terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A banalidade do mal e o vazio de pensamento


Mesmo não conhecendo a obra de Hannah Arendt, é provável que todos estamos mais ou menos familiarizados com o termo “banalidade do mal”. Essa expressão foi cunhada pela filósofa em seu livro Eichmann em Jerusalém, publicado em 1963 com base nos relatos de Arendt para o jornal The New Yorker, a respeito do julgamento do oficial nazista Adolf Eichmann.

Eichmann teria sido responsável pela eficiente logística que levou milhares de pessoas ao extermínio durante a 2ª Guerra Mundial, tendo organizado o sistema de identificação e transporte dos indivíduos aos campos de concentração espalhados pela Alemanha.

Julgado em 1961, em Israel, por crimes contra a Humanidade, genocídio de judeus e por pertencer a uma organização com fins criminosos, Eichmann se declarou inocente, mas foi condenado por todas as acusações e enforcado no ano seguinte.

A análise de Arendt daquele indivíduo revela que ele não apresentava nenhum histórico de violência ou mesmo antissemitismo, além de não mostrar características de ser alguém doente ou com transtornos de personalidade.

Como oficial do Partido Nazista, Eichmann agiu segundo o que acreditava ser seu dever, cumprindo ordens superiores. Movido pelo desejo de ser bem-sucedido em sua carreira profissional, ele simplesmente cumpria as ordens sem questioná-las, com o devido zelo e eficiência. Para ele, não havia a questão moral de estar cometendo crimes, uma vez que naquele Estado de exceção o extermínio fazia parte das regras – um Estado no qual o “mal” era algo banal.

Assim, para a filósofa, o mal não é uma categoria ontológica, natural, com a qual alguém nasce ou que faça parte da essência de um sujeito; é, antes, algo político e histórico, que se manifesta onde encontra espaço institucional para isso e é produzido pelos próprios seres humanos. No tempo e espaço em que o mal é permitido e sancionado, a violência se torna algo trivial, correspondendo ao “vazio de pensamento” (outra expressão cunhada por Arendt na obra). Em suma, não se pensa sobre o ato violento cometido, por ser esse tipo de comportamento banal.

Atendo-nos ao Brasil, podemos fazer analogias diversas com situações nas quais a “banalidade do mal” se faz presente, fruto de vazios do pensamento provocados por uma cultura em que a violência é apresentada como solução para a violência, uma vez que essa reação não requer abertura para o outro – trata-se da solução ideal oferecida às personalidades autoritárias.

Temos, por exemplo, na Polícia, um caso muito semelhante ao dos oficiais nazistas: agem apenas cumprindo ordens. Nas ocupações das escolas por estudantes em São Paulo, a Polícia Militar foi filmada e fotografada agredindo adolescentes e agindo com a mesma truculência da qual lança mão para apreender um criminoso. Cumpriu com seu trabalho dentro de uma instituição que permite, sanciona e até estimula a violência

Quando trataram os estudantes lançando mão de abuso de poder e de força física, é bem provável que não estivessem se preocupando com o bem estar daqueles jovens e que acreditassem estar fazendo seu trabalho com eficiência. Não há espaço para subjetividade quando se cumprem ordens - nem para o senso lógico de que aqueles alunos eram fisicamente menos fortes que os policiais.




Em uma sociedade na qual o próprio Estado é violento, o governo é violento e os líderes apresentam discursos que estimulam a violência, é de se esperar que a população seja também violenta.

A escolha de um (ou mais) inimigos seria fator a justificar a violência, como se apenas o espancamento, o linchamento, o extermínio dos grupos considerados inimigos solucionassem o problema da desigualdade – ou melhor, da existência do outro. As pessoas se voltam para o inimigo em surtos de histeria coletiva como os que presenciamos nas últimas manifestações pró-impeachment quando os chamados “cidadãos de bem” se deparam com indivíduos os quais eles não enxergam como sujeitos, mas como males que precisam ser eliminados da sociedade – leia-se, aqueles que não pertencem aos grupos dominantes.


Podemos até dizer que o “vazio de pensamento” demonstrado por essas pessoas que agem dentro do grupo é voluntário, uma vez que não se deseja o esclarecimento – como já fui obrigada a ouvir diversas vezes, quando tentava explicar racionalmente algum movimento social: “não quero saber de Marx”; “o que vem de Marx eu nem leio”; “saber disto não me interessa”. 

Há uma vontade de se permanecer ignorante, de não se abrir para explicações e reflexões que, em outro contexto, seriam óbvias. A principal atitude tomada por esses “cidadãos de bem” refletem, na verdade, um ataque pronto, sem ter havido, antes, uma ação à qual seja preciso revidar. Afinal, a possibilidade de se abrirem para qualquer racionalização diferente daquela já pronta em suas mentes traz consigo a ameaça da desconstrução.

sábado, 28 de novembro de 2015

Oprimidos vs. oprimidos (ou "Sobre falsas simetrias")

Se tem uma coisa que as redes sociais vêm me mostrando é como nós podemos nos enganar a respeito de uma pessoa, acreditando que ela é inteligente e sensata quando, na verdade, é mais uma que se orgulha da própria ignorância. Tudo começou quando um conhecido meu compartilhou, no Facebook, a seguinte postagem:

Ora, ao se compartilhar um "texto" como esse, convenhamos, o clichê máximo de "respeitar para ser respeitado" deixa de valer, uma vez que a postagem em si desrespeita a pessoa que defende a construção social do gênero, diretamente. Logo, sentindo-me desrespeitada, eu não creio que o defensor da ideia propagada por essa postagem esteja em posição de exigir respeito quando ele mesmo é incapaz de respeitar o ponto de vista diferente. Há muitas formas de se discutir sobre o gênero e se colocar uma crença.

Essa "história" da nota de 5 reais usada como analogia para questões de gênero não é apenas absurda, é um verdadeiro tratado de estupidez, a começar por se tratar de um objeto inanimado desprovido de toda e qualquer subjetividade. O verbo "sentir" não revela, em si, a complexidade do pensamento humano e dos processos cerebrais pelos quais passamos ao longo de toda nossa vida. Basta dizer que nós não somos capazes nem mesmo de explicar nossos sentimentos inteiramente - seja em nível subjetivo, científico, médico, neurofisiológico...

Quando dizemos que o gênero é um construto social não estamos afirmando que uma pessoa "acorda se sentindo homem" ou "acorda se sentindo mulher". Desde o momento em que nascemos somos imersos em ideologias que vão ter um papel ativo e constante no desenvolvimento de nossa identidade. Nós, seres humanos, não existimos fora de uma sociedade e, mesmo como indivíduos, precisamos de um instrumento social - a língua - para determinar quem somos.

Quando o assunto é gênero NÃO EXISTE ESCOLHA, e por mais que afirmemos isso sujeitos como o que pensou na história da nota parecem não estar dispostos a entender. Sua preocupação é, antes, invalidar expressões de gênero que não estejam de acordo com a configuração corporal da pessoa - em outras palavras, desejam invalidar a transgeneridade. 

O que mais me decepciona, contudo, não é o fato de ainda existirem pessoas iludidas com pseudo-argumentos estúpidos como o desenvolvido na postagem acima. O que me decepciona é notar que indivíduos que não deveriam se alienar com esse tipo de discurso acabam convencidos e decidem compartilhá-lo como se fosse uma explicação válida e, pior ainda, julgam-se críticos e não se mostram capazes de enxergar a própria venda que os cega.

O sujeito que faz parte de uma subcultura como a da modificação corporal não deveria ser um alienado, simplesmente porque seu próprio estilo de vida o faz enxergar o mundo de maneira diferente - ou pelo menos é o mais provável de acontecer. Adeptos da modificação corporal se encaixam na categoria de "anormais", pois fogem dos padrões de maneira visível, sendo um tanto quanto inaceitável que se mantenham conservadores e moralistas.

