quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Pequenos detalhes que importam muito

(ilustração: Daniel Bueno, junho de 2013, para a Folha de S. Paulo)

Antes de expor minha crítica, gostaria de parabenizar a atitude da mãe Mariana Munhão e sua coragem ao dar um depoimento sobre a história do filho.

A pessoa que se assume trans passa por sofrimentos e conflitos imensuráveis, e o apoio da família e dos amigos é crucial para que se sintam bem no próprio corpo - um corpo que, de certa forma, os engana desde o nascimento. Somente o sujeito trans conhece e experiencia a própria dor. Mas quem o acompanha de perto, o ama e se preocupa com ele, também passa por seus dilemas, principalmente quando são indivíduos muito próximos, como os pais e os irmãos.

Às vezes, por mais que nos esforcemos para demonstrar apoio, compreensão e uma mente aberta, escorregamos em palavras e expressões que reforçam nosso apego ao chamado determinismo biológico - a crença de que a aparência de seus genitais e seu provável fenótipo é o que determina seu "sexo".

O relato de Mariana Munhão é profundo e serve como um ensinamento a muitos pais. Contudo, não posso deixar de expressar meu incômodo com a "frase de impacto" escolhida pela jornalista Gabriela Varella, que tomou o depoimento, para usar como chamada ao texto.

Da perspectiva de uma mãe, que viu o filho nascer com aspectos que fizeram com que ele fosse interpelado como "filha", é de se compreender que a sensação é a de uma garota que "virou" garoto - afinal, se desde o nascimento até a descoberta da transgeneridade Luan foi designado como menina, tem-se mesmo a impressão de uma pessoa se tornar outra, ao menos fisicamente.

Porém, quando a imprensa dá destaque a essa frase, "Não é fácil acordar e saber que sua filha virou filho", ela promove o reforço de uma ideia equivocada, que vem sendo propagada há muito e que é, em partes, responsável pela maneira discriminatória com que a sociedade enxerga as pessoas trans.
Ora, a filha não virou filho; "ela" sempre foi filho, "ela" se sentiu filho desde que pôde compreender sua identidade e compará-la com a de outras pessoas.

A pressão da família é a primeira de muitas enfrentadas pela pessoa trans. A pressão da escola, que evita tratar de questões de gênero e sexualidade - e agora ainda tem proteção de vereadores para que esses assuntos não sejam abordados -, vem em seguida e é quando o indivíduo pode realmente entender o que lhe espera na sociedade.

A criança cis - aquela que não questiona o gênero que lhe foi designado ao nascer - se certifica de sua identidade de gênero muito cedo e tem o aval dos pais para expressar como se sente, de acordo com essa identidade, pois está dentro das nossas expectativas sociais e culturais. A criança trans, por sua vez, é desencorajada pelo mesmo sistema, que a avalia como confusa - ou até como alguém com tendências homossexuais - e como incapaz de saber qual sua identidade de gênero tão cedo (veja bem, ninguém faz o mesmo questionamento a uma criança cis, aplaudida por reafirmar sua identidade diariamente).

Um estudo publicado em janeiro de 2015 mostrou que crianças trans demonstram suas identidades de gênero com a mesma consistência que crianças trans. Isso indica que, da mesma forma que a criança cis sabe qual é sua identidade de gênero, a criança trans também sabe de sua identidade "desviante", e elas são capazes de ter essa certeza desde os 5 anos de idade.

Ou seja, a criança trans não quer "virar" alguém do outro gênero, ela já se sente como alguém do outro gênero, mas precisa mostrar ao mundo esse sentimento e depende de outras pessoas - principalmente seus pais - para que ele seja validado. É a partir daí que entram as expressões de gênero associadas ao que é normalmente considerado masculino ou feminino. Para demonstrar sua transgeneridade, a criança passará a agir como as outras pessoas do gênero com o qual se identifica.

O problema do discurso que afirma que "é muito cedo para saber" tem a ver com uma ignorância voluntária por parte das pessoas, que usam essa justificativa somente quando o comportamento da criança não é o que se esperava. Afinal, para o garotão que nasceu com "o saco roxo" e adora ir para o colo de mulheres, nunca vai ser "muito cedo para saber" que ele é um macho heterossexual!

terça-feira, 4 de agosto de 2015

De jornalismos, escritores e ideais


Durante os anos em que cursei Letras, cheguei a ouvir mais de uma vez a lenda de que “todo aluno de Letras é um jornalista frustrado”. Muita gente pensa assim porque há, realmente, um número grande de pessoas no curso de Letras que prestaram vestibular para Comunicação – eu, inclusive. Ora, da minha parte, tentar Comunicação foi uma escolha lógica da parte de alguém que gosta de escrever e que pretende construir uma carreira com base em escrever... pelo mesmo motivo, tentei entrar em Letras em uma faculdade que ainda não disponibilizava o curso de Comunicação e, mesmo tendo a oportunidade de me transferir de um curso para outro, em Letras fiquei.

A bem da verdade, minha insatisfação com o curso que eu fiz só foi se dissipando por volta do 3º ou 4º período, quando descobri, aos poucos, que tinha muito mais possibilidades que me tornar uma professora. Aliás, admito ainda uma ironia: meu maior objetivo agora é o de me tornar uma professora.

Pode ser que se eu tivesse feito Jornalismo eu tivesse gostado do curso, tivesse me dado bem... Mas não descarto a possibilidade de que eu teria seguido um caminho parecido com o que realmente segui. Meu flerte com o jornalismo em geral sempre foi o mesmo. A diferença está na malícia textual que, a meu ver, adquiri com mais profundidade com os professores de Letras – o que pude atestar ao comparar minha visão com a de alunos que, formados em Jornalismo, decidiram fazer o mesmo mestrado em Teoria Literária e Crítica da Cultura que eu.
Sem contar uma implicância que desenvolvi com a falta de aulas de gramática no curso de Jornalismo, necessária porque até os professores universitários andam errando bobagens e até ensinando equívocos aos alunos (lembrando aqui que eu sou revisora, já li e consertei muitas dessas bobagens).

Além do mais, o clichê de que nem todos são iguais vai ser sempre válido, então, entre Jornalistas e “Literatas”, nem todos são iguais MESMO!

Em Letras, eu diria que aprendemos a ser leitores profissionais – e daí passamos a escrever caso seja de nossa vontade – ao passo que em Jornalismo aprendem, de fato, a ser escritores profissionais, preocupados com o público alvo e com a objetividade e todas essas características que os textos jornalísticos carregam. Como leitora profissional, pude chegar à conclusão de que não existe, absolutamente, um texto neutro ou imparcial, que seja puramente informativo; existem apenas o que são mais bem sucedidos em esconder a posição que tomam.

O que eu acredito que aconteça, então, é que, mais acostumados a escrever que a ler, jornalistas não aplicam sempre a noção de leitura crítica naquilo que veem como reportagem em potencial. Aqui, tomo emprestada a fala de uma amiga e jornalista, a Laís Menini:
“(...)amigos e colegas de profissão que continuam na labuta dos jornais, tvs, portais e rádios já disseram, mais de uma vez, que a geração de jornalistas “sabe tudo” que a modernidade trouxe até eles não quer nada com a dureza. Acha que é possível apurar uma notícia sem sair do lugar, lendo só comentários de Facebook. Também não está afim de sair da redação, quer resolver tudo por e-mail ou Whatsapp – e tudo isso ainda como estagiários”.
Sem conhecer a realidade dos jornalistas, eu, somente como leitora, tenho essa impressão também: hoje, porque é mais fácil fazer tudo à distância, muitos se tornam preguiçosos.

Sabemos que há jornalistas cientes da importância de uma investigação extensa e bem-feita, mas porque esse tipo de funcionário levaria mais tempo para escrever algo de qualidade que o sujeito do Facebook, capaz de lançar um furo jornalístico após a leitura de uma ou duas informações, sabemos também o motivo de muitas redações preferirem o último: é bem mais lucrativo, ou menos dispendioso, na verdade. Melhor ainda é quando a notícia se encaixa perfeitamente em fins políticos de difamação e crítica aos ideais contrários ao do veículo jornalístico em questão.

Diga-se de passagem, essa preferência pode explicar casos como o da jornalista da Veja, cujo número de plágios permanece ainda sem acordo entre os noticiários – 40? 60? 65? –, ou do furo de reportagem do Picasso no INSS, mostrado no brilhante documentário “O mercado de notícias”, de Jorge Furtado (segue, abaixo, o trecho a que me refiro).



