quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Ainda sobre argumentação: você realmente entende de feminismo?


Não é novidade que muitas pessoas se confundem quanto ao que seja o feminismo. A luta para que as mulheres adquiram status de igualdade em uma sociedade historicamente dominada pelo masculino implica no reconhecimento de que o machismo, além de oprimir as mulheres, exerce pressões sobre os homens com base nas imposições de papéis sociais. Sendo assim, não ignoramos o fato de que aos homens é delegada a obrigação de sustentar suas famílias, de ser viril, corajoso, física e emocionalmente forte, entre outras coisas. No entanto, como mulheres, colocamos, de fato, nossas necessidades em primeiro plano por uma questão óbvia de prioridade.

Por vezes, discordo de algumas atitudes de determinadas militantes feministas no que diz respeito ao tratamento do homem, pois acredito que também entre nós há as que acreditam que o feminismo seja o oposto ao machismo - sendo assim, acreditam que a mulher deve fazer com o homem o mesmo que o homem faria com a mulher. O homem não deve ser o protagonista da luta feminista, e não devemos permitir que ele tire proveito de nosso protagonismo. Mas isso não significa que eles não possam se tornar nossos aliados.

Ademais, é preciso afirmar que não existe apenas um feminismo, mas feminismos, uma série deles, cada um com suas prioridades e linhas de pensamento voltadas para certos recortes e abordagens da causa feminina.


Quando algum homem usa das "justificativas" abaixo para não apoiar o feminismo, contudo, eu não posso deixar de pensar em como as concepções equivocadas se espalham mais facilmente que o debate sensato e que, principalmente hoje em dia, a preguiça de pensar acaba sendo mais efetiva que o raciocínio lógico. Ainda assim, decidi tirar um tempo para responder a esses "argumentos" que mais parecem piadas prontas...

1) Por que as mulheres se aposentam antes dos homens?
Argumento piada: Isso já é um direito a mais, sem contar a licença maternidade.

O número de mulheres que, ao saírem do trabalho, ainda têm de enfrentar uma segunda jornada em casa fazendo a limpeza, cozinhando e cuidando dos filhos é absurdamente maior que o de homens que fazem isso. É tão maior que até hoje homens que vivem com os filhos, como pais solteiros, que cuidam da casa, chegam a receber aplausos.

Primeiramente, hoje em dia há empresas que permitem até uma licença-paternidade de alguns dias, o que já é um interessante reconhecimento de que a chegada de um filho também afeta ao pai psicologicamente (e, vá lá, às vezes fisicamente também). Contudo, nunca se esqueça da cultura, segundo a qual a mãe deve ter obrigatoriamente um instinto materno e uma necessidade de cuidar dos filhos, além de prever a condenação daquela que sofre de depressão pós-parto – ora, um momento tão feliz e mágico, não tem motivos para depressão! Acho desnecessário lembrar do impacto físico e hormonal no corpo da mulher.

Outra questão está no fato de que a cultura de a mulher ter o dever de cuidar da casa e dos filhos continua a ser perpetuada. Não basta "dialogar com o marido" ou "pedir ajuda a ele nos serviços da casa", pois, para grande parte das mulheres, não é nem mesmo possível ter esse tipo de diálogo - muitas são ensinadas a servir o homem desde cedo.

(Se você acha que o direito de aposentadoria um pouco mais cedo e a licença maternidade são “privilégios”, sugiro que você olhe no dicionário o significado da palavra. Melhor, vai aqui a definição: “Vantagem (ou direito) atribuída a uma pessoa e/ou grupo de pessoas em detrimento dos demais”. Esses direitos são atribuídos em detrimento de quem?)

2) Por que o homem pode andar sem camisa e a mulher não?
Argumento piada: Pelo mesmo motivo que a mulher tocar no peito do homem é normal e o homem tocar no peito da mulher é assédio.

E sabe qual o motivo de o homem tocar no peito da mulher ser considerado um assédio? O machismo, que coloca o homem como sujeito a seus instintos sexuais a ponto de se excitar ao ver ou tocar o peito da mulher. A cultura incentiva que os homens vejam os seios como fonte de excitação, tanto é que, no ato sexual, uma das ações frequentes do homem é a de apertar os seios da mulher – mesmo que isso não a excite.

3) Por que as feministas não lutam pelo fim do serviço militar obrigatório?
Argumento piada: Elas não querem, realmente, a igualdade de gêneros, apenas o que é conveniente para elas.

O nome “feminismo” implica o gênero feminino como protagonista. Não significa colocar o gênero feminino acima do masculino, significa apenas FOCAR nas lutas enfrentadas pelas mulheres. Não significa, também, que um homem não possa ser feminista, mas que ele não tem o direito de ser o protagonista nesse caso.

Se os homens decidirem lutar pelo fim do serviço militar obrigatório, é certo que serão apoiados por algumas correntes feministas. Mas são os homens que devem ser os protagonistas dessa luta.
(Se você usa esse argumento para rebaixar o feminismo, mas é a favor de uma intervenção militar no Brasil, você tem um problema sério de dissonância cognitiva.)

4) Por que as feministas tratam todos os homens como estupradores em potencial?
Argumento piada: Nem todo homem é assim. Eu, por exemplo, sou diferente.

Sim, sabemos que nem todo homem é um estuprador e, de fato, estatisticamente, estupradores nem formam a maioria da população masculina. Não é o feminismo que prega que todos os homens são perigosos; há, contudo, uma reação para uma construção do machismo.

É o machismo que impõe ao homem o sentimento de uma necessidade de ser viril e predatório (leia-se, “pegador”).  Esse mesmo machismo justifica a libido e a agressividade masculinas como se elas fossem incontroláveis, ou seja, como se o homem fosse incapaz de controlar seus instintos.