Há muitas relações entre a modificação corporal e a noção de identidade que construímos para nós mesmos, relações que passam exatamente pelo "sentir". Afinal, eu moldo e modifico meu corpo para me sentir melhor.
Aqui, sim, eu posso fazer uma analogia interessante: pessoas transgênero passam por processos de modificação corporal a fim de se sentirem melhor nos corpos que habitam. 

Se eu modifico meu corpo por meio de tatuagens, piercings, implantes, escarificações e procedimentos experimentais, eu o faço para construir a mim mesmo. Eu assumo meu direito a meu próprio corpo para moldá-lo e tornar visível ao mundo quem eu sou e como me sinto. Se eu modifico meu corpo por meio de hormonização e cirurgias plásticas, tenho o mesmo objetivo. O que faço, tanto em um caso como em outro, é trabalhar com a biologia e o conhecimento médico para promover uma adequação do meu corpo à minha identidade, a forma como eu me enxergo.

Eu não escolho "ser diferente", ser "freak". Poderíamos, sim, optar por não modificar nosso corpo, mas como sabemos, a questão não é tão simples assim e muitos de nós não conseguiríamos viver se não tivéssemos nos modificado. Acho que aqui podemos perceber outra semelhança com a questão transgênero.

Particularmente, acho ainda mais estranho quando um indivíduo negro e adepto da modificação corporal se coloca numa posição de intolerância para com outros grupos oprimidos. De certa forma, parte de sua visão está baseada justamente na ignorância, no "não saber" mesmo, na falta de uma percepção mais aprofundada de questões sociais que ligam grupos excluídos de maneira tênue. O que me incomoda, aqui, não é a ignorância em si, mas o orgulho de ser ignorante e o desejo de permanecer ignorante. O cara que compartilhou esse texto diz que "não defende nada", sem perceber que o compartilhamento da postagem é, por si só, uma tomada de posição. Sem contar que a noção de "não defender nada" é incabível, pois sempre vamos defender a nós mesmos e o grupo ao qual pertencemos, consciente ou inconscientemente.

Uma coisa é não defender uma causa. Outra é se posicionar contra ela e querer se justificar dizendo que "não defende nada". Querer invalidar uma causa (a da chamada equivocadamente de "ideologia de gênero") é colocar-se contra ela, abertamente.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Terceiro sexo ou terceiro gênero?

A língua tem desses dilemas que me fazem refletir por horas e horas. Essas reflexões são geralmente provocadas por afirmações assertivas feitas por debatedores apegados em certezas e frases prontas. A última que li foi a de que “não existe terceiro sexo”, baseada na noção de que, na natureza, só há “macho” e “fêmea”.

De fato, há dois paradigmas na natureza como um todo, classificadores da reprodução sexuada, os quais se convencionou chamar de “macho” e “fêmea”. Contudo, o problema da afirmação de não existir um “terceiro sexo” já aparece quando pensamos em plantas hermafroditas – afinal, se elas não podem ser consideradas nem “macho” nem “fêmea”, é preciso que haja um terceiro termo para classifica-las de acordo com sua configuração sexual.

Mas voltemos aos seres humanos. Na concepção do dimorfismo sexual, o que nos permitiria dizer que um indivíduo é “macho” ou “fêmea” concentra-se, sobretudo, em cinco fatores específicos. São a presença ou ausência do cromossomo Y; o tipo de gônadashormônios sexuais; anatomia reprodutiva interna (como o útero nas “fêmeas”); e genitália externa.

[Precisamente aqui está uma questão no que se refere à fala do médico, ao nascimento, de atestar que o bebê é “menino” ou “menina”: raramente usa-se algum outro fator além da genitália externa para tal determinação, sendo os demais ignorados ou apenas levados em conta quando há algo que parece se diferenciar do paradigma.]

Pois bem, quando há cromossomia XX, ovários que produzirão estrógeno e progesterona, útero e uma vagina, diz-se que aquela pessoa é “fêmea”. Quando há cromossomia XY, testículos que produzirão testosterona e secretarão espermatozoides, próstata e um pênis, diz-se que aquela pessoa é “macho”. Esse é o paradigma do dimorfismo sexual.

Mas, como sabemos, há pessoas que nascem sem determinados órgãos internos, ou apresentam cromossomias variantes, ou ainda que nascem com genitálias ambíguas. Ora, se elas se encontram fora do paradigma, é correto chama-las de “macho” ou “fêmea”? Ou é preciso usar um termo diferenciado?


Os casos de pessoas intersexo são especialmente interessantes para se discutir o tema. Portanto, antes de tirar suas conclusões, peço que assista ao vídeo abaixo:


Se dizemos que não existe um "terceiro sexo" estamos eliminando a possibilidade de haver algo além do "macho" e da "fêmea" - sendo que a própria ciência já descobriu haver um continuum entre os extremos "macho" e "fêmea" que não permitem uma identificação plena de certos indivíduos no que diz respeito ao chamado "sexo biológico".

O mesmo pode ser dito em relação à manifestação do gênero. As identidades de gênero não precisam se restringir ao "masculino" e "feminino", pois comportam um espectro muito maior. 

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Sobre o ENEM e as idiotices que as pessoas falam

Doutrina é definida como um conjunto de princípios que servem de base a um sistema, que pode ser literário, filosófico, político e religioso. Doutrina também pode ser uma fonte do direito.  
Doutrina está sempre relacionado à disciplina, a qualquer coisa que seja objeto de ensino, e pode ser propagada de várias maneiras, através de pregações, opinião de pessoas conhecidas, ensinamentos, textos de obras, e até mesmo através da catequese, como uma forma de doutrina da Igreja Católica. (fonte: http://www.significados.com.br/doutrina/)
Uma movimentação bastante curiosa vem acontecendo em torno da prova do ENEM deste ano de 2015: indivíduos doutrinados pela direita acusam o teste de ser uma tentativa de doutrinação pela esquerda.

A razão dessas acusações vem, principalmente, de UMA única questão objetiva e da proposta de redação. Diga-se de passagem, não há nada na questão em específico que incite o apoio ou a crença do aluno que esteja fazendo a prova, como se pode ver:


Trata-se de uma questão modelo de toda e qualquer prova, na qual é retirado um trecho de um livro e solicitado ao aluno que contextualize o texto com um período histórico.

Sobre a obra escolhida é preciso explicar, ainda, que são dois livros relativamente extensos, em que a autora discorre sobre a condição feminina como ela a percebia em sua época. O trecho que começa com a famosa frase “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher” diz respeito a como a criança, nascida “fêmea”, passa por uma série de experiências que vão determinar sua identidade de “mulher”. Isso quer dizer que a “fêmea” não nasce sabendo cuidar da casa, por exemplo, nem criar os filhos, nem sendo submissa ao homem – ela se torna uma pessoa assim.

Convenhamos, não é preciso nem sequer coadunar com o pensamento feminista para compreender o quão lógica e óbvia é essa frase.

O pensamento de Beauvoir inspirou o movimento feminista, e essa é toda a informação que precisaríamos saber para responder à questão. Eu nem mesmo precisaria conhecer Simone de Beauvoir e sua biografia para marcar uma resposta correta.

Em suma, a biografia de Beauvoir não interessa – até mesmo porque o importante, em relação a sua obra, foram as releituras que ela originou, não o que ela, como pessoa, fez em vida.

É a mesma coisa de saber, por exemplo, que as ideias propagadas pela Revolução Francesa influenciaram a Inconfidência Mineira. Ou que a utopia nazista de que seria possível controlar a genética a fim de se produzir seres humanos fisicamente superiores fez com que os médicos do Reich alemão conduzissem uma série de experimentos e estudos científicos, algo que contribuiu imensamente para o avanço da medicina. São fatos historicamente verificáveis que independem das ideologias defendidas por uma pessoa. 