A quantidade de informações disponíveis na internet é infinita e você pode fazer o teste: invente uma frase, qualquer frase, e ela pode se tornar um fato verificável pelo Google. Não é preciso muito esforço para se concluir que a maior parte do que é noticiado, se não é mentira, é algo incompleto e/ou distorcido. 

Convenhamos, não se pode esperar muito de jornalistas que têm como fonte principal blogs e redes sociais. A velocidade com que eles replicam notícias é inversamente proporcional ao tempo que passam pesquisando a fim de checar se o que é replicado é fato ou apenas boato. 

Como profissionais, só não conseguem ser piores que aqueles que se valem de documentos falsos – sim, estou falando de uma certa revista em específico – para produzir noticiários espetaculares, tendenciosos ao extremo e sem compromisso algum com a verdade – apesar de esse continuar a ser um dos slogans mais usados pelos meios de comunicação que se consideram jornalísticos.  

Fazendo um balanço geral da frustração, digo que a minha é de ter se tornado muito difícil um jornalismo de qualidade, independentemente da formação de quem o faça.

domingo, 26 de julho de 2015

Existiram índios homossexuais?


Não podemos dizer, especificamente, que existiram índios homossexuais na História do Brasil porque os índios não conheciam, muito menos usavam o conceito de “homossexual”, identidade que apenas foi cunhada no século XIX. Isso não significa, contudo, que não existia a prática do sexo homossexual nas tribos, como é o caso também de identidades de gênero para além do binômio homem-mulher ao qual a sociedade ocidental dita civilizada se acostumou.

Na verdade, há um número considerável de evidências de que a homossexualidade era uma prática socialmente aceita entre índios de diversas tribos. Além do mais, deve-se ter em mente que comportamentos e identidades não-heterossexuais entre índios não podem ser analisadas unicamente a partir de nossas concepções heteronormativas, uma vez que se tratam de sociedades diferentes, com experiências, vivências, crenças, simbologias, significados, interpretações, pontos de vista, rituais e pudores diferentes.

É notável a abundância de termos usados em tribos indígenas por toda a América para se referir a indivíduos que, de alguma forma, poderiam hoje ser classificados como LGBTTIQ a partir de nossa perspectiva.

À época da colonização da América Latina, no século XVI, viajantes europeus relataram a presença de índios e índias sodomitas no Novo Mundo (“sodomia” era a palavra usada para se referir a qualquer prática sexual “não-natural”, incluindo homoerotismo, sexo anal, oral etc.). Esses atos eram vistos pelos colonizadores como pecaminosos e selvagens, e junto com a catequização dos nativos vieram também as tentativas de apagamento do histórico dessas práticas.


Em sua extensa pesquisa, o antropólogo Dr. Luiz Mott menciona como até mesmo grandes civilizações, dentre elas os Maias e os Astecas, permitiam determinadas práticas e comportamentos, como o homossexo e o travestimento entre homens (apesar de condenarem outras).

A relação entre a prática homossexual e o xamanismo também esteve presente desde tempos imemoriais. Muitos já ouviram falar dos two-spirit norte-americanos, nativos que transitavam entre os gêneros e que, segundo a crença, eram detentores de grandes poderes e dons, justamente por carregarem ambos os espíritos masculino e feminino. A existência dessas pessoas foi documentada em cerca de 155 tribos espalhadas por toda a América do Norte.

No Brasil, a diversidade dos papéis de gênero também existiu, a exemplo dos tibira (que seriam os índios “gays”) e das çacoaimbeguira (as índias “lésbicas”), entre os Tupinambá. As çacoaimbeguira foram descritas como índias extremamente masculinizadas, que exerciam funções usualmente delegadas aos homens, vivendo com uma mulher que as servia como se fossem homens, além de exibirem os tradicionais cortes de cabelo masculinos.

Entre os índios Guaicuru e Xamicos, existiam os cudinhos, que adotavam vestes e adornos femininos e serviam a seus maridos como se fossem mulheres.

Entre os Kadiwéu, o hábito da pintura corporal é reconhecido como uma arte feminina. Os complexos padrões da tribo são pintados pelas mulheres mais velhas e pelos kudína, homens efeminados que incorporavam todos os atributos da mulher e assumiam papéis femininos naquela sociedade.

Segundo Luiz Mott (1994), em tempos de Inquisição, foi justamente a maior liberdade sexual e a nudez entre índios e entre escravos (a questão da “homossexualidade” nas tribos africanas merece um texto à parte), entre outros fatores, que possibilitaram aos sodomitas europeus um espaço privilegiado na colônia para suas práticas homoeróticas.

Em dias de fundamentalismo e conservadorismo como estamos vivendo, alguns podem tentar justificar a não aceitação da homossexualidade usando como justificativa que não há histórias de "índios homossexuais", sendo eles o supra-sumo da moralidade e da inocência por conta de sua condição como "selvagens". De fato, não houve "índio homossexual", mas houve homossexualidade entre os índios, desde sempre.

------------
Sugestões de leitura:

sábado, 18 de julho de 2015

Globo e, como sempre, o jornalismo tendencioso

Desta vez, a demonstração de um jornalismo irresponsável veio do programa "Bem Estar", em matéria sobre uso de brincos, riscos e cuidados, que foi ao ar na sexta-feira, 17 de julho.

Comecemos pelos "especialistas" consultados: uma dermatologista e um cirurgião plástico.
Primeiramente, são duas especialidades médicas que não vão lidar, diariamente, com o procedimento da perfuração, muito menos com tudo o que está por trás do uso de adornos corporais. Sabemos que as pessoas apenas procuram esses médicos em casos de problemas com suas perfurações.
Não é possível que, em momento algum, não passou pela cabeça dos produtores procurar o real especialista no assunto: o body piercer.

Felizmente, na página da matéria dois profissionais extremamente gabaritados já se manifestaram. Infelizmente, não acredito que quem deveria realmente ler seus comentários vão se dar ao trabalho.

O fato de que a dermatologista tem, entre suas funções, lidar com alergias da pele a substâncias diversas não significa, também, que ela entenda de todas as questões envolvidas na produção e distribuição de peças usadas para adornar o corpo. Basicamente, ela pode saber da presença de níquel em um "brinco", mas não acredito que ela tenha qualquer tipo de treinamento para identificar joias e peças específicas para serem aplicadas ao corpo - basta notar que, na matéria do programa, apenas mencionam que o recomendável para quem tem alergia é o "brinco de ouro".

A matéria falha em mencionar qualquer questão relativa à biocompatibilidade, que vai muito além do tal brinco de ouro - uma vez que a peça ser de ouro não é o mesmo que ela não apresentar níquel em quantidades variadas.

Outra falha IMENSA da matéria foi mostrar a perfuração da orelha de um recém nascido por um acupunturista de forma arriscada e negligente. Quando a câmera se aproxima dos brincos usados, notamos claramente que se trata de uma peça inapropriada, com hastes mal lixadas e propícias ao acúmulo de sujeira. Pior ainda, há uma gravação bem na haste do brinco, o último lugar em que deveria haver diferenças de relevo na superfície da peça! Ademais, o acupunturista faz a perfuração com uma luva de látex não estéril e usando um anestésico tópico.
Vale mencionar ainda que o médico usou o aparelho na orelha do recém nascido e não fez uma higienização da orelha posteriormente, aplicando direto a pomada anestésica. É claro que, em se tratando de um aparelho que é apenas passado na superfície da pele, não há necessidade de esterilização ou descarte, mas é preciso, no mínimo, fazer a desinfecção da "ponta" metálica, já que ela é passada na orelha de todos os pacientes, pelo visto.

Aliás, tenho também minhas dúvidas sobre a tal esterilização daquele brinco. Em momento algum foi mostrado o tal procedimento, e se o brinco foi esterilizado antes de ser levado ao consultório, pior ainda, pois foi colocado em uma superfície inadequada para ser filmado.



O correto, para a perfuração da orelha de um recém nascido, é não usar anestésico, pois há o risco de parte da pomada adentrar o furo quando passado o brinco. Ali, pode atrapalhar a irrigação do sangue na orelha e levar, em último caso, a uma necrose - sim, só por causa de uma pomada. Aliás, é por isso que A ANVISA PROÍBE O USO DE ANESTÉSICOS PARA FAZER PERFURAÇÕES.
Há um motivo bem claro para usarmos agulhas específicas para a perfuração e há um motivo ainda maior para o fato de perfuradores corporais terem abolido o uso desses "brincos com pontas afiadas", feitos para serem encaixados naquelas pistolas de perfuração, também abolidas há muito.