A mulher que se incomoda com as cantadas na rua o faz, não porque não sabe receber elogios, mas porque está inserida em uma cultura na qual o homem é visto como escravo dos próprios instintos sexuais enquanto a mulher deveria estar prontamente disposta a atender seus desejos – ou seja, se ele a aborda na rua, é porque tem objetivos definidos que estão além do simples elogio; ele o faz para se provar como “macho”, para tentar “levar mais uma para a cama”. Estamos inseridos numa mesma cultura. Você pode até ser diferente, mas se você passa uma cantada para uma mulher na rua, você se sujeita a ser julgado, pela mulher, a partir da sua atitude.

Se uma mulher se depara com você, homem que ela não conhece, em uma rua deserta, à noite, ela não vai esperar você se aproximar dela para dizer que você é diferente. Espero que você compreenda isso.

Outras observações importantes:
Há, sim, objetificação do homem pela mulher. No entanto, ela acontece em uma escala bem menor. A meu ver, é exatamente a cultura de objetificação da mulher que abre espaço para que o homem também seja objetificado.

Existem homens em situação de vítimas da violência doméstica também. Mas, segundo as regras do machismo, esse homem só é vítima porque não é “macho o suficiente”. E isso faz com que o homem nessa situação sinta vergonha de procurar ajuda.

Existem homens que são estuprados. Novamente, a vergonha faz com que não procurem ajuda. Essas situações não são provocadas pelo feminismo, mas há pessoas que acreditam que o movimento deva lutar contra elas... Ora, então a luta contra o machismo não seria uma luta contra essas questões também?

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Para quem ainda discorda do que eu disse aqui, sugiro a leitura de DADOS CONCRETOS que ilustram como ainda existe a desigualdade de gêneros e como certas construções machistas vêm prejudicando as mulheres ao longo da história:


domingo, 30 de agosto de 2015

De argumentações (ou "Só porque é sua opinião não significa que eu não possa contesta-la")


O poderoso escudo da opinião vem sendo evocado ferozmente nas discussões pela internet afora. Com ares de cartada final, sem precisar levar a cabo qualquer argumento, a derradeira fala –  “É minha opinião!” – surge como encerramento, com sua ilusão de que, ali, foi dado um verdadeiro xeque-mate. Se é a minha opinião, você não tem o direito de contestá-la.

Mas há um problema e, eu diria, até certa ingenuidade por parte de quem lança essa cartada. Afinal, a verdadeira opinião diz respeito ao gosto pessoal, a algo que não pode ser verificado factualmente por ser, bem, opinião. Quando a pessoa faz uma afirmação errada e prontamente a classifica como opinião, o que ela está fazendo é tirar uma conclusão com base em informações limitadas e/ou inverídicas. Em outras palavras: o fato de você achar que é sua opinião não a isenta de estar absolutamente errada no sentido mais primário do termo. E aí, se você se apega a isso como opinião, não significa também que eu deva respeita-lo por isso, nem que eu deva deixar de contestar suas ideias – principalmente se sua própria opinião for desrespeitosa (e, pior ainda, se você repetir o clichê de “respeitar para ser respeitado").

Por exemplo: eu posso defender a abolição de rótulos porque não gosto do uso deles e, portanto, prefiro não usa-los. É minha opinião. Porém, quando eu digo que rótulos não importam, eu estou afirmando um equívoco, uma vez que é verificável o fato de que rótulos não só importam como definem, em nossa sociedade, inclusões e exclusões diversas.

Se eu acredito, equivocadamente, que rótulos não importam – apesar de todas as provas que vão de encontro a essa crença –, eu estaria, além do mais, traindo minha própria fala a partir do momento que eu decidir usar um rótulo. Ora, se o rótulo não importa, então por que eu iria usá-lo? É ainda pior quando, além dessa opinião mal informada, eu opto pelo uso de um rótulo de uma forma que ignora seu conceito e suas implicações sociais.

Um exemplo prático acontece quando eu coloco drag queens e travestis dentro do rótulo de “transexuais”. O fato de eu defender a abolição de rótulos ou de não gostar deles não significa que essa colocação não possa estar errada, além de expor uma clara falta de informação. 

Para quem acompanha a questão LGBT em suas múltiplas faces, estamos testemunhando um embate ferrenho entre ativistas transgênero e drag queens, desde 2013, pela forma como o senso comum vem associando essas categorias de forma negativa e generalizada. Esse tipo de situação é ainda pior quando o erro é cometido por alguém do meio LGBT, como uma pessoa homossexual que se supõe ativista, pois revela, ainda, uma negligência no que diz respeito ao tratamento do assunto.

Se um indivíduo heterossexual defende o uso errado da terminologia, sua conclusão está embasada no erro anterior, propagado pelo indivíduo que deveria ter conhecimento das questões LGBT, mas que, convenientemente, prefere não lhes dar a devida atenção.

Mantendo-me na linha de pensamento da rotulação, acredito que, por mais que ela trabalhe a favor de uma segregação, não se pode negar que, politicamente, há uma necessidade de se definir quem se é. Em outras palavras, para que exponhamos nossas demandas, precisamos, antes, definir quem somos e nossas motivações. Nesse sentido, a separação entre sexualidade e identidade de gênero é feita porque as demandas de homossexuais e bissexuais não são as mesmas de transgêneros, transexuais e travestis. 

A percepção de uma pessoa que se identifica como homossexual certamente não é a mesma de alguém que se identifica como trans, apesar de ambas as identidades se depararem, em suas vidas, com pressões sociais diversas.

Portanto, se eu uso minha visão de homossexual para dizer a uma pessoa trans como eu acho que ela deve se sentir eu estou, novamente, utilizando-me de uma concepção limitada e equivocada para expor uma suposta opinião.


Como Jef Rouner, eu também passo mais tempo discutindo nas redes sociais do que poderia ser saudável mental e fisicamente para mim. Com frequência, o tempo da minha vida que perco em discussões que vão para um caminho literalmente estúpido poderia muito bem ser gasto com textos como este, em que tenho tempo para embasar meu ponto de vista sem ter de me preocupar com uma resposta imediata. 

Obviamente, quando meu ego é ferido a nível pessoal, eu simplesmente me esqueço de minhas motivações e da minha capacidade de ser melhor debatedora, independentemente da minha formação.