O mesmo acontece no caso da proposta para a redação: colocaram-se, ali, dados específicos. A morte de mulheres provocada por seus companheiros é uma realidade. E antes que perguntem, há, sim, assassinato de homens por suas esposas, bem como abuso físico e psicológico dos parceiros pelas parceiras. Mas não era disso que a proposta da redação falava.

Não é preciso ser feminista para constatar que, em muitas famílias, o senso de dominação do esposo/pai leva à agressão e até ao assassinato da mulher. Não é preciso ser feminista para constatar também que a morte de mulheres provocada dentro de uma situação doméstica é incrivelmente alta, pois existem pesquisas que revelam esses números – essa é uma questão de segurança pública.

O tema para a redação era esperado, aliás, por conta de uma pesquisa realizada pelo DataSenado em agosto deste ano. Estamos cansados de saber que precisamos estar atentos às notícias e acontecimentos pois são as maiores indicações de qual será a proposta da redação. Poderia muito bem ter sido pedido para que o candidato dissertasse sobre o racismo e a xenofobia, em função dos casos de agressão a imigrantes que foram noticiados. 

Em momento algum é pedido que o aluno assuma uma postura política de esquerda ou de direita. Ele deve tão somente dissertar de maneira lógica sobre um dado que lhe foi apresentado.

Aliás, não há justificativa para crer que UMA PROVA é um instrumento de doutrinação, uma vez que nunca houve um indivíduo que mudasse suas crenças sócio-políticas depois de prestar o ENEM. O exagero de quem acusa o exame de tentar doutrinar me parece, antes, uma espécie de delírio coletivo desses que adotaram o que acham ser o "comunismo" como bode expiatório.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A dor e o suicídio das pessoas trans


Pessoas transgênero estão sujeitas à violência desde muito cedo, tendo sua identidade de gênero deslegitimada por um discurso que essencializa a aparência dos genitais, logo no nascimento. Assim, pressupõe-se que nosso gênero deva estar de acordo com o suposto “sexo biológico” – digo suposto pois essa determinação é feita pelo médico baseada somente na existência de pênis ou vagina.

Essa determinação, aparentemente simples, é o primeiro ato de constrição das identidades de gênero, o qual será reforçado por atitudes subsequentes que incluem a adoção de códigos de vestuário e comportamento – o conjunto dos códigos adotados indica a expressão de gênero que se espera do indivíduo com identidade de gênero masculina ou feminina.

Das meninas é esperada uma série de atitudes e preferências que as diferenciem dos meninos e vice-versa. Essas expectativas são plantadas logo que se descobre a gravidez: o feto mais agitado só pode ser um menino; no ultrassom, a imagem de um pênis avantajado é sinal de que ele será um “macho de verdade”.

Desde muito nova a criança cujo comportamento (ou seja, cuja expressão de gênero) não aparenta estar de acordo com o gênero que lhe foi designado é constantemente perseguida, pressionada, forçada a se “normalizar”. Trata-se de uma violência simbólica – não rara acompanhada de violência física – que possivelmente afetará o indivíduo pelo resto de sua vida.

A perseguição, de fato, não é exercida apenas pela família. Ela vem de frentes diversas, que incluem os amigos, a escola (logo no jardim de infância), a igreja, os vizinhos e vão continuar no trabalho, na faculdade, nas instituições de saúde, na política e assim por diante.

Essa pressão intensa pela adequação, somada aos discursos de exclusão e de negação da legitimidade da condição transgênero leva essas pessoas a internalizarem a discriminação. Elas passam a desprezar-se como a sociedade as despreza, a sentir vergonha de si mesmas e “dos problemas que causam” (por resistirem à adequação) – afinal, a culpa não é, nunca, da sociedade, mas dos “anormais”.

Dessa forma, o suicídio acaba sendo encarado, pelas pessoas trans, como uma saída de um mundo em que elas não se encaixam, numa sociedade que é incapaz de aceita-las como elas são.
Quando se matou, em dezembro de 2014, Leelah Alcorn, de 17 anos, deixou uma mensagem em seu Tumblr, dizendo: “A vida que eu teria vivido não valia a pena ser vivida... porque eu sou transgênero”.

Esse sentimento traz alguma compreensão às estatísticas de pesquisa publicada em janeiro de 2014 pelo Instituto Williams de Los Angeles, que revela que 41% das pessoas trans entrevistadas já tentou cometer suicídio em algum ponto da vida – em comparação a 20% de gays, lésbicas e bissexuais e 4,6% da população geral. Em outra pesquisa, feita em Ontário, no Canadá, 35% das pessoas trans entrevistadas relataram ter pensado em suicídio em 2014 e 11% chegou a tentar se matar.  

No Brasil ainda não há uma pesquisa formal realizada entre pessoas transgênero, mas, infelizmente, suponho que os números apresentem uma mesma realidade. Entre jovens LGBTTA+, o desejo de se matar não parece ser um relato pouco frequente – na verdade, o que impede de haver mais pesquisas sobre o tema é sua condição de tabu.

Pouco tempo depois da morte de Leelah, em fevereiro de 2015, Ash Haffner, um garoto trans de 16 anos, também cometeu suicídio jogando-se na frente de um veículo – a mesma maneira como Leelah tirou sua vida.

As reportagens sobre Leelah e Ash chamam a atenção por conta das declarações dos pais de ambos os jovens. Claramente, os pais de Leelah não aceitavam sua transgeneridade, algo que ela mencionou em seu bilhete de suicídio e que foi reforçado pelas declarações dadas por sua mãe à CNNtratando-a como “seu filho” e afirmando que não apoiavam sua decisão, “religiosamente”.

A mãe de Ash, por sua vez, insiste em trata-lo no feminino em declarações à TV, dizendo que o bullying foi a causa do suicídio “de sua filha”.  

Neste outubro de 2015, Ashley Hallstrom, de 26 anos, também se jogou na frente de um caminhão em uma estrada movimentada. De acordo com a página Planet Transgender, ela é a 20ª pessoa trans nos Estados Unidos a cometer suicídio em 2015.

Em sua nota de suicídio no Facebook, Ashley conta que desde cedo aprendeu que “pessoas como ela eram aberrações e abominações”, o que fez com que ela odiasse quem ela era. Apesar dos anos de sofrimento e depressão, Ashley manteve o desejo de ajudar outras pessoas trans ao deixar sua carta, que pede para que as pessoas compartilhem o máximo possível.


Como Leelah, Ashley alerta para como a sociedade precisa mudar para ser capaz de aceitar, receber e ajudar as pessoas trans. 

O estudo canadense publicado em junho de 2015 (sobre o qual falei anteriormente), realizado entre habitantes da cidade de Ontário, é um dos primeiros a considerar fatores que podem intervir nos riscos de suicídio das pessoas transgênero e as conclusões são bem claras: apoio social, redução da transfobia e o acesso a documentos retificados de acordo com a identidade de gênero são fatores associados a grande redução relativa ou até absoluta dos riscos de suicídio, bem como o acesso à terapia hormonal e às cirurgias que a pessoa julgar necessárias. Além do mais, o apoio dos pais foi bastante associado à redução do pensamento de suicídio entre as pessoas, juntamente com a auto-aceitação.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Ainda sobre argumentação: você realmente entende de feminismo?


Não é novidade que muitas pessoas se confundem quanto ao que seja o feminismo. A luta para que as mulheres adquiram status de igualdade em uma sociedade historicamente dominada pelo masculino implica no reconhecimento de que o machismo, além de oprimir as mulheres, exerce pressões sobre os homens com base nas imposições de papéis sociais. Sendo assim, não ignoramos o fato de que aos homens é delegada a obrigação de sustentar suas famílias, de ser viril, corajoso, física e emocionalmente forte, entre outras coisas. No entanto, como mulheres, colocamos, de fato, nossas necessidades em primeiro plano por uma questão óbvia de prioridade.