Ao fazer a perfuração na orelha da criança vemos também como o médico não está usando máscara, apenas luvas de látex não estéreis, para fazer o procedimento. Não há um campo protetor e o indivíduo está usando o mesmo jaleco com o qual deu a entrevista - o que me leva a pensar que ele deve ficar o dia inteiro com aquele jaleco de mangas compridas, sem se preocupar em arregaçar as mangas ou dobrá-las para que o tecido sujo não entre em contato com a perfuração.

Dá para notar ainda que, depois de toda a fala sobre pontos de perfuração e de estímulo na orelha, o médico nem mesmo fez a marcação na orelhinha do bebê...


O brinco tradicional acumula muita sujeira, a começar pelo formato da chamada "tarrachinha" que o prende. As pontas afiadas da haste são também perigosas, pois podem machucar o pescoço da criança no caso de hastes muito longas, além de seu formato ser outro fator a facilitar o acúmulo de sujeira. E, até onde sabemos, esses brincos são feitos de aço cirúrgico 316L, material até comum quando se fala em body piercing, mas que não é, absolutamente, o melhor em termos de biocompatibilidade - sim, meus queridos, a perfuração corporal avançou!

Outra questão que vale ressaltar é a "dica" dos médicos para cuidar dos "furos", ao falar que é preciso mexer no brinco constantemente - dizer isso é praticamente dar carta branca para que a pessoa fique rodando a peça no furo recente, com as mãos sujas, aumentando as chances de infecção. Qualquer folheto de estúdio contendo os cuidados que devem ser tomados é mais claro e melhor redigido. Pedir que a própria pessoa retire a peça ao notar sinais de infecção ou alergia é outro problema, pois ela não tem treinamento para retirar a peça sem ferir ainda mais o local ou deixá-lo exposto a mais contaminações.

Sobre o médico dizer que não se pode colocar um piercing na cartilagem, não consigo nem mesmo começar a dissertar. Há materiais que nos mostram, claramente, onde podemos fazer as perfurações sem atingir vasos sanguíneos e há posicionamentos apropriados para se aplicar as peças. Dizer que a orelha perfurada na cartilagem deve ficar como a de um lutador de jiu-jitsu é um exagero sem fim, pois o número de casos em que isso acontece é pequeno, pois a chamada "orelha de couve flor" é causada por contusões ou infecções graves, em casos extremos. Esse hematoma que ocorre no pavilhão auricular e leva ao crescimento de tecido fibroso é causado pelo rompimento de vasos e, repetimos, esse rompimento só vai ocorrer se a perfuração não for feita da maneira correta.

Eu tomei a liberdade de pegar duas fotos tiradas em cursos ministrados pelo piercer Snoopy, Ronaldo Sampaio, para ilustrar a forma correta de se proceder com a perfuração da orelha (aproveitem para comparar com o procedimento feito pelo médico e filmado pela Globo):



Se pudesse, ficaria horas falando a respeito dos problemas da matéria exibida em um programa que se diz voltado para a saúde e o bem estar. Vergonhosa como foi, mantenho a minha preocupação de que o adorno corporal seja vítima de maiores preconceitos e opiniões equivocadas que serão formados a partir das desinformações veiculadas pelo programa.

Para ler a nota de repúdio da Associação dos Tatuadores e Perfuradores do Brasil, clique aqui.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Pela causa trans


Hoje, uma nova movimentação está rolando no Facebook. Na semana passada, com a aprovação do casamento igualitário pela Suprema Corte dos E. U. A., muita gente começou a modificar suas fotos de perfil para uma que tivesse as cores da bandeira LGBT. O que se iniciou como uma forma de comemorar rapidamente deu lugar a uma rede de apoio à causa, com heterossexuais aderindo a uma campanha global - e, não tem como negar, a uma moda, vá lá.

Acontece que, mesmo dentro da comunidade LGBT, existem "categorias" com menor visibilidade, como é o caso da letra "T", que designa indivíduos transgênero - transexuais, travestis e pessoas trans em geral.

Porque a sociedade ainda está apegada a uma lógica que associa automaticamente sexo biológico, gênero e sexualidade, muitos continuam a não compreender a condição trans, apesar dos esforços por parte de ativistas e artistas trans em torno do esclarecimento. Por vezes, pessoas trans sofrem com a rejeição até mesmo entre grupos LGBT, dentro dos quais deveriam encontrar apoio e empatia!

Como pessoa que escolheu transitar entre os gêneros, nunca senti, na pele, a mesma exclusão que pessoas trans, mas sei o quão doloroso é a jornada de cada um que deseja modificar o corpo para se sentir em conformidade com a mente. Por isso acho extremamente importante apoiar a causa e dar visibilidade às questões trans, para que essas pessoas deixem de ser vistas como "estranhas", "erradas", "doentes"... Apesar da tristeza que é tomar consciência do quão transfóbica é a sociedade ocidental, acredito no poder da visibilidade e da educação.



Peço, então, nesta sexta-feira, dia 3 de julho, e pelo restante do mês, que mudem suas fotos de perfil com as cores da bandeira trans, em apoio a nossos irmãos, amigos, companheiros, que lutam bravamente pelo direito de serem vistos como "pessoas reais".
Para aplicar o filtro, é só enviar uma foto do seu PC para o aplicativo (http://messica.codes/transflag) e salvá-la de volta - infelizmente, ele não faz a mudança automática, mas é só enviar a foto normalmente para o Facebook.

Abaixo, fiz a tradução do texto (com a devida permissão da autora) da própria criadora do app, Jessica Willow, explicando suas motivações e a importância de uma ação que, apesar de pequena, faz uma grande diferença...

Só pra constar, eu não estou nem aí pra limitar esses posts sobre meu filtro da bandeira trans (propaganda descarada - http://messica.codes/transflag). Apesar de ainda ser relativamente pequeno em termos de internet, essa iniciativa atingiu uma proporção que eu não imaginava, sendo compartilhada por celebridades trans, ativistas e grupos LGBT por todo o mundo (até agora chegou a 124 países, pra ser exata), e até mesmo iniciou uma ação no Brazil em protesto contra a violência que atinge pessoas trans.
Ainda assim, eu reparei em algumas confusões a respeito de certas coisas que eu gostaria de esclarecer. Não se trata apenas de orgulho, trata-se também de apoiar e mudar a opinião pública. É por isso que é ABSOLUTAMENTE CRUCIAL que ALIADOS CIS compartilhem e participem, bem como a comunidade trans. Como muitos de vocês sabem, a visibilidade pode ser extremamente perigosa para pessoas trans e o Facebook adora mirar em indivíduos trans por conta da política do nome “real”, então eu não estou pedindo para que nenhum trans se exponha etc.
De forma resumida, se você é um dos 26 MILHÕES de usuários do Facebook que mudaram sua foto para colocar a bandeira do arco-íris a fim de apoiar os direitos LGBT, você já deveria estar apoiando o “T”. Se você não apoia o “T”, livre-se da bandeira do arco-íris... pelo menos até você se educar a respeito da história do movimento LGBT (e não é nosso trabalho te educar também – por favor, pesquise, não é difícil)
Se você apoia o “T”, tente mudar sua foto com a bandeira para uma bandeira trans, para dar apoio à comunidade transgênero E ESPECIALMENTE A MULHERES TRANS “DE COR”, que começaram esse movimento. Nós podemos mudar a opinião pública e, obviamente, isso já aconteceu. 10 anos atrás eu não poderia imaginar que os direitos LGBT progrediriam dessa forma, mas vejam onde chegamos agora. Não podemos esperar mais 50 anos para que o “T” alcance o mesmo nível e DEMANDAMOS UMA AÇÃO AGORA. Claro que existem outras formas, reais, materiais, de nos apoiar, mas essa é uma ação bem pequena, simples, que tem o potencial de mudar o mundo.
(texto em inglês disponível no Tumblr da autora
--------
Sobre a questão das mulheres trans "de cor" terem dado início ao movimento LGBT, basta procurar pelo nome de Marsha P. Johnson no Google e saber quem ela foi. Eu mesma já falei um pouco dela em um texto anterior: "Sobre paradas, tensões e representações"

terça-feira, 30 de junho de 2015

Ideologia de gênero, a saga

Um comentário feito por um biólogo e que vem sendo compartilhado no Facebook está me preocupando, pois mostra que, realmente, não há esforço para compreender questões críticas que precisam ser colocadas em pauta.