Cometo o erro de expor essa formação como validação do meu argumento quando sinto que a cartada da opinião é lançada juntamente a uma tentativa de diminuição do conhecimento ou da personalidade da pessoa. 

Normalmente, não gosto de falar em narrativas pessoais (erro que já cometi demais no passado) nem em posições individuais que não tenham relação com o tema discutido. Ao mesmo tempo, não consigo deixar passar o fato de que, enquanto uns se esforçam continuamente para adquirir conhecimento da maneira como podem, há os que preferem insultar o outro, prontamente, e, não raro, mandar a pessoa “ir estudar” sem que, antes, tenham eles mesmos estudado.

sábado, 29 de agosto de 2015

Todas as trans finíssimas: meme ou problema social?


Na internet tudo acontece de uma hora para outra e, do nada, uma nova frase ou expressão de repente é usada por todos - mesmo os que não sabem de sua origem.
Depois do "eu quero é close", "5 minutos de beleza" etc., a expressão do momento é "todas as trans finíssimas fumando maconha", título de um vídeo que parece ter sido gravado pela mesma pessoa, ao que tudo indica, uma travesti ou mulher trans que decidiu gravar as amigas na noite.

Para mim, a graça do vídeo está no bom humor com que as próprias mulheres se mostram, mesmo em uma situação que retrata a marginalização trans: aquelas pessoas estão ali se prostituindo.

No Brasil, a maioria das travestis e mulheres trans não encontram outra saída diante da exclusão a não ser ir para as ruas se prostituir, uma vez que não têm nem mesmo suas identidades sociais respeitadas e se veem juridicamente impedidas de ter carteira assinada ou serviço médico decente simplesmente porque seus corpos não estão em conformidade com seus documentos - e, para mudar os documentos, um processo longo e ardiloso, é preciso, antes mudar o corpo e apresentar laudos médicos...

As travestis que são, com frequência, rejeitadas pela família e pela comunidade em que vivem, expulsas de casa e completamente minadas de seu direito à cidadania chegam a tomar atitudes extremas para moldar o próprio corpo, aplicando silicone industrial, fazendo cirurgia em clínicas clandestinas....

Quando homossexuais reproduzem essa fala das "trans finíssimas" eles contribuem ainda mais para uma invisibilização da mulher trans, uma vez que se apropriam da voz dessas pessoas marginalizadas apenas para fazer piada. Nesse sentido, a real situação apresentada pelo vídeo ganha ares de mera brincadeira, e deixa de ser reconhecida como resultado de um problema social.

Uma confusão frequente entre o senso comum é a noção de que drag queens - homens, em sua maioria gays, que se vestem de mulheres - são mulheres trans. Contudo, a prática drag é voltada para o entretenimento, e sua crítica aos papéis de gênero está calcada na imitação de um ideal de feminilidade que é, por si só, artificial. Pode ser que uma mulher trans tenha se tornado drag queen para experimentar com o feminino antes de se definir como trans, e que encontre na prática uma arte libertadora.

No entanto, em termos gerais, o homem que se veste de mulher para fins artísticos não passa pela mesma experiência que a mulher que, tendo sido designada como homem desde seu nascimento, toma a decisão de modificar seu corpo para expressar sua identidade feminina em todos os momentos de sua vida.

Se, por um lado, é triste notar que algumas drags chegam a reproduzir discursos transfóbicos, por outro seria importante que pudesse haver um esforço conjunto para maior conscientização. A sigla do movimento deixou, há muito, de ser a excludente "GLS" para tentar abarcar um número maior de pessoas marginalizadas por conta de sua sexualidade e/ou expressão de gênero... Mas, infelizmente, a adoção de uma nomenclatura como "LGBT" não significa a automática mudança de atitudes.

A letra "T", na sigla, representa pessoas trans, incluindo, aí, travestis e transexuais, entre outras tantas expressões de gênero. São essas as "trans finíssimas" com as quais temos que nos unir e sobre as quais devemos falar, devemos abrir caminho para as vozes "T" - e não achar que a eliminação de rótulos vai simplesmente promover uma união que, na verdade, seria apenas de fachada.


Aproveitando o tema, segue também uma fala importantíssima da trans ativista Daniela Andrade que expõe a problemática das apropriações de imagens de trans e travestis apenas como memes:

Quando é para fazer milhares de memes da Vanessão, fazer remix da travesti semi analfabeta na delegacia, transformar em hino o bordão "se isso é estar na pior, o que é estar bem né?", amar as mulheres trans e travestis fumando maconha e dizendo pra todas que são trans finíssimas, aí o povo lembra exaustivamente de travesti e transexual, inclusive os gays.
Mas quando a gente vai falar de políticas públicas para travestis e transexuais, de gente morrendo numa fila do SUS à espera de uma cirurgia, de gente tentando o suicídio sem que os governos dos estados e o governo federal se lembrem que essa população precisa de hormônios, de cirurgia de remoção de silicone industrial, de próteses, de gente obrigada a se prostituir, de gente que foi expulsa da escola ainda no fundamental dado todo o preconceito que precisou enfrentar, que foi expulsa de casa, de quem se cirurgiou e não existe ginecologista ou urologista que as atendam, do judiciário exigindo que nos cirurgiemos para mudar nossos documentos. 
Nesse momento deixa de ser interessante falar de travesti e transexual, e passamos a escutar o cantar dos grilos como resposta à pergunta: o que vocês vão fazer para melhorar esse quadro?
Fora lembrar da gente sempre como palhaças, o que mais?

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Sobre Reinaldo Azevedo e Laerte

Mais uma vez, Reinaldo Azevedo prova que não entendeu nada.
Usando de uma “argumentação” recheada de insultos e ofensas pessoais, ele demonstra não estar disposto a diálogo algum, uma vez que qualquer ideia que discorde da sua é “estupidez”.
Em sua coluna, no dia 24 de agosto, começou a série de insultos disfarçadas de argumentação com uma charge de Laerte. 


Nela, a cartunista sugere como a recente manifestação pedindo o impeachment de Dilma estava permeada por hipocrisias e falsas simetrias, na imagem de “cidadãos de bem” que, entre selfies com a Polícia Militar e discursos esdrúxulos, não raro pediam uma intervenção militar para “salvar o país”.