Por vezes, discordo de algumas atitudes de determinadas militantes feministas no que diz respeito ao tratamento do homem, pois acredito que também entre nós há as que acreditam que o feminismo seja o oposto ao machismo - sendo assim, acreditam que a mulher deve fazer com o homem o mesmo que o homem faria com a mulher. O homem não deve ser o protagonista da luta feminista, e não devemos permitir que ele tire proveito de nosso protagonismo. Mas isso não significa que eles não possam se tornar nossos aliados.

Ademais, é preciso afirmar que não existe apenas um feminismo, mas feminismos, uma série deles, cada um com suas prioridades e linhas de pensamento voltadas para certos recortes e abordagens da causa feminina.


Quando algum homem usa das "justificativas" abaixo para não apoiar o feminismo, contudo, eu não posso deixar de pensar em como as concepções equivocadas se espalham mais facilmente que o debate sensato e que, principalmente hoje em dia, a preguiça de pensar acaba sendo mais efetiva que o raciocínio lógico. Ainda assim, decidi tirar um tempo para responder a esses "argumentos" que mais parecem piadas prontas...

1) Por que as mulheres se aposentam antes dos homens?
Argumento piada: Isso já é um direito a mais, sem contar a licença maternidade.

O número de mulheres que, ao saírem do trabalho, ainda têm de enfrentar uma segunda jornada em casa fazendo a limpeza, cozinhando e cuidando dos filhos é absurdamente maior que o de homens que fazem isso. É tão maior que até hoje homens que vivem com os filhos, como pais solteiros, que cuidam da casa, chegam a receber aplausos.

Primeiramente, hoje em dia há empresas que permitem até uma licença-paternidade de alguns dias, o que já é um interessante reconhecimento de que a chegada de um filho também afeta ao pai psicologicamente (e, vá lá, às vezes fisicamente também). Contudo, nunca se esqueça da cultura, segundo a qual a mãe deve ter obrigatoriamente um instinto materno e uma necessidade de cuidar dos filhos, além de prever a condenação daquela que sofre de depressão pós-parto – ora, um momento tão feliz e mágico, não tem motivos para depressão! Acho desnecessário lembrar do impacto físico e hormonal no corpo da mulher.

Outra questão está no fato de que a cultura de a mulher ter o dever de cuidar da casa e dos filhos continua a ser perpetuada. Não basta "dialogar com o marido" ou "pedir ajuda a ele nos serviços da casa", pois, para grande parte das mulheres, não é nem mesmo possível ter esse tipo de diálogo - muitas são ensinadas a servir o homem desde cedo.

(Se você acha que o direito de aposentadoria um pouco mais cedo e a licença maternidade são “privilégios”, sugiro que você olhe no dicionário o significado da palavra. Melhor, vai aqui a definição: “Vantagem (ou direito) atribuída a uma pessoa e/ou grupo de pessoas em detrimento dos demais”. Esses direitos são atribuídos em detrimento de quem?)

2) Por que o homem pode andar sem camisa e a mulher não?
Argumento piada: Pelo mesmo motivo que a mulher tocar no peito do homem é normal e o homem tocar no peito da mulher é assédio.

E sabe qual o motivo de o homem tocar no peito da mulher ser considerado um assédio? O machismo, que coloca o homem como sujeito a seus instintos sexuais a ponto de se excitar ao ver ou tocar o peito da mulher. A cultura incentiva que os homens vejam os seios como fonte de excitação, tanto é que, no ato sexual, uma das ações frequentes do homem é a de apertar os seios da mulher – mesmo que isso não a excite.

3) Por que as feministas não lutam pelo fim do serviço militar obrigatório?
Argumento piada: Elas não querem, realmente, a igualdade de gêneros, apenas o que é conveniente para elas.

O nome “feminismo” implica o gênero feminino como protagonista. Não significa colocar o gênero feminino acima do masculino, significa apenas FOCAR nas lutas enfrentadas pelas mulheres. Não significa, também, que um homem não possa ser feminista, mas que ele não tem o direito de ser o protagonista nesse caso.

Se os homens decidirem lutar pelo fim do serviço militar obrigatório, é certo que serão apoiados por algumas correntes feministas. Mas são os homens que devem ser os protagonistas dessa luta.
(Se você usa esse argumento para rebaixar o feminismo, mas é a favor de uma intervenção militar no Brasil, você tem um problema sério de dissonância cognitiva.)

4) Por que as feministas tratam todos os homens como estupradores em potencial?
Argumento piada: Nem todo homem é assim. Eu, por exemplo, sou diferente.

Sim, sabemos que nem todo homem é um estuprador e, de fato, estatisticamente, estupradores nem formam a maioria da população masculina. Não é o feminismo que prega que todos os homens são perigosos; há, contudo, uma reação para uma construção do machismo.

É o machismo que impõe ao homem o sentimento de uma necessidade de ser viril e predatório (leia-se, “pegador”).  Esse mesmo machismo justifica a libido e a agressividade masculinas como se elas fossem incontroláveis, ou seja, como se o homem fosse incapaz de controlar seus instintos.

A mulher que se incomoda com as cantadas na rua o faz, não porque não sabe receber elogios, mas porque está inserida em uma cultura na qual o homem é visto como escravo dos próprios instintos sexuais enquanto a mulher deveria estar prontamente disposta a atender seus desejos – ou seja, se ele a aborda na rua, é porque tem objetivos definidos que estão além do simples elogio; ele o faz para se provar como “macho”, para tentar “levar mais uma para a cama”. Estamos inseridos numa mesma cultura. Você pode até ser diferente, mas se você passa uma cantada para uma mulher na rua, você se sujeita a ser julgado, pela mulher, a partir da sua atitude.

Se uma mulher se depara com você, homem que ela não conhece, em uma rua deserta, à noite, ela não vai esperar você se aproximar dela para dizer que você é diferente. Espero que você compreenda isso.

Outras observações importantes:
Há, sim, objetificação do homem pela mulher. No entanto, ela acontece em uma escala bem menor. A meu ver, é exatamente a cultura de objetificação da mulher que abre espaço para que o homem também seja objetificado.

Existem homens em situação de vítimas da violência doméstica também. Mas, segundo as regras do machismo, esse homem só é vítima porque não é “macho o suficiente”. E isso faz com que o homem nessa situação sinta vergonha de procurar ajuda.

Existem homens que são estuprados. Novamente, a vergonha faz com que não procurem ajuda. Essas situações não são provocadas pelo feminismo, mas há pessoas que acreditam que o movimento deva lutar contra elas... Ora, então a luta contra o machismo não seria uma luta contra essas questões também?

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Para quem ainda discorda do que eu disse aqui, sugiro a leitura de DADOS CONCRETOS que ilustram como ainda existe a desigualdade de gêneros e como certas construções machistas vêm prejudicando as mulheres ao longo da história:


domingo, 30 de agosto de 2015

De argumentações (ou "Só porque é sua opinião não significa que eu não possa contesta-la")


O poderoso escudo da opinião vem sendo evocado ferozmente nas discussões pela internet afora. Com ares de cartada final, sem precisar levar a cabo qualquer argumento, a derradeira fala –  “É minha opinião!” – surge como encerramento, com sua ilusão de que, ali, foi dado um verdadeiro xeque-mate. Se é a minha opinião, você não tem o direito de contestá-la.

Mas há um problema e, eu diria, até certa ingenuidade por parte de quem lança essa cartada. Afinal, a verdadeira opinião diz respeito ao gosto pessoal, a algo que não pode ser verificado factualmente por ser, bem, opinião. Quando a pessoa faz uma afirmação errada e prontamente a classifica como opinião, o que ela está fazendo é tirar uma conclusão com base em informações limitadas e/ou inverídicas. Em outras palavras: o fato de você achar que é sua opinião não a isenta de estar absolutamente errada no sentido mais primário do termo. E aí, se você se apega a isso como opinião, não significa também que eu deva respeita-lo por isso, nem que eu deva deixar de contestar suas ideias – principalmente se sua própria opinião for desrespeitosa (e, pior ainda, se você repetir o clichê de “respeitar para ser respeitado").