É absolutamente estapafúrdio que as pessoas realmente acreditem que se quer ensinar, nas escolas, que “nascemos sem sexo”. Realmente, não tem lógica nem mesmo alguém achar que se queira ensinar isso aos alunos.

Acontece que a cromossomia do indivíduo se expressa em suas características biofisiológicas, mas não vai determinar muito do que nossa sociedade acredita ser inerente ao homem e à mulher. Cromossomos não são responsáveis por determinar que garotos gostam de azul e mulheres gostam de rosa. Cromossomos não são responsáveis por determinar que garotos vão gostar de carrinhos e super-heróis e que garotas vão gostar de bonecas Barbie e brincar de “casinha”.

Parece mais fácil, aos adultos, ignorar o fato de que NÓS é que impomos o gênero à criança antes mesmo de ela nascer, criando expectativas com base apenas no fato de ela ter um pênis ou uma vagina (ou cromossomia XX e XY, vá lá - apesar de que até isso ignoramos durante o nascimento, apenas tomando conhecimento da configuração cromossômica quando a pessoa começa a apresentar "distúrbios" em seu corpo).

Diga-se de passagem, até hoje não foi comprovado que os cromossomos exercem algum papel em determinar se o indivíduo é transgênero ou não. Pode ser que exista alguma influência. Pode ser que não. O que se sabe, porém, é que a transgeneridade tem fortes indícios biológicos, sendo a maior probabilidade a de que ocorra por ação hormonal ainda durante o desenvolvimento fetal.
Ora, se na escola ensinamos sobre outras cromossomias, como XXY, XXX, XYY, sobre hormônios, sobre reprodução sexuada, é de se pensar na possibilidade de colocar em pauta outras condições que vêm sendo estudadas e que não podem ser negadas.

Ademais, se à escola cabe ensinar e exigir o respeito, é aí que entra a discussão sobre as diferenças. E uma das diferenças que está em pauta é aquela colocada entre os gêneros, que impõe a submissão feminina, por exemplo. Não são os cromossomos que determinam que a mulher deva ser delicada, obediente e submissa, mas a cultura!

O ensino não passa apenas pela Ciência, mas também pela Sociologia e, acima de tudo, pelo respeito ao outro. Ensinar sobre as diferenças e sobre a “outridade” é, sim, função da escola, e para tratar desse tema ela precisa passar por questões de raça, gênero, classe sócio-econômica, etnia e todos os elementos que, ao serem construídos como identidades, acabam por passar também pela exclusão.

O homossexual também não é respeitado na escola, muito pelo contrário, é frequentemente condenado por apresentar um comportamento "diferente", fora das normas, o qual rapidamente associamos à sexualidade - algo que nós, adultos, ensinamos as crianças a fazerem antes mesmo de entrarem na escola. 

Não sei se vocês conseguem perceber a inconsistência na fala do biólogo, que prega que a escola deva ensinar o respeito às diferenças sem coloca-las em pauta a partir de exemplos reais – uma vez que a pessoa trans tem todo o direito de frequentar a escola e ser respeitada, reconhecida e legitimada. E prefiro não comentar sobre um biólogo que usa “homossexualismo”, termo que remete a uma doença ou ideologia/fanatismo (por conta do sufixo “-ismo”) e que não é mais usado pelo menos desde os anos 1990 (cientistas não devem se atualizar com frequência?!).

A importância de se tratar das questões de gênero são, inclusive, bem exemplificadas por essa garotinha:
----------
O Ministério da Saúde oferece um curso à distância, gratuito, sobre Saúde da População LGBT. Decidi me inscrever e conferir, e recomendo. É bastante didático e claro, passando pelos assuntos mais básicos em relação a gênero, sexualidade e sexo, até a questão dos tratamentos de saúde propriamente ditos. Para instruções de como se inscrever, é só acessar aqui.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Sobre novos paradigmas e o medo do desconhecido


O disparate entre as pesquisas e estudos sobre educação na academia e a prática educacional escolar ainda é grande. Obviamente, as razões são muitas e não pretendo enumera-las aqui, mas precisamos tratar de uma questão que acaba por reforçar a estagnação do ensino nas escolas: o medo do desconhecido.

A maioria dos professores que já se formaram há muito tempo têm mais confiança em seus instintos e experiências que em novas "teorias mirabolantes" e propostas que os obriguem a frequentar mais cursos de atualização - principalmente se ministrados por pessoas muito mais novas, afinal, o que eles sabem da vida?! De fato, abrir-se para mudanças não é algo que façamos pronta e facilmente. Devemos estar convencidos de que as mudanças serão positivas e que o esforço de sairmos de nossa zona de conforto poderá ser recompensado de alguma forma.

Na instituição escolar, em que experienciamos o contato social desde pequenos, aprendemos que a adaptação e a uniformização são benéficas para o andamento da organização. Sendo assim, devemos obedecer às regras que nos são colocadas visando a certa harmonia do ambiente. Aqueles que são capazes de obedecer - ou, pelo menos, de se conformar com a maior parte das regras - e "se misturar" passarão despercebidos, como indivíduos médios, "normais". Mas, sabemos, quando normas estão em jogo, há também exceções.

Outra questão importante é que os padrões de anos atrás não são, definitivamente, os padrões de hoje em dia, e a relação entre aluno e professor pode se tornar bastante problemática em se tratando do choque de gerações às quais pertencem. Nesse sentido, a pessoa recém formada pode oferecer novos insights e perspectivas para os educadores mais antigos e, eventualmente, tradicionalistas.

Quando nos colocamos a favor do ensino e discussão de questões de gênero nas escolas, não estamos falando apenas em homossexualidade e acreditar nisso é uma ingenuidade com base em generalizações grosseiras. Não se trata de "estimular homossexualismo [sic] e promiscuidade" e, honestamente, se ainda existem PROFESSORES que pensam assim, há algo de muito errado/atrasado na formação dessas pessoas.

Até hoje as escolas têm medo de tratar de sexo e sexualidade dentro da sala de aula de maneira aberta, fechando os olhos para o fato de que adolescentes (e, às vezes, pré-adolescentes) exercem sua sexualidade independente disso. Então, não interessa se a escola prefere fingir que seus alunos não são sexualmente ativos; o sexo acontece e acontecerá entre jovens tanto heterossexuais quanto homossexuais.

Ao tratar de desigualdades de gênero serão abordados assuntos como sexo consentido vs. forçado, prevenção e tratamento de doenças sexualmente transmissíveis, contracepção, comportamento sexual masculino vs. feminino, pressões sociais exercidas sobre os gêneros, entre tantos outros. A necessidade de falar de tudo isso?! Se você tirar alguns minutos para ler sobre a pesquisa realizada pelo Plan Brazil em 2014, você terá uma dimensão do quanto ainda é real a desigualdade entre gêneros em nossa sociedade, que dá mais liberdades ao gênero masculino desde a infância.
Aliás, tal desigualdade chega a ser ainda mais aterrorizante quando um dos maiores medos que atingem o cotidiano feminino, o estupro, torna-se real dentro da escola, que deveria oferecer proteção a todos.

No que diz respeito às identidades e expressões de gênero, o assunto se torna ainda mais delicado, pois nos é possível observar que muitos professores simplesmente confundem sexo, gênero e sexualidade, a ponto de não saberem lidar com alunos trans e, pior, desrespeitando-os diariamente.
A palavra "bullying" pode ser recente, mas as ofensas a homossexuais, garotos efeminados e pessoas trans dentro da escola é bastante antiga, não raro com o aval de professores - quando não são eles mesmos a fazer piadas.

A igreja, por sua vez, não deveria ter nada com as decisões de planos educacionais, por uma razão única: a escola deve comportar todas as religiões. Usar um argumento baseado em uma crença específica é amplamente discriminatório, além de infundado em termos tanto empíricos como científicos.
O poder que algumas religiões vêm adquirindo é prejudicial para a democracia. Seus líderes excluem do povo a liberdade e o poder de decidir, preferindo a doutrinação cega e o estímulo ao discurso de ódio - vide a agressividade com que religiosos, principalmente evangélicos, vêm tratando o "outro".