Um panorama interessante dos protestos poder ser visto no vídeo abaixo:


Por alguma ironia do destino, membros dessa mesma PM são suspeitos de ter cometido uma chacina em Osasco – e, creem alguns, fazerem parte de mais um grupo de extermínio (sabemos, não é o primeiro na história da PM). E o que está na tirinha é justamente a representação dessa ironia.

Diga-se de passagem, a ação da PM em Minas Gerais, em protesto deflagrado apenas alguns dias antes das manifestações contra o governo, foi bastante diferente: uma amostra de como a polícia trata cidadãos de categorias “inferiores”.

Ademais, interpreto a charge de Laerte como uma analogia ao trabalho da Polícia Militar como instituição violenta e nada humanizada, cujo histórico de atuação incita mais medo que sensação de segurança na população, principalmente em se tratando do cidadão negro e morador de periferia. Para quem se interessa por conhecer o que está por trás da ação dessa instituição tão estimada por Azevedo, sugiro a leitura de uma recente entrevista concedida por um ex-policial militar condenado por crimes que cometeu, em parceria com colegas de trabalho, enquanto integrava a PM.


Reinaldo Azevedo discorda desse ponto de vista que partilho com Laerte, mas para demonstrar o quão contrário é a essa perspectiva, chama a cartunista de “baranga”, “horrenda”, “detestável”, “farsante”, entre outras coisas.

Traz para a discussão, ainda, a expressão de gênero de Laerte, relacionando-a com sua visão política.
Quando, em 2012, a presença de Laerte no banheiro feminino de um estabelecimento incomodou uma mulher, a velha problemática da não diferenciação entre gênero e sexualidade e o determinismo biológico, como sempre, foram usadas como justificativas para mostrar o “erro” da cartunista.

Nesse caso, Laerte questionou: “Como é que elas se sentiriam com uma lésbica dentro do banheiro?”. Ora, a pertinência dessa pergunta vem do fato de que sua expressão feminina não dita sua sexualidade e que a preocupação com a presença de “mulheres não biológicas” no banheiro é normalmente motivada por associações com a sexualidade. 

Quando a pessoa acha errado que “um homem vestido de mulher” frequente o banheiro feminino seu medo é fundado na possibilidade desse “homem” tirar proveito das mulheres que estão no recinto. No entanto, uma lésbica também teria a oportunidade de tirar proveito da situação, tal como “um homem vestido de mulher” que sente atração por mulheres.

O que Reinaldo falha em perceber é que o reconhecimento da identidade de gênero vem da necessidade de aceitação social das pessoas trans, uma vez que a presença de um indivíduo transgênero tanto no banheiro masculino como no feminino causaria desconforto e polêmica. O mínimo que se pode fazer a esse respeito é reconhecer que a pessoa transgênero tem o direito de usar o banheiro de acordo com sua expressão de gênero. 

Se Reinaldo diz, ironizando, que para Laerte, o fato de “querer” alguma coisa transforma isso num direito, o contrário também pode ser dito: o fato de Reinaldo “não querer” alguma coisa parece transformar isso, para ele, numa falta de direito do outro.

Independente da crença de Reinaldo no determinismo biológico que se utiliza unicamente dos genitais para identificar o gênero de uma pessoa, não podemos nos esquecer de que a transgeneridade existe e que sua crescente visibilidade demonstra a necessidade de reconhecimento e validação social – e para os mais apegados à biologia, há uma série de estudos que comprovam, biologicamente, a condição dessas pessoas.

Do alto de sua adequação à heteronormatividade conservadora, Reinaldo comete as mesmas generalizações que criticou Laerte por cometer – com a grande diferença de que essa generalização, usada para efeitos humorísticos, leva à reflexão e não se gaba de ser detentora da verdade. Fosse uma generalização feita em charge para criticar pessoas com tendências esquerdistas que apoiam Dilma, certamente Reinaldo aplaudiria.

Sabiamente, Laerte usou do humor como resposta às provocações do colunista conservador e obteve uma réplica um tanto quanto “sem graça” – afinal, Reinaldo é desses que faz questão de dar a última palavra, nem que seja para pedir o fim do debate.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Direitos humanos são só para humanos direitos?

(tirinha de André Dahmer)

Moro num país tropical, ungido pelo Senhor, bonito por natureza, mas poluído e desmatado, enfrentando plena crise hídrica. Em fevereiro, o carnaval vem com mais casos de abuso sexual, muitos não relatados. Vivo num país em que não confiamos nos governantes e temos medo da polícia.

Não temos quem nos proteja da violência. Desconfiamos da honestidade. Não entendemos de economia, nem de política. Nossa ignorância, muitas vezes, é voluntária – ou paga. Só enxergamos a corrupção e o erro do outro. Aqui ganha quem grita mais. Mas ainda temos heróis, na TV.
A palavra de ordem é “intolerância”. Não se tolera o diferente porque é ele o culpado de todos os problemas. É ele que incomoda, a minoria.

Ainda não chegamos a um acordo sobre o que seria a liberdade de expressão. Apenas sabemos que é seguro vestir a máscara da opinião, ainda que ela represente uma violação dos direitos do outro.

Na madrugada de 20 de junho de 2015, Laura Vermont, de 18 anos, foi agredida por cinco homens. Estava a pé, depois de ter sido colocada para fora de um carro – segundo relatos, ela e outra amiga haviam brigado com o casal que estava no carro e Laura puxou um estilete. Podemos dizer, sim, que Laura não era inocente. Deve ter perdido sua inocência muito cedo, essa é a verdade.

O que aconteceu na Avenida Nordestina, zona leste de São Paulo, não teve relação com a briga no carro. Não sabemos se foi Laura quem primeiro deu atenção aos sujeitos que a espancaram. Ou se apenas respondeu a provocações.