Por exemplo: eu posso defender a abolição de rótulos porque não gosto do uso deles e, portanto, prefiro não usa-los. É minha opinião. Porém, quando eu digo que rótulos não importam, eu estou afirmando um equívoco, uma vez que é verificável o fato de que rótulos não só importam como definem, em nossa sociedade, inclusões e exclusões diversas.

Se eu acredito, equivocadamente, que rótulos não importam – apesar de todas as provas que vão de encontro a essa crença –, eu estaria, além do mais, traindo minha própria fala a partir do momento que eu decidir usar um rótulo. Ora, se o rótulo não importa, então por que eu iria usá-lo? É ainda pior quando, além dessa opinião mal informada, eu opto pelo uso de um rótulo de uma forma que ignora seu conceito e suas implicações sociais.

Um exemplo prático acontece quando eu coloco drag queens e travestis dentro do rótulo de “transexuais”. O fato de eu defender a abolição de rótulos ou de não gostar deles não significa que essa colocação não possa estar errada, além de expor uma clara falta de informação. 

Para quem acompanha a questão LGBT em suas múltiplas faces, estamos testemunhando um embate ferrenho entre ativistas transgênero e drag queens, desde 2013, pela forma como o senso comum vem associando essas categorias de forma negativa e generalizada. Esse tipo de situação é ainda pior quando o erro é cometido por alguém do meio LGBT, como uma pessoa homossexual que se supõe ativista, pois revela, ainda, uma negligência no que diz respeito ao tratamento do assunto.

Se um indivíduo heterossexual defende o uso errado da terminologia, sua conclusão está embasada no erro anterior, propagado pelo indivíduo que deveria ter conhecimento das questões LGBT, mas que, convenientemente, prefere não lhes dar a devida atenção.

Mantendo-me na linha de pensamento da rotulação, acredito que, por mais que ela trabalhe a favor de uma segregação, não se pode negar que, politicamente, há uma necessidade de se definir quem se é. Em outras palavras, para que exponhamos nossas demandas, precisamos, antes, definir quem somos e nossas motivações. Nesse sentido, a separação entre sexualidade e identidade de gênero é feita porque as demandas de homossexuais e bissexuais não são as mesmas de transgêneros, transexuais e travestis. 

A percepção de uma pessoa que se identifica como homossexual certamente não é a mesma de alguém que se identifica como trans, apesar de ambas as identidades se depararem, em suas vidas, com pressões sociais diversas.

Portanto, se eu uso minha visão de homossexual para dizer a uma pessoa trans como eu acho que ela deve se sentir eu estou, novamente, utilizando-me de uma concepção limitada e equivocada para expor uma suposta opinião.


Como Jef Rouner, eu também passo mais tempo discutindo nas redes sociais do que poderia ser saudável mental e fisicamente para mim. Com frequência, o tempo da minha vida que perco em discussões que vão para um caminho literalmente estúpido poderia muito bem ser gasto com textos como este, em que tenho tempo para embasar meu ponto de vista sem ter de me preocupar com uma resposta imediata. 

Obviamente, quando meu ego é ferido a nível pessoal, eu simplesmente me esqueço de minhas motivações e da minha capacidade de ser melhor debatedora, independentemente da minha formação.


Cometo o erro de expor essa formação como validação do meu argumento quando sinto que a cartada da opinião é lançada juntamente a uma tentativa de diminuição do conhecimento ou da personalidade da pessoa. 

Normalmente, não gosto de falar em narrativas pessoais (erro que já cometi demais no passado) nem em posições individuais que não tenham relação com o tema discutido. Ao mesmo tempo, não consigo deixar passar o fato de que, enquanto uns se esforçam continuamente para adquirir conhecimento da maneira como podem, há os que preferem insultar o outro, prontamente, e, não raro, mandar a pessoa “ir estudar” sem que, antes, tenham eles mesmos estudado.

sábado, 29 de agosto de 2015

Todas as trans finíssimas: meme ou problema social?


Na internet tudo acontece de uma hora para outra e, do nada, uma nova frase ou expressão de repente é usada por todos - mesmo os que não sabem de sua origem.
Depois do "eu quero é close", "5 minutos de beleza" etc., a expressão do momento é "todas as trans finíssimas fumando maconha", título de um vídeo que parece ter sido gravado pela mesma pessoa, ao que tudo indica, uma travesti ou mulher trans que decidiu gravar as amigas na noite.

Para mim, a graça do vídeo está no bom humor com que as próprias mulheres se mostram, mesmo em uma situação que retrata a marginalização trans: aquelas pessoas estão ali se prostituindo.

No Brasil, a maioria das travestis e mulheres trans não encontram outra saída diante da exclusão a não ser ir para as ruas se prostituir, uma vez que não têm nem mesmo suas identidades sociais respeitadas e se veem juridicamente impedidas de ter carteira assinada ou serviço médico decente simplesmente porque seus corpos não estão em conformidade com seus documentos - e, para mudar os documentos, um processo longo e ardiloso, é preciso, antes mudar o corpo e apresentar laudos médicos...

As travestis que são, com frequência, rejeitadas pela família e pela comunidade em que vivem, expulsas de casa e completamente minadas de seu direito à cidadania chegam a tomar atitudes extremas para moldar o próprio corpo, aplicando silicone industrial, fazendo cirurgia em clínicas clandestinas....

Quando homossexuais reproduzem essa fala das "trans finíssimas" eles contribuem ainda mais para uma invisibilização da mulher trans, uma vez que se apropriam da voz dessas pessoas marginalizadas apenas para fazer piada. Nesse sentido, a real situação apresentada pelo vídeo ganha ares de mera brincadeira, e deixa de ser reconhecida como resultado de um problema social.

Uma confusão frequente entre o senso comum é a noção de que drag queens - homens, em sua maioria gays, que se vestem de mulheres - são mulheres trans. Contudo, a prática drag é voltada para o entretenimento, e sua crítica aos papéis de gênero está calcada na imitação de um ideal de feminilidade que é, por si só, artificial. Pode ser que uma mulher trans tenha se tornado drag queen para experimentar com o feminino antes de se definir como trans, e que encontre na prática uma arte libertadora.

No entanto, em termos gerais, o homem que se veste de mulher para fins artísticos não passa pela mesma experiência que a mulher que, tendo sido designada como homem desde seu nascimento, toma a decisão de modificar seu corpo para expressar sua identidade feminina em todos os momentos de sua vida.

Se, por um lado, é triste notar que algumas drags chegam a reproduzir discursos transfóbicos, por outro seria importante que pudesse haver um esforço conjunto para maior conscientização. A sigla do movimento deixou, há muito, de ser a excludente "GLS" para tentar abarcar um número maior de pessoas marginalizadas por conta de sua sexualidade e/ou expressão de gênero... Mas, infelizmente, a adoção de uma nomenclatura como "LGBT" não significa a automática mudança de atitudes.

A letra "T", na sigla, representa pessoas trans, incluindo, aí, travestis e transexuais, entre outras tantas expressões de gênero. São essas as "trans finíssimas" com as quais temos que nos unir e sobre as quais devemos falar, devemos abrir caminho para as vozes "T" - e não achar que a eliminação de rótulos vai simplesmente promover uma união que, na verdade, seria apenas de fachada.