---------------
Leituras recomendadas:



Sobre paradas, tensões e representações


O movimento LGBT como o conhecemos hoje tem uma história recente. Nos anos 1950 os grupos criados para advogar a favor dos gays – por muito tempo “gay” vem sendo usado como termo dominante para se referir a todos os LGBTs, uma simplificação um tanto quanto incômoda – se apoiavam em discursos de psicólogos, psiquiatras e sexólogos para deixar claro à sociedade que não podiam fazer nada a respeito de sua homossexualidade. A ideia era a de que a homossexualidade era uma espécie de patologia ou doença, sobre a qual homossexuais não tinham controle algum e da qual não se orgulhavam. Mas à parte desse “desvio”, eram sujeitos normais, que queriam ser aceitos pela sociedade.

O problema desse pensamento estava justamente no fato de não se orgulharem dessa “perversão” incontrolável, da qual, aparentemente, envergonhavam-se. Tinham um desejo de adequação e assimilação tão grandes que pareciam pedir desculpas por sua sexualidade.

Nos Estados Unidos, durante as décadas de 1950 e 60, o sistema legal/judiciário era abertamente contra o comportamento homossexual; à época, todos os estados americanos consideravam crime a “sodomia”, mesmo que o ato fosse consentido entre adultos – à exceção de Ilinois, que descriminalizou a sodomia em 1961.

A rebelião que ocorreu em Stonewall Inn, em Nova Iorque, no ano de 1969, não foi a primeira demonstração de descontentamento por parte de indivíduos LGBT, mas representou um marco na luta pelos direitos da comunidade.

Os últimos anos da década de 1960 viram o surgimento de diversos movimentos sociais, como o African American Civil Rights Movement (lutando pela igualdade de direitos civis para afro-americanos), as manifestações anti-guerra e a contracultura. Nesse espírito, indivíduos LGBT também passaram a lutar por sua legitimidade, recusando-se a permanecerem invisíveis.

O Greenwich Village, em Nova Iorque, era o bairro onde homossexuais e pessoas trans se reuniam à noite e o bar Stonewall Inn, que pertencia à máfia, era conhecido por sua popularidade entre os mais pobres e marginalizados da comunidade gay, como drag queens, transgêneros, jovens homens efeminados, sem-teto e michês. Portanto, era comum que acontecessem batidas policiais de surpresa no local. Mas em 1969 as tensões entre LGBTs e a polícia culminaram em uma série de protestos que se repetiram por várias noites seguidas, ficando conhecidos como Stonewall Riots (ou “Rebelião de Stonewall”).

Drags, crossdressers, transgêneros e gays efeminados participaram ativamente dos levantes. Naquela época, a ideia de transgeneridade não era difundida, e a verdade é que mulheres trans eram confundidas com drag queens - diz a lenda, foram as drag queens as primeiras a resistirem fisicamente à força policial em Stonewall (em entrevista para o documentário Pay it no Mind: Marsha P. Johnson, o escritor David Carter revela que algumas testemunhas oculares lhe contaram ter visto Marsha gritar "Eu tenho meus direitos civis!" e jogar um copo no espelho, dentro do Stonewall Inn, e foi justamente esse o ato a deflagrar os protestos).
Contudo, essas pessoas são hoje, com frequência, deixadas à margem do movimento LGBT, por desafiarem um padrão de “respeitabilidade” estabelecido inclusive para homossexuais, que devem ser “discretos” e permanecer “no armário” socialmente.

Ativistas importantes como Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, que se auto-proclamavam “transvestites” (palavra já obsoleta, usada para designar cross-dressers), usavam o termo “gay” para se referir à comunidade como um todo, de maneira inclusiva, uma vez que a luta de todos e todas, naquela época, focava-se no simples direito de existir e de ter controle sobre o próprio corpo.

Um ano após os motins, em 28 de junho de 1970, aconteceram as primeiras marchas do Orgulho Gay, nas cidades de Nova Iorque, Los Angeles, São Francisco e Chicago, em comemoração aos levantes. Posteriormente, as marchas foram organizadas em outras cidades e se espalharam pelo mundo, acontecendo preferencialmente em junho.

As paradas são um momento de celebração, uma comemoração daquele passo dado por pessoas excluídas da sociedade que eram espancadas e reprimidas por forças policiais simplesmente por estarem na rua. Se nos eventos de hoje as pessoas se beijam e expressam seu amor livremente, é porque foi preciso uma luta física para que isso pudesse acontecer.

No entanto, sempre que ocorrem as paradas sofremos também com o “fogo amigo”. Membros da comunidade LGBT que batem no peito para dizer que a parada não os representa, agarrando-se a argumentos moralistas e que expressam uma vergonha em relação ao movimento “gay” contemporâneo. Criticam a promiscuidade de participantes que vão à parada apenas para “fazer pegação”... Claro, em eventos e celebrações regados a música e álcool, é de se esperar que ocorram excessos. No caso das paradas não seria diferente.

Lembro-me do discurso de Clodovil Hernandez, ainda aplaudido por muitos, afirmando que não tinha orgulho de ser homossexual. Trata-se de um reforço da noção de que a homossexualidade é uma característica negativa do indivíduo; uma posição que sustenta a polarização que determina que ser heterossexual é bom e ser homossexual é ruim. Qualquer semelhança com o discurso dos grupos chamados homófilos, dos anos 1950, não é mera coincidência. Trata-se da ideia de “respeitar para ser respeitado”... um respeito aos outros que passa pela falta de respeito a si mesmo, na verdade, já que depende de uma internalização da vergonha que outros nos fazem sentir.


Não podemos nos esquecer, no entanto, que a demonstração de carinho em público é uma forma de protesto para nós, LGBTs, que ainda afrontamos o sistema com nossa simples existência, como é possível notar pelos discursos conservadores e fundamentalistas que andam se propagando. Não podemos nos dar ao luxo de reprimirmos uns aos outros dentro da comunidade, pois é isso que querem de nós os que são contra nós – a separação dos grupos, a desunião, as tensões.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

A ideologia por trás da ideologia de gênero

ideologia. s.f. P.ext. Sociologia. Organização de ideias fundamentadas por um determinado grupo social, caracterizando seus próprios interesses ou responsabilidades institucionais: ideologia cristã; ideologia fundamentalista; ideologia nazista etc. P.ext. Reunião das certezas pessoais de um indivíduo ou de um grupo de pessoas; percepções culturais, sociais, políticas etc: sua ideologia é fazer bem ao próximo. Política. Reunião das ideias características de um grupo, de um período, e que marcam um momento histórico: ideologia capitalista. 
Eu moro em São João del-Rei, cidade em que o catolicismo foi transformado em patrimônio juntamente com suas estonteantes igrejas.
Infelizmente, o povo aqui é como o povo no mundo todo: vive de boatos e especulações.
Tirando proveito disso, um vereador lançou a seguinte campanha...


Na descrição para a foto, lê-se:

#DigaNãoAIdeologiaDeGênero
Se a "Ideologia de Gênero" for aprovada, todas as nossas crianças deverão aprender que não são meninos ou meninas, e que precisam inventar um gênero para si mesmas. Para isso, receberão materiais didáticos destinados a deformarem sua identidade. E isso será obrigatório, por lei.Cabo Zanola apresentou uma emenda que RETIRA do plano municipal de educação esse termo.
Afinal, não basta o indivíduo defender seu ponto de vista em relação a um Plano que, aparentemente, ele não soube interpretar; ele precisa INVENTAR um argumento com base na distorção dos pensamentos teorizados pelos estudos de gênero.

Segundo o Cabo Zanola, se o Plano Municipal de Educação for aprovado, as crianças aprenderão que não existem "meninos" e "meninas", mas que elas podem/precisam "inventar" um gênero para si mesmas. (Toda vez que eu releio essa descrição eu tenho vontade de bater com a cabeça no teclado, porque me faltam palavras...)

Vamos por partes.
Primeiramente, quando refutamos a noção de que o gênero é algo natural não estamos negando sua existência. Estamos simplesmente tentando chamar a atenção para o fato de que o discurso que prega que "meninos são assim" e "meninas são assado" é uma construção cultural. Antes mesmo de o bebê nascer, os pais criam expectativas em torno do gênero que é determinado para ele. O médico olha, através do ultrassom, se existe ali um pênis ou não e é por esse dado que ele vai determinar o gênero do bebê. E essa determinação vai governar TODA A EXISTÊNCIA daquele indivíduo que ainda nem nasceu.