Como a maior parte das travestis, Laura se prostituía. Era mais uma que a sociedade deixara sem saída, sem escolhas. Aprendeu a sobreviver e a se defender como podia. Afinal, soube desde cedo que não teria seus direitos garantidos pelo Estado, e que não teria a proteção policial nem a segurança a qual sujeitos têm direito. Ela não era sujeito, era abjeto, habitava uma zona de exclusão que a sociedade se recusa a legitimar e a abrigar.

Não à toa, Laura foi assassinada por Policiais Militares. Estes podem exercer a violência de forma legalizada e têm o aplauso de uma multidão toda vez que rasgam as páginas da Constituição Federal em que é assegurado o direito à vida; são congratulados sempre que ignoram a existência de uma Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A ação tão exemplar e eficiente da PM, inclusive, inspira as pessoas de bem, corretas, a agirem para ajudar no combate ao crime. Agora, deixam marginais amarrados a postes como uma forma de ajudar à justiça. Aliás, não somente ajudam, como também substituem o papel do judiciário; julgam por si mesmos. Pisam em Mateus 7:1, mas por uma boa causa.



A parcialidade do povo se revela justamente na ideia propagada de que apenas os “cidadãos de bem” têm direito à dignidade. Prezam pelo seu interesse sem querer admitir seus privilégios. O cidadão de bem não quer ouvir argumentos, não precisa deles, pois tem suas frases prontas, cunhadas para a repetição; é assim que ganha discussões no grito. Para o cidadão de bem, "bandido bom é bandido morto", porque faltaram "umas boas porradas quando era moleque" e agora que virou ladrão, não tem mais o que fazer. Para o cidadão de bem, "todo traveco só quer caçar confusão", porque "se tivesse apanhado quando era criança não tinha virado viadinho". 

O cidadão de bem está sempre alerta. Está sempre querendo reparar problemas na sociedade. Ele está disposto a usar força necessária para tal. Ele bate em panela e em professor com a mesma intensidade. Ele enxerga na força policial a salvação da família tradicional. E no deputado/pastor a sustentação de seus interesses. E os políticos/pastores já ocupam alguns cargos no executivo também, quem sabe um dia chegam a presidência. O cidadão de bem bate palma pra terceirização. E para o confisco da previdência.
Entre os ídolos do cidadão de bem está Jair Bolsonaro, defensor de que gays demonstrando afeto publicamente sejam espancados, praticante de nepotismo de longa data, acusado nos idos de 1987 de planejar explodir várias bombas na Vila Militar de Agulhas Negras.


 Nessas circunstâncias, eu tiro apenas uma conclusão: ainda bem que não estou do lado do bem.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O que mais te choca de verdade? (ou "A crucificação não é apenas encenada")

Desta vez não se tratou de uma encenação. Viviany Beleboni foi agredida ao ser reconhecida na rua por um sujeito que, segundo ela relatou em vídeo, disse que ela não era Deus e tentou esfaqueá-la.

O fanatismo demonstrado por muitos, desde que a transexual apareceu crucificada em um carro na Parada do Orgulho LGBT de São Paulo em junho deste ano, é preocupante porque demonstra uma falta de senso crítico atrelada a uma idolatria cega à religião. Foi esse mesmo fanatismo que levou à agressão de um grupo de candomblecistas, em que Kailane Santos, de apenas 11 anos de idade, foi atingida na cabeça por uma pedra jogada pelos intolerantes.

Ávidos em criticar a heresia alheia, indivíduos que cometem tais atos parecem não ter noção de que estão, eles mesmos, indo de encontro aos ensinamentos bíblicos que dizem seguir com tanta devoção (já falei sobre o oportunismo e moralismo desses líderes religiosos e seus seguidores aqui e aqui também).



Sua religião, em vez de torna-los pessoas compreensivas, que pregam o amor e são empáticas ao sofrimento das minorias, os leva a crer que o “outro” – aquele de quem deveriam ter piedade e com o qual deveriam ser, no mínimo, tolerantes – deve ser prontamente eliminado. Trata-se da aceitação de um autoritarismo que usa a religião como justificativa para o cumprimento de seus interesses.

Enquanto os que creem nos ensinamentos de seus respectivos chefes religiosos se esforçam para cumprir cada uma de suas ordens, os sujeitos excluídos sentem o medo constante de serem perseguidos como resultado desse cumprimento. Em um estado cego ou de transe para com a “arrebatação” que é pregada nesses templos – cuidadosamente ambientados para que cada sujeito ali presente seja contagiado com o “poder da glória” em toda parte de seu corpo – o público não é capaz de perceber que seus gritos e clamores satisfazem o desejo de uma pessoa – do pastor, do pregador – e não do Senhor que tem seu nome apropriado.

Com essa perseguição do diferente, do “inimigo”, do bode expiatório que dessa vez assumiu a forma de Viviany Beleboni encenando a crucificação, fieis acreditam estar sendo bons seguidores, bons soldados.

Como se não bastasse, o medo de Viviany soma-se à descrença em uma polícia que nada fará para a proteger. Pelo contrário, a tratarão como culpada por seu ataque, como provocadora da ira de intolerantes, sendo a própria instituição policial incapaz de respeitar uma pessoa que não está de acordo com a matriz de inteligibilidade em que vivem.
A fala de Beleboni evidencia esse despreparo policial ao qual temos de nos sujeitar e a frustração de não poder ter esperança alguma de que a justiça seja feita: “Vai à delegacia? Para quê? Para me tratarem que nem um homem lá? Para rirem da tua cara e não dar em porra nenhuma?”

Enquanto às pessoas trans são negados os direitos mais básicos, aos conservadores a satisfação parece vir na forma de um congresso recheado pelos religiosos fundamentalistas que querem fazer de sua religião uma fundamentação para governar, passando por cima do princípio da laicidade do Estado e colocando sua fé evangélica acima de todas as outras. E, vale a pena repetir, o que usam de fundamento são suas próprias convicções e interesses mascarados de preceitos bíblicos, não os ensinamentos de Deus.

