mensagem em seu Tumblr, dizendo: “A vida que eu teria vivido não valia a pena ser vivida... porque eu sou transgênero”.

Esse sentimento traz alguma compreensão às estatísticas de pesquisa publicada em janeiro de 2014 pelo Instituto Williams de Los Angeles, que revela que 41% das pessoas trans entrevistadas já tentou cometer suicídio em algum ponto da vida – em comparação a 20% de gays, lésbicas e bissexuais e 4,6% da população geral. Em outra pesquisa, feita em Ontário, no Canadá, 35% das pessoas trans entrevistadas relataram ter pensado em suicídio em 2014 e 11% chegou a tentar se matar.  

No Brasil ainda não há uma pesquisa formal realizada entre pessoas transgênero, mas, infelizmente, suponho que os números apresentem uma mesma realidade. Entre jovens LGBTTA+, o desejo de se matar não parece ser um relato pouco frequente – na verdade, o que impede de haver mais pesquisas sobre o tema é sua condição de tabu.

Pouco tempo depois da morte de Leelah, em fevereiro de 2015, Ash Haffner, um garoto trans de 16 anos, também cometeu suicídio jogando-se na frente de um veículo – a mesma maneira como Leelah tirou sua vida.

As reportagens sobre Leelah e Ash chamam a atenção por conta das declarações dos pais de ambos os jovens. Claramente, os pais de Leelah não aceitavam sua transgeneridade, algo que ela mencionou em seu bilhete de suicídio e que foi reforçado pelas declarações dadas por sua mãe à CNNtratando-a como “seu filho” e afirmando que não apoiavam sua decisão, “religiosamente”.

A mãe de Ash, por sua vez, insiste em trata-lo no feminino em declarações à TV, dizendo que o bullying foi a causa do suicídio “de sua filha”.  

Neste outubro de 2015, Ashley Hallstrom, de 26 anos, também se jogou na frente de um caminhão em uma estrada movimentada. De acordo com a página Planet Transgender, ela é a 20ª pessoa trans nos Estados Unidos a cometer suicídio em 2015.

Em sua nota de suicídio no Facebook, Ashley conta que desde cedo aprendeu que “pessoas como ela eram aberrações e abominações”, o que fez com que ela odiasse quem ela era. Apesar dos anos de sofrimento e depressão, Ashley manteve o desejo de ajudar outras pessoas trans ao deixar sua carta, que pede para que as pessoas compartilhem o máximo possível.


Como Leelah, Ashley alerta para como a sociedade precisa mudar para ser capaz de aceitar, receber e ajudar as pessoas trans. 

O estudo canadense publicado em junho de 2015 (sobre o qual falei anteriormente), realizado entre habitantes da cidade de Ontário, é um dos primeiros a considerar fatores que podem intervir nos riscos de suicídio das pessoas transgênero e as conclusões são bem claras: apoio social, redução da transfobia e o acesso a documentos retificados de acordo com a identidade de gênero são fatores associados a grande redução relativa ou até absoluta dos riscos de suicídio, bem como o acesso à terapia hormonal e às cirurgias que a pessoa julgar necessárias. Além do mais, o apoio dos pais foi bastante associado à redução do pensamento de suicídio entre as pessoas, juntamente com a auto-aceitação.