O problema é que, ao dizer que é "menino" ou "menina", o médico faz com que sejam geradas ideias a respeito da personalidade do bebê, de como ele deverá se comportar no futuro, de que vida ele deve levar a partir de seu nascimento. Só porque a criança nasce com um pênis há uma suposição de que ela vai gostar da cor azul, vai preferir brincar com carrinhos, vai se interessar por futebol e sentir atração por "meninas". O direito à individualidade, a construir sua própria identidade, é tirado da criança desde seu nascimento por conta de suposições constantemente reiteradas pela sociedade!

Imagine você se sua filha detesta usar saia e não gosta da cor rosa, prefere a vermelha. É justo que você a obrigue a usar uma saia rosa só porque a cultura afirma veementemente que garotas devem gostar de saia e de rosa?

Quando o seu filho chora, você procura conversar para saber o que aconteceu ou você imediatamente o manda "engolir o choro", porque "homem não chora"?!

Os estudos de gênero procuram demonstrar como o que temos por "identidade masculina" e "identidade feminina" não são "coisas que nascem com a gente"; são, na verdade, impostas, naturalizadas, essencializadas para que não as questionemos.

Essa imposição é perigosa, pois dita que um garoto deve ser viril, corajoso, racional, ao passo que uma garota deve ser delicada, vaidosa, sensível - e, pior ainda, submetida ao homem. Se, de alguma forma, a criança não segue essa "regra", ela sofre, dentro da escola, com a pressão para reprimir sua "diferença", por meio de piadas de mau gosto, insultos, brincadeiras violentas. O resultado disso? A taxa de suicídio entre pessoas LGBT é incrivelmente mais alta que a dos demais, por conta da forma como são ensinados a odiarem e a sentirem vergonha de si mesmos. Essas pessoas são constantemente lembradas, pelas instituições, de como seu jeito de ser é inaceitável e repreensível.

Cheguei a ouvir que, ao tratar de questões de gênero na escola estaríamos tirando a inocência das crianças... e que o uso do banheiro de acordo com a identidade de gênero abre caminho para que pervertidos entrem nos banheiros femininos (já falei disso aqui). Curioso é como quem vê as coisas pelo lado pervertido da história são apenas os que estão criticando... Nós, por outro lado, estamos enxergando formas de combater o "pensamento pervertido" lutando para se ensinar um senso crítico e dotar as crianças de poder de reflexão!

O Plano Municipal, preocupado com a forma como os preconceitos vêm sendo disseminados dentro das escolas - preconceitos de todas as vertentes, diga-se de passagem - e em como isso afeta a vida escolar e pessoal de cada aluno, propõe que algumas questões sejam abordadas dentro da sala de aula. Dentre essas questões, está  a do gênero enquanto construção social que obriga meninos e meninas a assumirem papéis socio-identitários pré-determinados.


Abaixo, segue o texto do PME; eu destaquei os trechos em que se trata da questão de gênero:
II – DIAGNÓSTICO:
O GT Educação Étnico-Racial e para Diversidade amparou seus estudos na lei nº 9.394/96 (LDB), em seus artigos 26 A e 79 B; na lei nº 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana no currículo da Educação Básica; na lei 11.645/08 que insere a obrigatoriedade da educação indígena no currículo da Educação Básica e nas resoluções CNE/CP1/04 e CNE/CP3/04. Além dos de diversos documentos de organismos internacionais de defesa dos direitos humanos dos quais o Brasil é signatário.
Novos cenários sociais, reflexões relativas ao Currículo e suas estruturas, assim como os processos de aprendizagem e construção do conhecimento tomaram conta dos debates nas últimas décadas do século XX e se consolidaram na atualidade evidenciando trabalhos e conquistas de uma gama de pesquisadores, estudiosos e movimentos sociais.
Todo esse relevante avanço na discussão de temáticas e reivindicações de abordagens que inserissem novos atores sociais e também os à margem da história, aliado ao processo profícuo de aumento do acesso de crianças e jovens às instituições escolares, não conseguiu acabar com o brutal desconhecimento da realidade vivida pelas comunidades negras e periféricas de nosso país. Estes estão presentes nas unidades de ensino, porém, não se reconhecem e não possuem nenhum sentimento de pertença às mesmas. “Crianças, adolescentes e jovens; negros e negras têm vivenciado um ambiente escolar inibidor e desfavorável ao seu sucesso, ao desenvolvimento pleno de suas potencialidades.”
O grupo de trabalho considera de extrema importância a fundamentação do cotidiano da prática escolar para uma educação livre de preconceitos e de antigos vícios culturais. Considera que a escola deve direcionar-se para a edificação do sujeito na construção de bases educacionais que combatam o racismo a xenofobia e a homofobia.
Diante da ausência dessa temática no atual Plano de Educacional do nosso município, faz-se urgente inseri-la, para que possamos tratar com justiça e dignidade a história e os valores herdados do povo negro e demais grupos étnicos-culturais e minorias da sociedade brasileira..
III – DIRETRIZES
1 - Tratar a questão racial e as questões de gênero, etnias, dos grupos GLTB, de outros grupos socioculturais como conteúdos multidisciplinares durante o ano letivo.
2 - Reconhecer e valorizar as contribuições do povo negro, das mulheres, dos grupos, dos movimentos GLTB, dos indígenas e outros grupos socioculturais articulando ações entre a Educação e as Secretarias de Cultura e Esporte e Lazer.
3 - Abordar as situações de diversidade étnico-racial e a vida cotidiana nas salas de aula.
4- Combater as posturas etnocêntricas para desconstrução de estereótipos e preconceitos atribuídos aos grupos negros, homossexuais, mulheres, imigrantes e pessoas com deficiência.
5 - Investir na formação específica dos Professores quanto à temática da educação das relações étnico-raciais e o estudo de História e Cultura Afro-brasileira e cultura africana e Indígena seguindo o que reza as leis 10.639/03, 11.645/08 e as resoluções CNE/CP1/2004 e CNE/CP3/04.
6 - Recusar o uso de material pedagógico contendo imagens estereotipadas do negro, homossexuais, estrangeiros e pessoas com deficiência, como postura pedagógica voltada à desconstrução de atitudes preconceituosas e discriminatórias.
7 - Criar grupos de estudos permanentes sobre a temática, para a construção coletiva de alternativas pedagógicas com suporte de recursos didáticos adequados ao aperfeiçoamento e produção de materiais para formação e capacitação dos professores da Rede Municipal de Ensino.
IV – METAS:
1 - É fundamental fazer com que o estudo não seja reduzido a estudos esporádicos ou unidades didáticas isoladas. A questão racial deverá ser um tema tratado em todas as propostas de trabalho, projetos e unidades de estudo ao longo do ano letivo.
2 - Estudar a cultura afro-brasileira e das sociedades latino-americanas tratando-a com consciência e dignidade, enfatizando suas contribuições sociais, econômicas, culturais, políticas, intelectuais, experiências, estratégias e valores, potencializando atividades que promovam e evidenciem as contribuições da comunidade negra divinopolitana, das mulheres, dos demais grupos sociais minoritários e as heranças latino-americanas.
3 - Firmar parcerias com a sociedade civil organizada (ONGS, Movimento Negro e Associações de Bairro etc.) – parcerias que enriquecerão e ampliarão a atividade pedagógica no ambiente escolar, visto que, comunidade e escola devem construir em conjunto o conhecimento para valorização e edificação mútuas.
4 - Articular ações educativas e promover campanhas em parceria com os organismos de defesa dos direitos humanos; Promotoria da Infância e Juventude; Secretarias de Educação e com o Poder Legislativo.
5 - O Município deve investir na formação dos professores no trato deste tema. É fundamental o investimento na capacitação dos profissionais da Educação para garantir qualidade na execução das atividades previstas dentro dos ordenamentos jurídicos e educacionais, nos quais esta temática está inserida.
6 - É imprescindível banir do ambiente escolar qualquer texto, referências, discriminações; decorações, desenhos, qualificativos ou visões que construam ou fortaleçam imagens estereotipadas de negros e negras, mulheres, homossexuais, pessoas com deficiências e estrangeiros, assim como pessoas com deficiências.
7 - A criação de um grupo específico de estudos permanentes sobre a temática étnico-racial, diversidade e culturas latina-americanas é de suma importância para o enriquecimento dos saberes. Aos mesmos caberá o ofício de selecionar, sistematizar, analisar e contextualizar o que é relevante para o entendimento do processo histórico de reconstrução da memória das comunidades afro-brasileiras e fomentação de uma cultura livre de preconceitos e vícios culturais.
8 – Favorecer o desenvolvimento dos estudos da história e das culturas dos povos latino-americanos nas redes de ensino do município e a criação de grupos de estudos sobre os povos latinoamericanos
----
Em tempo, sobre as crianças, a história do adorável Sam fala por si só:

----
Para quem se interessou e deseja conhecer mais sobre as questões de gênero, sugiro as seguintes leituras:



sábado, 13 de junho de 2015

Manifesto minoritário


Desde pequenos somos forçados a notar quando somos diferentes. Na escola, qualquer que seja nossa diferença ela irá se sobressair. É, então, na escola que nos ensinam que a diferença é indesejável – e, apontando para ela como uma falha, como uma inconveniência, a escola nos pressiona a nos tornar invisíveis e a nos misturar entre os “iguais”.