Do lado daqueles que se recusam a dialogar e a tentar compreender o que levou Viviany a se expor, crucificada, o ódio permanece o mesmo. Ao que parece, não interessa que ela tenha realizado essa performance para chamar a atenção para um sério problema do país que é a extrema violência a que pessoas LGBT, principalmente travestis, enfrentam diariamente; interessa que Jesus não pode ser representado por uma mulher trans em uma Parada do Orgulho LGBT, pois se trata de um exagero, de uma heresia, de uma provocação. Mas quando religiosos usam a imagem de Jesus por motivos mercadológicos, tudo bem. E quando usam o nome de Deus para esfaquear outro ser humano, tornam-se até heróis.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Pequenos detalhes que importam muito

(ilustração: Daniel Bueno, junho de 2013, para a Folha de S. Paulo)

Antes de expor minha crítica, gostaria de parabenizar a atitude da mãe Mariana Munhão e sua coragem ao dar um depoimento sobre a história do filho.

A pessoa que se assume trans passa por sofrimentos e conflitos imensuráveis, e o apoio da família e dos amigos é crucial para que se sintam bem no próprio corpo - um corpo que, de certa forma, os engana desde o nascimento. Somente o sujeito trans conhece e experiencia a própria dor. Mas quem o acompanha de perto, o ama e se preocupa com ele, também passa por seus dilemas, principalmente quando são indivíduos muito próximos, como os pais e os irmãos.

Às vezes, por mais que nos esforcemos para demonstrar apoio, compreensão e uma mente aberta, escorregamos em palavras e expressões que reforçam nosso apego ao chamado determinismo biológico - a crença de que a aparência de seus genitais e seu provável fenótipo é o que determina seu "sexo".

O relato de Mariana Munhão é profundo e serve como um ensinamento a muitos pais. Contudo, não posso deixar de expressar meu incômodo com a "frase de impacto" escolhida pela jornalista Gabriela Varella, que tomou o depoimento, para usar como chamada ao texto.

Da perspectiva de uma mãe, que viu o filho nascer com aspectos que fizeram com que ele fosse interpelado como "filha", é de se compreender que a sensação é a de uma garota que "virou" garoto - afinal, se desde o nascimento até a descoberta da transgeneridade Luan foi designado como menina, tem-se mesmo a impressão de uma pessoa se tornar outra, ao menos fisicamente.

Porém, quando a imprensa dá destaque a essa frase, "Não é fácil acordar e saber que sua filha virou filho", ela promove o reforço de uma ideia equivocada, que vem sendo propagada há muito e que é, em partes, responsável pela maneira discriminatória com que a sociedade enxerga as pessoas trans.
Ora, a filha não virou filho; "ela" sempre foi filho, "ela" se sentiu filho desde que pôde compreender sua identidade e compará-la com a de outras pessoas.

A pressão da família é a primeira de muitas enfrentadas pela pessoa trans. A pressão da escola, que evita tratar de questões de gênero e sexualidade - e agora ainda tem proteção de vereadores para que esses assuntos não sejam abordados -, vem em seguida e é quando o indivíduo pode realmente entender o que lhe espera na sociedade.

A criança cis - aquela que não questiona o gênero que lhe foi designado ao nascer - se certifica de sua identidade de gênero muito cedo e tem o aval dos pais para expressar como se sente, de acordo com essa identidade, pois está dentro das nossas expectativas sociais e culturais. A criança trans, por sua vez, é desencorajada pelo mesmo sistema, que a avalia como confusa - ou até como alguém com tendências homossexuais - e como incapaz de saber qual sua identidade de gênero tão cedo (veja bem, ninguém faz o mesmo questionamento a uma criança cis, aplaudida por reafirmar sua identidade diariamente).

Um estudo publicado em janeiro de 2015 mostrou que crianças trans demonstram suas identidades de gênero com a mesma consistência que crianças trans. Isso indica que, da mesma forma que a criança cis sabe qual é sua identidade de gênero, a criança trans também sabe de sua identidade "desviante", e elas são capazes de ter essa certeza desde os 5 anos de idade.

Ou seja, a criança trans não quer "virar" alguém do outro gênero, ela já se sente como alguém do outro gênero, mas precisa mostrar ao mundo esse sentimento e depende de outras pessoas - principalmente seus pais - para que ele seja validado. É a partir daí que entram as expressões de gênero associadas ao que é normalmente considerado masculino ou feminino. Para demonstrar sua transgeneridade, a criança passará a agir como as outras pessoas do gênero com o qual se identifica.

O problema do discurso que afirma que "é muito cedo para saber" tem a ver com uma ignorância voluntária por parte das pessoas, que usam essa justificativa somente quando o comportamento da criança não é o que se esperava. Afinal, para o garotão que nasceu com "o saco roxo" e adora ir para o colo de mulheres, nunca vai ser "muito cedo para saber" que ele é um macho heterossexual!

terça-feira, 4 de agosto de 2015

De jornalismos, escritores e ideais


Durante os anos em que cursei Letras, cheguei a ouvir mais de uma vez a lenda de que “todo aluno de Letras é um jornalista frustrado”. Muita gente pensa assim porque há, realmente, um número grande de pessoas no curso de Letras que prestaram vestibular para Comunicação – eu, inclusive. Ora, da minha parte, tentar Comunicação foi uma escolha lógica da parte de alguém que gosta de escrever e que pretende construir uma carreira com base em escrever... pelo mesmo motivo, tentei entrar em Letras em uma faculdade que ainda não disponibilizava o curso de Comunicação e, mesmo tendo a oportunidade de me transferir de um curso para outro, em Letras fiquei.

A bem da verdade, minha insatisfação com o curso que eu fiz só foi se dissipando por volta do 3º ou 4º período, quando descobri, aos poucos, que tinha muito mais possibilidades que me tornar uma professora. Aliás, admito ainda uma ironia: meu maior objetivo agora é o de me tornar uma professora.