Aproveitando o tema, segue também uma fala importantíssima da trans ativista Daniela Andrade que expõe a problemática das apropriações de imagens de trans e travestis apenas como memes:

Quando é para fazer milhares de memes da Vanessão, fazer remix da travesti semi analfabeta na delegacia, transformar em hino o bordão "se isso é estar na pior, o que é estar bem né?", amar as mulheres trans e travestis fumando maconha e dizendo pra todas que são trans finíssimas, aí o povo lembra exaustivamente de travesti e transexual, inclusive os gays.
Mas quando a gente vai falar de políticas públicas para travestis e transexuais, de gente morrendo numa fila do SUS à espera de uma cirurgia, de gente tentando o suicídio sem que os governos dos estados e o governo federal se lembrem que essa população precisa de hormônios, de cirurgia de remoção de silicone industrial, de próteses, de gente obrigada a se prostituir, de gente que foi expulsa da escola ainda no fundamental dado todo o preconceito que precisou enfrentar, que foi expulsa de casa, de quem se cirurgiou e não existe ginecologista ou urologista que as atendam, do judiciário exigindo que nos cirurgiemos para mudar nossos documentos. 
Nesse momento deixa de ser interessante falar de travesti e transexual, e passamos a escutar o cantar dos grilos como resposta à pergunta: o que vocês vão fazer para melhorar esse quadro?
Fora lembrar da gente sempre como palhaças, o que mais?

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Sobre Reinaldo Azevedo e Laerte

Mais uma vez, Reinaldo Azevedo prova que não entendeu nada.
Usando de uma “argumentação” recheada de insultos e ofensas pessoais, ele demonstra não estar disposto a diálogo algum, uma vez que qualquer ideia que discorde da sua é “estupidez”.
Em sua coluna, no dia 24 de agosto, começou a série de insultos disfarçadas de argumentação com uma charge de Laerte. 


Nela, a cartunista sugere como a recente manifestação pedindo o impeachment de Dilma estava permeada por hipocrisias e falsas simetrias, na imagem de “cidadãos de bem” que, entre selfies com a Polícia Militar e discursos esdrúxulos, não raro pediam uma intervenção militar para “salvar o país”.

Um panorama interessante dos protestos poder ser visto no vídeo abaixo:


Por alguma ironia do destino, membros dessa mesma PM são suspeitos de ter cometido uma chacina em Osasco – e, creem alguns, fazerem parte de mais um grupo de extermínio (sabemos, não é o primeiro na história da PM). E o que está na tirinha é justamente a representação dessa ironia.

Diga-se de passagem, a ação da PM em Minas Gerais, em protesto deflagrado apenas alguns dias antes das manifestações contra o governo, foi bastante diferente: uma amostra de como a polícia trata cidadãos de categorias “inferiores”.

Ademais, interpreto a charge de Laerte como uma analogia ao trabalho da Polícia Militar como instituição violenta e nada humanizada, cujo histórico de atuação incita mais medo que sensação de segurança na população, principalmente em se tratando do cidadão negro e morador de periferia. Para quem se interessa por conhecer o que está por trás da ação dessa instituição tão estimada por Azevedo, sugiro a leitura de uma recente entrevista concedida por um ex-policial militar condenado por crimes que cometeu, em parceria com colegas de trabalho, enquanto integrava a PM.


Reinaldo Azevedo discorda desse ponto de vista que partilho com Laerte, mas para demonstrar o quão contrário é a essa perspectiva, chama a cartunista de “baranga”, “horrenda”, “detestável”, “farsante”, entre outras coisas.

Traz para a discussão, ainda, a expressão de gênero de Laerte, relacionando-a com sua visão política.
Quando, em 2012, a presença de Laerte no banheiro feminino de um estabelecimento incomodou uma mulher, a velha problemática da não diferenciação entre gênero e sexualidade e o determinismo biológico, como sempre, foram usadas como justificativas para mostrar o “erro” da cartunista.

Nesse caso, Laerte questionou: “Como é que elas se sentiriam com uma lésbica dentro do banheiro?”. Ora, a pertinência dessa pergunta vem do fato de que sua expressão feminina não dita sua sexualidade e que a preocupação com a presença de “mulheres não biológicas” no banheiro é normalmente motivada por associações com a sexualidade. 

Quando a pessoa acha errado que “um homem vestido de mulher” frequente o banheiro feminino seu medo é fundado na possibilidade desse “homem” tirar proveito das mulheres que estão no recinto. No entanto, uma lésbica também teria a oportunidade de tirar proveito da situação, tal como “um homem vestido de mulher” que sente atração por mulheres.

O que Reinaldo falha em perceber é que o reconhecimento da identidade de gênero vem da necessidade de aceitação social das pessoas trans, uma vez que a presença de um indivíduo transgênero tanto no banheiro masculino como no feminino causaria desconforto e polêmica. O mínimo que se pode fazer a esse respeito é reconhecer que a pessoa transgênero tem o direito de usar o banheiro de acordo com sua expressão de gênero. 

Se Reinaldo diz, ironizando, que para Laerte, o fato de “querer” alguma coisa transforma isso num direito, o contrário também pode ser dito: o fato de Reinaldo “não querer” alguma coisa parece transformar isso, para ele, numa falta de direito do outro.

Independente da crença de Reinaldo no determinismo biológico que se utiliza unicamente dos genitais para identificar o gênero de uma pessoa, não podemos nos esquecer de que a transgeneridade existe e que sua crescente visibilidade demonstra a necessidade de reconhecimento e validação social – e para os mais apegados à biologia, há uma série de estudos que comprovam, biologicamente, a condição dessas pessoas.

Do alto de sua adequação à heteronormatividade conservadora, Reinaldo comete as mesmas generalizações que criticou Laerte por cometer – com a grande diferença de que essa generalização, usada para efeitos humorísticos, leva à reflexão e não se gaba de ser detentora da verdade. Fosse uma generalização feita em charge para criticar pessoas com tendências esquerdistas que apoiam Dilma, certamente Reinaldo aplaudiria.

Sabiamente, Laerte usou do humor como resposta às provocações do colunista conservador e obteve uma réplica um tanto quanto “sem graça” – afinal, Reinaldo é desses que faz questão de dar a última palavra, nem que seja para pedir o fim do debate.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Direitos humanos são só para humanos direitos?

(tirinha de André Dahmer)

Moro num país tropical, ungido pelo Senhor, bonito por natureza, mas poluído e desmatado, enfrentando plena crise hídrica. Em fevereiro, o carnaval vem com mais casos de abuso sexual, muitos não relatados. Vivo num país em que não confiamos nos governantes e temos medo da polícia.

Não temos quem nos proteja da violência. Desconfiamos da honestidade. Não entendemos de economia, nem de política. Nossa ignorância, muitas vezes, é voluntária – ou paga. Só enxergamos a corrupção e o erro do outro. Aqui ganha quem grita mais. Mas ainda temos heróis, na TV.
A palavra de ordem é “intolerância”. Não se tolera o diferente porque é ele o culpado de todos os problemas. É ele que incomoda, a minoria.

Ainda não chegamos a um acordo sobre o que seria a liberdade de expressão. Apenas sabemos que é seguro vestir a máscara da opinião, ainda que ela represente uma violação dos direitos do outro.

Na madrugada de 20 de junho de 2015, Laura Vermont, de 18 anos, foi agredida por cinco homens. Estava a pé, depois de ter sido colocada para fora de um carro – segundo relatos, ela e outra amiga haviam brigado com o casal que estava no carro e Laura puxou um estilete. Podemos dizer, sim, que Laura não era inocente. Deve ter perdido sua inocência muito cedo, essa é a verdade.

O que aconteceu na Avenida Nordestina, zona leste de São Paulo, não teve relação com a briga no carro. Não sabemos se foi Laura quem primeiro deu atenção aos sujeitos que a espancaram. Ou se apenas respondeu a provocações.

Como a maior parte das travestis, Laura se prostituía. Era mais uma que a sociedade deixara sem saída, sem escolhas. Aprendeu a sobreviver e a se defender como podia. Afinal, soube desde cedo que não teria seus direitos garantidos pelo Estado, e que não teria a proteção policial nem a segurança a qual sujeitos têm direito. Ela não era sujeito, era abjeto, habitava uma zona de exclusão que a sociedade se recusa a legitimar e a abrigar.