Nesse primeiro contato com a sociedade somos colocados diante daquilo que enfrentaremos por toda uma vida e, enquanto “diferentes”, tomamos consciência de que provocamos o incômodo. A garota que não gosta de rosa, o garoto que não se interessa por futebol, a negra que não quer alisar o cabelo, a criança que não quer estar na moda, a criança que não pode estar na moda por conta de suas condições econômicas desfavorecidas, mas nem por isso se envergonha... qualquer um que não esteja disposto a se conformar é um incômodo porque questiona a validade das regras. Qualquer um que se recuse a ser “só mais um”, que se recuse a seguir os padrões impostos à sociedade, provoca ansiedade, porque questiona as formas de poder que se disfarçam de regras e padrões.

É crucial, para o conservador, que a mulher permaneça submissa, que o homossexual não tenha os mesmos direitos civis, que o transexual não tenha sua identidade de gênero reconhecida. Afinal, conferir visibilidade e poder de fala a essas pessoas é permitir que elas questionem justamente os princípios que alçaram ao poder os opressores.

Mulheres, negros, pobres, deficientes físicos ou mentais, homossexuais, bissexuais, transexuais, transgêneros sabem que são diferentes; sabem que são o “outro” que não é dominante. Em algum momento de sua vida experimentarão alguma forma de discriminação, e normalmente esse momento chega quando entramos na escola.

Na escola, a importância de seguir as normas está em se adequar e aprender a não questionar, a ficar calado. Afinal, é menos trabalhoso e (bem) mais conveniente para os que administram um ambiente ou uma instituição que não se fomentem os discursos questionadores.

O aluno que insiste em perguntar “Por quê?” é um aluno armado com um pensamento crítico, e é importante que o professor demonstre ao estudante como manusear essa arma. Como professores, devemos deixar claro para o jovem que a neutralidade é um mito e que não existem verdades absolutas; e que se não somos capazes de escapar das ideologias, podemos, ao menos, questioná-las.

------

Em São João del Rei, estamos enfrentando a pressão de um vereador conservador para se reformular o plano decenal de ensino; muitas outras cidades estão sofrendo com o mesmo problema. Enquanto educadores e representantes de minorias não podemos nos calar!

terça-feira, 9 de junho de 2015

O que te choca de verdade? - parte 2: as ameaças



Não me choca saber que a trans "crucificada" na Parada Gay está agora sendo, bem, crucificada. Ela relatou estar sofrendo ameaças de morte tanto pelas redes sociais como pelo telefone. E aqueles que a defendem nas redes provavelmente passarão a semana sendo insultados por isso.
Novamente, reina a impulsividade e a desonestidade intelectual do que não está interessado em interpretar o simbolismo colocado em pauta. Trata-se de uma metáfora poderosa para o sofrimento.

Vejo muitos homossexuais defenderem a noção de "respeitar para ser respeitado", que nesse caso denota "respeitar para ser socialmente aprovado". Primeiramente, ainda estou me esforçando para encontrar o desrespeito na imagem de Viviany crucificada... talvez se fosse um homem ali teria causado menos indignação. No entanto, esses mesmos que comentam sobre a necessidade de "respeito" são os primeiros a desrespeitar a própria comunidade LGBT, seja pela resignação à invisibilidade, seja pelo insulto direto ao criticar as "bichas pintosas".


Aliás, esse tipo de "respeito" ao outro me lembra uma das motivações que culminou no protesto em Stonewall, em 1969: à época, nos Estados Unidos, quem não estivesse usando pelo menos três peças de roupa que indicassem seu "gênero correto" (leia-se, seu "sexo biológico) poderia ser preso.

Aos que acreditam em manter a vida privada fora do âmbito político, devemos lembrar que não fomos nós, LGBTs, a trazermos gênero e sexualidade para a esfera pública. A união civil reconhecida juridicamente é um exemplo de que a suposta vida privada há muito se tornou, irremediavelmente, pública - daí a luta LGBT por ter sua união civil também validada pelo Estado.

No que diz respeito ao uso de um símbolo da fé cristã, devemos ter em mente que não há somente UMA fé cristã no mundo, e que essa diversidade de fés é motivo para guerras e crimes. Se um sujeito que acredita na Bíblia é discriminado em seu país por não seguir a fé dominante, estaria ele fazendo chacota ao protestar usando a cruz? Lembremos também que grupos radicais como o Estado Islâmico usam a crucificação como forma de execução até hoje! Nesse sentido, homossexuais podem, ainda, ser fisicamente, literalmente, crucificados.


A performance de Viviany não foi um escárnio, muito pelo contrário, foi extremamente séria. Fosse algo planejado para provocar diretamente aos cristãos, provavelmente adotaria uma estética diferente, no mínimo mais sarcástica.
Ademais, um indivíduo LGBT não seguir uma igreja específica não significa que ele não seja cristão, sem contar aqueles que ainda são católicos praticantes ou que encontraram conforto em outras religiões. Certamente, Viviany não tinha em mente ofender a essas pessoas, que estão ali, lutando ao seu lado.

Sobre muitos evangélicos (admito, não são todos), é preciso dizer ainda que praticam a soberba e ofendem à lei constantemente (mais especificamente ao Artigo 208 do Código Penal), invadindo terreiros e protestando abertamente contra religiões de matriz africana, até mesmo ameaçando de morte aqueles que se recusam a aceitar suas imposições disfarçadas de pregação. E, convenhamos, a bancada evangélica no congresso está repleta de processos e acusações e ainda assim se mantêm como líderes religiosos E políticos - num Estado que, constitucionalmente, é laico. Não é à toa que formam - e fazem questão de nomear - tantos inimigos, uma vez que a cada questionamento de suas ações por outros esse imenso poder é ameaçado.

Sou de uma família católica e, a meu ver, é muito mais desrespeitoso o que usa da simbologia cristã para lucrar ou para adquirir poder sobre outros. E vale a pena repetir: ninguém detém os direitos autorais da Bíblia e os símbolos ali mencionados podem ser usados por todos, como de fato o é.


Outra coisa: não há, em parte alguma da Bíblia, que o homossexual deva ser condenado à morte, simplesmente porque naquela época a homossexualidade, enquanto identidade, não existia. A prática de um homem deitar com outro homem era vista a partir de seu contexto e, por isso, era aceita em alguns casos e condenada em outros, como está explicado no vídeo abaixo.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

O que te choca de verdade?


Na “Parada Gay” que aconteceu em 7 de junho de 2015 uma performance chamou a atenção; Viviany Beleboni, trans, apareceu crucificada em cima de um dos trios. A imagem forte de uma crucificação simboliza a violência, esta bastante física, a que muitas pessoas são submetidas por sua orientação sexual ou por sua expressão de gênero.

A analogia com Jesus Cristo é inteligente e uma importante chamada à reflexão, pois Cristo foi o grande defensor das minorias em seu tempo e foi condenado à morte justamente por ser uma pessoa transgressora e questionadora do status quo. A morte por crucificação foi uma punição comum na Roma Antiga, reservada aos que ofendiam a lei.