Pode ser que se eu tivesse feito Jornalismo eu tivesse gostado do curso, tivesse me dado bem... Mas não descarto a possibilidade de que eu teria seguido um caminho parecido com o que realmente segui. Meu flerte com o jornalismo em geral sempre foi o mesmo. A diferença está na malícia textual que, a meu ver, adquiri com mais profundidade com os professores de Letras – o que pude atestar ao comparar minha visão com a de alunos que, formados em Jornalismo, decidiram fazer o mesmo mestrado em Teoria Literária e Crítica da Cultura que eu.
Sem contar uma implicância que desenvolvi com a falta de aulas de gramática no curso de Jornalismo, necessária porque até os professores universitários andam errando bobagens e até ensinando equívocos aos alunos (lembrando aqui que eu sou revisora, já li e consertei muitas dessas bobagens).

Além do mais, o clichê de que nem todos são iguais vai ser sempre válido, então, entre Jornalistas e “Literatas”, nem todos são iguais MESMO!

Em Letras, eu diria que aprendemos a ser leitores profissionais – e daí passamos a escrever caso seja de nossa vontade – ao passo que em Jornalismo aprendem, de fato, a ser escritores profissionais, preocupados com o público alvo e com a objetividade e todas essas características que os textos jornalísticos carregam. Como leitora profissional, pude chegar à conclusão de que não existe, absolutamente, um texto neutro ou imparcial, que seja puramente informativo; existem apenas o que são mais bem sucedidos em esconder a posição que tomam.

O que eu acredito que aconteça, então, é que, mais acostumados a escrever que a ler, jornalistas não aplicam sempre a noção de leitura crítica naquilo que veem como reportagem em potencial. Aqui, tomo emprestada a fala de uma amiga e jornalista, a Laís Menini:
“(...)amigos e colegas de profissão que continuam na labuta dos jornais, tvs, portais e rádios já disseram, mais de uma vez, que a geração de jornalistas “sabe tudo” que a modernidade trouxe até eles não quer nada com a dureza. Acha que é possível apurar uma notícia sem sair do lugar, lendo só comentários de Facebook. Também não está afim de sair da redação, quer resolver tudo por e-mail ou Whatsapp – e tudo isso ainda como estagiários”.
Sem conhecer a realidade dos jornalistas, eu, somente como leitora, tenho essa impressão também: hoje, porque é mais fácil fazer tudo à distância, muitos se tornam preguiçosos.

Sabemos que há jornalistas cientes da importância de uma investigação extensa e bem-feita, mas porque esse tipo de funcionário levaria mais tempo para escrever algo de qualidade que o sujeito do Facebook, capaz de lançar um furo jornalístico após a leitura de uma ou duas informações, sabemos também o motivo de muitas redações preferirem o último: é bem mais lucrativo, ou menos dispendioso, na verdade. Melhor ainda é quando a notícia se encaixa perfeitamente em fins políticos de difamação e crítica aos ideais contrários ao do veículo jornalístico em questão.

Diga-se de passagem, essa preferência pode explicar casos como o da jornalista da Veja, cujo número de plágios permanece ainda sem acordo entre os noticiários – 40? 60? 65? –, ou do furo de reportagem do Picasso no INSS, mostrado no brilhante documentário “O mercado de notícias”, de Jorge Furtado (segue, abaixo, o trecho a que me refiro).



A quantidade de informações disponíveis na internet é infinita e você pode fazer o teste: invente uma frase, qualquer frase, e ela pode se tornar um fato verificável pelo Google. Não é preciso muito esforço para se concluir que a maior parte do que é noticiado, se não é mentira, é algo incompleto e/ou distorcido. 

Convenhamos, não se pode esperar muito de jornalistas que têm como fonte principal blogs e redes sociais. A velocidade com que eles replicam notícias é inversamente proporcional ao tempo que passam pesquisando a fim de checar se o que é replicado é fato ou apenas boato. 

Como profissionais, só não conseguem ser piores que aqueles que se valem de documentos falsos – sim, estou falando de uma certa revista em específico – para produzir noticiários espetaculares, tendenciosos ao extremo e sem compromisso algum com a verdade – apesar de esse continuar a ser um dos slogans mais usados pelos meios de comunicação que se consideram jornalísticos.  

Fazendo um balanço geral da frustração, digo que a minha é de ter se tornado muito difícil um jornalismo de qualidade, independentemente da formação de quem o faça.

domingo, 26 de julho de 2015

Existiram índios homossexuais?


Não podemos dizer, especificamente, que existiram índios homossexuais na História do Brasil porque os índios não conheciam, muito menos usavam o conceito de “homossexual”, identidade que apenas foi cunhada no século XIX. Isso não significa, contudo, que não existia a prática do sexo homossexual nas tribos, como é o caso também de identidades de gênero para além do binômio homem-mulher ao qual a sociedade ocidental dita civilizada se acostumou.

Na verdade, há um número considerável de evidências de que a homossexualidade era uma prática socialmente aceita entre índios de diversas tribos. Além do mais, deve-se ter em mente que comportamentos e identidades não-heterossexuais entre índios não podem ser analisadas unicamente a partir de nossas concepções heteronormativas, uma vez que se tratam de sociedades diferentes, com experiências, vivências, crenças, simbologias, significados, interpretações, pontos de vista, rituais e pudores diferentes.

É notável a abundância de termos usados em tribos indígenas por toda a América para se referir a indivíduos que, de alguma forma, poderiam hoje ser classificados como LGBTTIQ a partir de nossa perspectiva.

À época da colonização da América Latina, no século XVI, viajantes europeus relataram a presença de índios e índias sodomitas no Novo Mundo (“sodomia” era a palavra usada para se referir a qualquer prática sexual “não-natural”, incluindo homoerotismo, sexo anal, oral etc.). Esses atos eram vistos pelos colonizadores como pecaminosos e selvagens, e junto com a catequização dos nativos vieram também as tentativas de apagamento do histórico dessas práticas.


Em sua extensa pesquisa, o antropólogo Dr. Luiz Mott menciona como até mesmo grandes civilizações, dentre elas os Maias e os Astecas, permitiam determinadas práticas e comportamentos, como o homossexo e o travestimento entre homens (apesar de condenarem outras).