Não à toa, Laura foi assassinada por Policiais Militares. Estes podem exercer a violência de forma legalizada e têm o aplauso de uma multidão toda vez que rasgam as páginas da Constituição Federal em que é assegurado o direito à vida; são congratulados sempre que ignoram a existência de uma Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A ação tão exemplar e eficiente da PM, inclusive, inspira as pessoas de bem, corretas, a agirem para ajudar no combate ao crime. Agora, deixam marginais amarrados a postes como uma forma de ajudar à justiça. Aliás, não somente ajudam, como também substituem o papel do judiciário; julgam por si mesmos. Pisam em Mateus 7:1, mas por uma boa causa.



A parcialidade do povo se revela justamente na ideia propagada de que apenas os “cidadãos de bem” têm direito à dignidade. Prezam pelo seu interesse sem querer admitir seus privilégios. O cidadão de bem não quer ouvir argumentos, não precisa deles, pois tem suas frases prontas, cunhadas para a repetição; é assim que ganha discussões no grito. Para o cidadão de bem, "bandido bom é bandido morto", porque faltaram "umas boas porradas quando era moleque" e agora que virou ladrão, não tem mais o que fazer. Para o cidadão de bem, "todo traveco só quer caçar confusão", porque "se tivesse apanhado quando era criança não tinha virado viadinho". 

O cidadão de bem está sempre alerta. Está sempre querendo reparar problemas na sociedade. Ele está disposto a usar força necessária para tal. Ele bate em panela e em professor com a mesma intensidade. Ele enxerga na força policial a salvação da família tradicional. E no deputado/pastor a sustentação de seus interesses. E os políticos/pastores já ocupam alguns cargos no executivo também, quem sabe um dia chegam a presidência. O cidadão de bem bate palma pra terceirização. E para o confisco da previdência.
Entre os ídolos do cidadão de bem está Jair Bolsonaro, defensor de que gays demonstrando afeto publicamente sejam espancados, praticante de nepotismo de longa data, acusado nos idos de 1987 de planejar explodir várias bombas na Vila Militar de Agulhas Negras.


 Nessas circunstâncias, eu tiro apenas uma conclusão: ainda bem que não estou do lado do bem.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O que mais te choca de verdade? (ou "A crucificação não é apenas encenada")

Desta vez não se tratou de uma encenação. Viviany Beleboni foi agredida ao ser reconhecida na rua por um sujeito que, segundo ela relatou em vídeo, disse que ela não era Deus e tentou esfaqueá-la.

O fanatismo demonstrado por muitos, desde que a transexual apareceu crucificada em um carro na Parada do Orgulho LGBT de São Paulo em junho deste ano, é preocupante porque demonstra uma falta de senso crítico atrelada a uma idolatria cega à religião. Foi esse mesmo fanatismo que levou à agressão de um grupo de candomblecistas, em que Kailane Santos, de apenas 11 anos de idade, foi atingida na cabeça por uma pedra jogada pelos intolerantes.

Ávidos em criticar a heresia alheia, indivíduos que cometem tais atos parecem não ter noção de que estão, eles mesmos, indo de encontro aos ensinamentos bíblicos que dizem seguir com tanta devoção (já falei sobre o oportunismo e moralismo desses líderes religiosos e seus seguidores aqui e aqui também).



Sua religião, em vez de torna-los pessoas compreensivas, que pregam o amor e são empáticas ao sofrimento das minorias, os leva a crer que o “outro” – aquele de quem deveriam ter piedade e com o qual deveriam ser, no mínimo, tolerantes – deve ser prontamente eliminado. Trata-se da aceitação de um autoritarismo que usa a religião como justificativa para o cumprimento de seus interesses.

Enquanto os que creem nos ensinamentos de seus respectivos chefes religiosos se esforçam para cumprir cada uma de suas ordens, os sujeitos excluídos sentem o medo constante de serem perseguidos como resultado desse cumprimento. Em um estado cego ou de transe para com a “arrebatação” que é pregada nesses templos – cuidadosamente ambientados para que cada sujeito ali presente seja contagiado com o “poder da glória” em toda parte de seu corpo – o público não é capaz de perceber que seus gritos e clamores satisfazem o desejo de uma pessoa – do pastor, do pregador – e não do Senhor que tem seu nome apropriado.

Com essa perseguição do diferente, do “inimigo”, do bode expiatório que dessa vez assumiu a forma de Viviany Beleboni encenando a crucificação, fieis acreditam estar sendo bons seguidores, bons soldados.

Como se não bastasse, o medo de Viviany soma-se à descrença em uma polícia que nada fará para a proteger. Pelo contrário, a tratarão como culpada por seu ataque, como provocadora da ira de intolerantes, sendo a própria instituição policial incapaz de respeitar uma pessoa que não está de acordo com a matriz de inteligibilidade em que vivem.
A fala de Beleboni evidencia esse despreparo policial ao qual temos de nos sujeitar e a frustração de não poder ter esperança alguma de que a justiça seja feita: “Vai à delegacia? Para quê? Para me tratarem que nem um homem lá? Para rirem da tua cara e não dar em porra nenhuma?”

Enquanto às pessoas trans são negados os direitos mais básicos, aos conservadores a satisfação parece vir na forma de um congresso recheado pelos religiosos fundamentalistas que querem fazer de sua religião uma fundamentação para governar, passando por cima do princípio da laicidade do Estado e colocando sua fé evangélica acima de todas as outras. E, vale a pena repetir, o que usam de fundamento são suas próprias convicções e interesses mascarados de preceitos bíblicos, não os ensinamentos de Deus.

Do lado daqueles que se recusam a dialogar e a tentar compreender o que levou Viviany a se expor, crucificada, o ódio permanece o mesmo. Ao que parece, não interessa que ela tenha realizado essa performance para chamar a atenção para um sério problema do país que é a extrema violência a que pessoas LGBT, principalmente travestis, enfrentam diariamente; interessa que Jesus não pode ser representado por uma mulher trans em uma Parada do Orgulho LGBT, pois se trata de um exagero, de uma heresia, de uma provocação. Mas quando religiosos usam a imagem de Jesus por motivos mercadológicos, tudo bem. E quando usam o nome de Deus para esfaquear outro ser humano, tornam-se até heróis.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Pequenos detalhes que importam muito

(ilustração: Daniel Bueno, junho de 2013, para a Folha de S. Paulo)

Antes de expor minha crítica, gostaria de parabenizar a atitude da mãe Mariana Munhão e sua coragem ao dar um depoimento sobre a história do filho.

A pessoa que se assume trans passa por sofrimentos e conflitos imensuráveis, e o apoio da família e dos amigos é crucial para que se sintam bem no próprio corpo - um corpo que, de certa forma, os engana desde o nascimento. Somente o sujeito trans conhece e experiencia a própria dor. Mas quem o acompanha de perto, o ama e se preocupa com ele, também passa por seus dilemas, principalmente quando são indivíduos muito próximos, como os pais e os irmãos.

Às vezes, por mais que nos esforcemos para demonstrar apoio, compreensão e uma mente aberta, escorregamos em palavras e expressões que reforçam nosso apego ao chamado determinismo biológico - a crença de que a aparência de seus genitais e seu provável fenótipo é o que determina seu "sexo".

O relato de Mariana Munhão é profundo e serve como um ensinamento a muitos pais. Contudo, não posso deixar de expressar meu incômodo com a "frase de impacto" escolhida pela jornalista Gabriela Varella, que tomou o depoimento, para usar como chamada ao texto.

Da perspectiva de uma mãe, que viu o filho nascer com aspectos que fizeram com que ele fosse interpelado como "filha", é de se compreender que a sensação é a de uma garota que "virou" garoto - afinal, se desde o nascimento até a descoberta da transgeneridade Luan foi designado como menina, tem-se mesmo a impressão de uma pessoa se tornar outra, ao menos fisicamente.