Ora, não podemos tomar Jesus como nosso representante, como nosso mártir, uma vez que ele é, por si só, um dos maiores mártires da humanidade? Evangélicos não detêm os direitos à imagem de Cristo, não detêm nem mesmo o direito de interpretação única da Bíblia. Muito pelo contrário, que eu saiba, eles são contra a adoração de ídolos e alguns deles fazem questão de chutar e quebrar imagens católicas apostólicas. Estavam eles preocupados com a ofensa que fizeram a uma outra religião? Provavelmente, não.

Dizer que a apropriação da imagem da pessoa crucificada é uma blasfêmia é condenar os próprios atos, uma vez que eles usam e abusam de tal imagem em suas propagandas. Não nos esqueçamos também que a mesma imagem já foi usada inúmeras vezes pela imprensa com objetivos supérfluos e não gerou tanta polêmica.

A diferença é que a igreja evangélica claramente tem no movimento LGBT o desafio às crenças, o desafio a ensinamentos pregados por um pastor – muitos deles nem mesmo estão na Bíblia, ou são distorcidos da forma como aparecem, descontextualizados para servirem ao objetivo de dominação dos fiéis.

Aos membros da comunidade LGBT que consideram a imagem de Viviany crucificada um desrespeito, sobressai a hipocrisia de tal argumento: para sermos respeitados teríamos de vestir uma máscara de respeitabilidade que nos permitisse viver no mundo como se fôssemos “iguais”. Mas, para a sociedade, não somos “iguais”. Não é justo que tenhamos de acolher o desrespeito na forma de uma adaptação normativa de comportamento, que está sempre nos impondo o que é certo e o que é errado, em vez de nos expressarmos de forma mais aberta.

Em tempo, imagens chocantes e ofensivas de verdade são as publicadas no Homofobia Mata. Os crimes denunciados ali, sim, são blasfêmias!

P.S.: Aos evangélicos que dizem praticamente deter o copyright da palavra divina, deixo aqui um trecho da Bíblia, Mateus 7:22-23
22 Muitos me dirão naquele dia: 'Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?'23 Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês que praticam o mal!
---------------
Leituras sugeridas:

domingo, 7 de junho de 2015

Tatuados e preconceituosos - parte 2

Em setembro do ano passado eu publiquei aqui um texto sobre o preconceito dentro da própria comunidade de adeptos das modificações corporais. Acho extremamente irônico como muitas pessoas que sofrem com o preconceito não se importam em lutar contra ele e, não raro, acabam por propaga-lo ou reforça-lo ainda mais.

Desta vez, a manifestação de preconceito de um tatuador foi direcionada à comunidade LGBT. Novamente, trata-se de alguém sujeito à discriminação social que, nem por isso, preocupa-se em deixar de discriminar outros grupos.


Infelizmente, o comentário do tal tatuador não me surpreende. O meio dos adeptos à tatuagem tem uma certa reputação como machista, ainda que muito tenha mudado nos últimos anos. Não há muito tempo que tatuadoras eram tratadas com pouco respeito por profissionais e tatuados, e ainda acontece de indivíduos se recusarem a ser tatuados por mulheres, por incrível que pareça.

Outra questão sobre a qual gostaria de chamar a atenção está no teor sarcástico do comentário do tatuador - afinal, um grupo oprimido adquirir direitos não significa que o grupo opressor perderá direitos; trata-se apenas de se nivelar a situação. Quando a união civil homossexual não era permitida, a união civil heterossexual era um privilégio detido por um grupo; ao se permitir que o homossexual tenha o mesmo privilégio de heterossexuais, ambos os grupos passam a ter uma igualdade de direito no âmbito em questão.

No meio LGBT talvez o grupo representado por homens homossexuais tenha se tornado mais visível - a começar pelo próprio uso mais frequente do termo "gay", como em "Parada Gay" - e por essa razão lésbicas, bissexuais e transgêneros vêm procurando dar mais ênfase a suas respectivas vozes. Daí a chamada publicada pelo Portal Terra.

Ao questionar se o heterossexual ainda teria os mesmos direitos o tatuador simplesmente mostra como tendemos a enxergar nossos próprios umbigos. Ora, heterossexuais sempre tiveram seus direitos garantidos sem precisar lutar por eles e isso não vai mudar! Aquele que não tem o direito é que deve clamar por ele, na busca por se igualar, na medida do possível, ao opressor, em termos de "facilidade social".

Passemos, então, a outro grupo oprimido: o dos tatuados. Ainda temos de nos impor diante de situações específicas, por exemplo, no que diz respeito ao mercado de trabalho. Empresas e instituições governamentais que se recusam a empregar tatuados continuam a existir - elas nos negam o direito de trabalhar. Então não deveríamos lutar para garanti-lo? Imagine você se, ao perceber que uma instituição empregou alguns sujeitos tatuados, um "não-tatuado" começasse a questionar a empresa, perguntando se ela ainda estaria empregando pessoas sem tatuagem... Pois é, não há lógica nenhuma nisso. Mas é justamente essa linha de pensamento que deve ser empregada no comentário feito pelo tatuador na notícia sobre LGBTs.

Parece-me que as pessoas estão cada vez mais impulsivas. O imediatismo que se instalou em nossa cultura se instalou também em nossa fala... queremos tanto comentar, falar, marcar nossa "presença virtual" que não estamos dispostos a gastar um pouco de tempo na reflexão. As respostas devem ser cada vez mais imediatas e, por consequência, cada vez menos "pensadas".

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Livro: "A modificação corporal no Brasil: 1980-1990", por Thiago Soares


A modificação corporal no mundo existe desde que o ser humano existe. Trata-se de uma história múltipla, diversa e complexa, e conseguir desenvolver uma genealogia das práticas é uma tarefa que demanda tempo e dedicação extremos.

Em seu primeiro livro, Thiago Soares (fundador do site Frrrk Guys e do grupo de estudos GESMC) traça um perfil da modificação no Brasil entre as décadas de 1980 e 1990, período em que muitas técnicas floresceram por todo o mundo, algumas um tanto quanto controversas, como os implantes, outras, já estabelecidas, encontraram mais adeptos e profissionais dispostos a experimentar com as possibilidades, como no caso da escarificação e do branding. Passando para os anos 2000, Thiago também apresenta o caso da pigmentação do globo ocular, a evolução das peças para body piercing e sua análise acaba não se restringindo apenas ao período delimitado pelo título da obra.

Tratando de diferentes perspectivas em diferentes contextos históricos, o autor expõe como a visão que temos do corpo foi sendo moldada por meio de discursos e ideologias por vezes impostas à sociedade. O resgate do primitivismo, em meados do século XX, foi um momento de mudança de paradigmas, levando a novas percepções, algumas bastante desafiadoras aos olhos da sociedade média.


A importância de um livro como esse, escrito de forma tão clara e objetiva – até didática, eu diria –, não está somente no reconhecimento de uma comunidade brasileira rica e ativa que se dedica à body mod com seriedade e afinco, mas também à abertura, para o público em geral, de um âmbito quase desconhecido envolvendo as modificações chamadas mais “extremas”. Até hoje, aqueles que optam por intervenções no próprio corpo são vistos como abjetos, como “loucos”, “inconsequentes”... caracterizados na maioria das vezes negativamente, são indivíduos julgados simplesmente por exercerem sua individualidade, seu direito de escolha. Por isso a necessidade de se discutir o tema é grande e, convenhamos, a publicação de uma obra como essa valida intelectual e academicamente a modificação corporal brasileira, principalmente sendo escrito por uma pessoa que experiencia no próprio corpo seu objeto de pesquisa – um passo que representa uma afirmação crucial, quem sabe, uma infiltração num meio acadêmico nem sempre receptivo a esse tema.

Recomendo a todos os interessados no tema e aos curiosos também! Para comprar, clique aqui.

[Nota (para a editora):] Por ossos do ofício, venho notando que muitos livros são publicados hoje em dia sem um trabalho cuidadoso de revisão (pergunto-me se há alguma revisão, na verdade). Várias vezes, ao ler um livro, começo a notar erros gramaticais que, apesar de corriqueiros quando escrevemos (afinal, escrevemos sem pensar em revisão nem em edição, trabalho que só será feito depois e que normalmente é realizado uma segunda vez pela editora), pode ser facilmente notado por um revisor, como trocar um ponto final por uma vírgula ou adicionar um verbo na oração – não é essa a função?!
Até os maiores professores precisam de alguém para revisar seus textos, por uma simples questão de distanciamento, e não consigo entender o motivo de algumas editoras estarem aparentemente dispensando a revisão.