Porém, quando a imprensa dá destaque a essa frase, "Não é fácil acordar e saber que sua filha virou filho", ela promove o reforço de uma ideia equivocada, que vem sendo propagada há muito e que é, em partes, responsável pela maneira discriminatória com que a sociedade enxerga as pessoas trans.
Ora, a filha não virou filho; "ela" sempre foi filho, "ela" se sentiu filho desde que pôde compreender sua identidade e compará-la com a de outras pessoas.

A pressão da família é a primeira de muitas enfrentadas pela pessoa trans. A pressão da escola, que evita tratar de questões de gênero e sexualidade - e agora ainda tem proteção de vereadores para que esses assuntos não sejam abordados -, vem em seguida e é quando o indivíduo pode realmente entender o que lhe espera na sociedade.

A criança cis - aquela que não questiona o gênero que lhe foi designado ao nascer - se certifica de sua identidade de gênero muito cedo e tem o aval dos pais para expressar como se sente, de acordo com essa identidade, pois está dentro das nossas expectativas sociais e culturais. A criança trans, por sua vez, é desencorajada pelo mesmo sistema, que a avalia como confusa - ou até como alguém com tendências homossexuais - e como incapaz de saber qual sua identidade de gênero tão cedo (veja bem, ninguém faz o mesmo questionamento a uma criança cis, aplaudida por reafirmar sua identidade diariamente).

Um estudo publicado em janeiro de 2015 mostrou que crianças trans demonstram suas identidades de gênero com a mesma consistência que crianças trans. Isso indica que, da mesma forma que a criança cis sabe qual é sua identidade de gênero, a criança trans também sabe de sua identidade "desviante", e elas são capazes de ter essa certeza desde os 5 anos de idade.

Ou seja, a criança trans não quer "virar" alguém do outro gênero, ela já se sente como alguém do outro gênero, mas precisa mostrar ao mundo esse sentimento e depende de outras pessoas - principalmente seus pais - para que ele seja validado. É a partir daí que entram as expressões de gênero associadas ao que é normalmente considerado masculino ou feminino. Para demonstrar sua transgeneridade, a criança passará a agir como as outras pessoas do gênero com o qual se identifica.

O problema do discurso que afirma que "é muito cedo para saber" tem a ver com uma ignorância voluntária por parte das pessoas, que usam essa justificativa somente quando o comportamento da criança não é o que se esperava. Afinal, para o garotão que nasceu com "o saco roxo" e adora ir para o colo de mulheres, nunca vai ser "muito cedo para saber" que ele é um macho heterossexual!

terça-feira, 4 de agosto de 2015

De jornalismos, escritores e ideais


Durante os anos em que cursei Letras, cheguei a ouvir mais de uma vez a lenda de que “todo aluno de Letras é um jornalista frustrado”. Muita gente pensa assim porque há, realmente, um número grande de pessoas no curso de Letras que prestaram vestibular para Comunicação – eu, inclusive. Ora, da minha parte, tentar Comunicação foi uma escolha lógica da parte de alguém que gosta de escrever e que pretende construir uma carreira com base em escrever... pelo mesmo motivo, tentei entrar em Letras em uma faculdade que ainda não disponibilizava o curso de Comunicação e, mesmo tendo a oportunidade de me transferir de um curso para outro, em Letras fiquei.

A bem da verdade, minha insatisfação com o curso que eu fiz só foi se dissipando por volta do 3º ou 4º período, quando descobri, aos poucos, que tinha muito mais possibilidades que me tornar uma professora. Aliás, admito ainda uma ironia: meu maior objetivo agora é o de me tornar uma professora.

Pode ser que se eu tivesse feito Jornalismo eu tivesse gostado do curso, tivesse me dado bem... Mas não descarto a possibilidade de que eu teria seguido um caminho parecido com o que realmente segui. Meu flerte com o jornalismo em geral sempre foi o mesmo. A diferença está na malícia textual que, a meu ver, adquiri com mais profundidade com os professores de Letras – o que pude atestar ao comparar minha visão com a de alunos que, formados em Jornalismo, decidiram fazer o mesmo mestrado em Teoria Literária e Crítica da Cultura que eu.
Sem contar uma implicância que desenvolvi com a falta de aulas de gramática no curso de Jornalismo, necessária porque até os professores universitários andam errando bobagens e até ensinando equívocos aos alunos (lembrando aqui que eu sou revisora, já li e consertei muitas dessas bobagens).

Além do mais, o clichê de que nem todos são iguais vai ser sempre válido, então, entre Jornalistas e “Literatas”, nem todos são iguais MESMO!

Em Letras, eu diria que aprendemos a ser leitores profissionais – e daí passamos a escrever caso seja de nossa vontade – ao passo que em Jornalismo aprendem, de fato, a ser escritores profissionais, preocupados com o público alvo e com a objetividade e todas essas características que os textos jornalísticos carregam. Como leitora profissional, pude chegar à conclusão de que não existe, absolutamente, um texto neutro ou imparcial, que seja puramente informativo; existem apenas o que são mais bem sucedidos em esconder a posição que tomam.

O que eu acredito que aconteça, então, é que, mais acostumados a escrever que a ler, jornalistas não aplicam sempre a noção de leitura crítica naquilo que veem como reportagem em potencial. Aqui, tomo emprestada a fala de uma amiga e jornalista, a Laís Menini:
“(...)amigos e colegas de profissão que continuam na labuta dos jornais, tvs, portais e rádios já disseram, mais de uma vez, que a geração de jornalistas “sabe tudo” que a modernidade trouxe até eles não quer nada com a dureza. Acha que é possível apurar uma notícia sem sair do lugar, lendo só comentários de Facebook. Também não está afim de sair da redação, quer resolver tudo por e-mail ou Whatsapp – e tudo isso ainda como estagiários”.
Sem conhecer a realidade dos jornalistas, eu, somente como leitora, tenho essa impressão também: hoje, porque é mais fácil fazer tudo à distância, muitos se tornam preguiçosos.

Sabemos que há jornalistas cientes da importância de uma investigação extensa e bem-feita, mas porque esse tipo de funcionário levaria mais tempo para escrever algo de qualidade que o sujeito do Facebook, capaz de lançar um furo jornalístico após a leitura de uma ou duas informações, sabemos também o motivo de muitas redações preferirem o último: é bem mais lucrativo, ou menos dispendioso, na verdade. Melhor ainda é quando a notícia se encaixa perfeitamente em fins políticos de difamação e crítica aos ideais contrários ao do veículo jornalístico em questão.

Diga-se de passagem, essa preferência pode explicar casos como o da jornalista da Veja, cujo número de plágios permanece ainda sem acordo entre os noticiários – 40? 60? 65? –, ou do furo de reportagem do Picasso no INSS, mostrado no brilhante documentário “O mercado de notícias”, de Jorge Furtado (segue, abaixo, o trecho a que me refiro).



A quantidade de informações disponíveis na internet é infinita e você pode fazer o teste: invente uma frase, qualquer frase, e ela pode se tornar um fato verificável pelo Google. Não é preciso muito esforço para se concluir que a maior parte do que é noticiado, se não é mentira, é algo incompleto e/ou distorcido. 

Convenhamos, não se pode esperar muito de jornalistas que têm como fonte principal blogs e redes sociais. A velocidade com que eles replicam notícias é inversamente proporcional ao tempo que passam pesquisando a fim de checar se o que é replicado é fato ou apenas boato. 

Como profissionais, só não conseguem ser piores que aqueles que se valem de documentos falsos – sim, estou falando de uma certa revista em específico – para produzir noticiários espetaculares, tendenciosos ao extremo e sem compromisso algum com a verdade – apesar de esse continuar a ser um dos slogans mais usados pelos meios de comunicação que se consideram jornalísticos.  

Fazendo um balanço geral da frustração, digo que a minha é de ter se tornado muito difícil um jornalismo de qualidade, independentemente da formação de quem o faça.