A relação entre a prática homossexual e o xamanismo também esteve presente desde tempos imemoriais. Muitos já ouviram falar dos two-spirit norte-americanos, nativos que transitavam entre os gêneros e que, segundo a crença, eram detentores de grandes poderes e dons, justamente por carregarem ambos os espíritos masculino e feminino. A existência dessas pessoas foi documentada em cerca de 155 tribos espalhadas por toda a América do Norte.

No Brasil, a diversidade dos papéis de gênero também existiu, a exemplo dos tibira (que seriam os índios “gays”) e das çacoaimbeguira (as índias “lésbicas”), entre os Tupinambá. As çacoaimbeguira foram descritas como índias extremamente masculinizadas, que exerciam funções usualmente delegadas aos homens, vivendo com uma mulher que as servia como se fossem homens, além de exibirem os tradicionais cortes de cabelo masculinos.

Entre os índios Guaicuru e Xamicos, existiam os cudinhos, que adotavam vestes e adornos femininos e serviam a seus maridos como se fossem mulheres.

Entre os Kadiwéu, o hábito da pintura corporal é reconhecido como uma arte feminina. Os complexos padrões da tribo são pintados pelas mulheres mais velhas e pelos kudína, homens efeminados que incorporavam todos os atributos da mulher e assumiam papéis femininos naquela sociedade.

Segundo Luiz Mott (1994), em tempos de Inquisição, foi justamente a maior liberdade sexual e a nudez entre índios e entre escravos (a questão da “homossexualidade” nas tribos africanas merece um texto à parte), entre outros fatores, que possibilitaram aos sodomitas europeus um espaço privilegiado na colônia para suas práticas homoeróticas.

Em dias de fundamentalismo e conservadorismo como estamos vivendo, alguns podem tentar justificar a não aceitação da homossexualidade usando como justificativa que não há histórias de "índios homossexuais", sendo eles o supra-sumo da moralidade e da inocência por conta de sua condição como "selvagens". De fato, não houve "índio homossexual", mas houve homossexualidade entre os índios, desde sempre.

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Sugestões de leitura:

sábado, 18 de julho de 2015

Globo e, como sempre, o jornalismo tendencioso

Desta vez, a demonstração de um jornalismo irresponsável veio do programa "Bem Estar", em matéria sobre uso de brincos, riscos e cuidados, que foi ao ar na sexta-feira, 17 de julho.

Comecemos pelos "especialistas" consultados: uma dermatologista e um cirurgião plástico.
Primeiramente, são duas especialidades médicas que não vão lidar, diariamente, com o procedimento da perfuração, muito menos com tudo o que está por trás do uso de adornos corporais. Sabemos que as pessoas apenas procuram esses médicos em casos de problemas com suas perfurações.
Não é possível que, em momento algum, não passou pela cabeça dos produtores procurar o real especialista no assunto: o body piercer.

Felizmente, na página da matéria dois profissionais extremamente gabaritados já se manifestaram. Infelizmente, não acredito que quem deveria realmente ler seus comentários vão se dar ao trabalho.

O fato de que a dermatologista tem, entre suas funções, lidar com alergias da pele a substâncias diversas não significa, também, que ela entenda de todas as questões envolvidas na produção e distribuição de peças usadas para adornar o corpo. Basicamente, ela pode saber da presença de níquel em um "brinco", mas não acredito que ela tenha qualquer tipo de treinamento para identificar joias e peças específicas para serem aplicadas ao corpo - basta notar que, na matéria do programa, apenas mencionam que o recomendável para quem tem alergia é o "brinco de ouro".

A matéria falha em mencionar qualquer questão relativa à biocompatibilidade, que vai muito além do tal brinco de ouro - uma vez que a peça ser de ouro não é o mesmo que ela não apresentar níquel em quantidades variadas.

Outra falha IMENSA da matéria foi mostrar a perfuração da orelha de um recém nascido por um acupunturista de forma arriscada e negligente. Quando a câmera se aproxima dos brincos usados, notamos claramente que se trata de uma peça inapropriada, com hastes mal lixadas e propícias ao acúmulo de sujeira. Pior ainda, há uma gravação bem na haste do brinco, o último lugar em que deveria haver diferenças de relevo na superfície da peça! Ademais, o acupunturista faz a perfuração com uma luva de látex não estéril e usando um anestésico tópico.
Vale mencionar ainda que o médico usou o aparelho na orelha do recém nascido e não fez uma higienização da orelha posteriormente, aplicando direto a pomada anestésica. É claro que, em se tratando de um aparelho que é apenas passado na superfície da pele, não há necessidade de esterilização ou descarte, mas é preciso, no mínimo, fazer a desinfecção da "ponta" metálica, já que ela é passada na orelha de todos os pacientes, pelo visto.

Aliás, tenho também minhas dúvidas sobre a tal esterilização daquele brinco. Em momento algum foi mostrado o tal procedimento, e se o brinco foi esterilizado antes de ser levado ao consultório, pior ainda, pois foi colocado em uma superfície inadequada para ser filmado.



O correto, para a perfuração da orelha de um recém nascido, é não usar anestésico, pois há o risco de parte da pomada adentrar o furo quando passado o brinco. Ali, pode atrapalhar a irrigação do sangue na orelha e levar, em último caso, a uma necrose - sim, só por causa de uma pomada. Aliás, é por isso que A ANVISA PROÍBE O USO DE ANESTÉSICOS PARA FAZER PERFURAÇÕES.
Há um motivo bem claro para usarmos agulhas específicas para a perfuração e há um motivo ainda maior para o fato de perfuradores corporais terem abolido o uso desses "brincos com pontas afiadas", feitos para serem encaixados naquelas pistolas de perfuração, também abolidas há muito.

Ao fazer a perfuração na orelha da criança vemos também como o médico não está usando máscara, apenas luvas de látex não estéreis, para fazer o procedimento. Não há um campo protetor e o indivíduo está usando o mesmo jaleco com o qual deu a entrevista - o que me leva a pensar que ele deve ficar o dia inteiro com aquele jaleco de mangas compridas, sem se preocupar em arregaçar as mangas ou dobrá-las para que o tecido sujo não entre em contato com a perfuração.

Dá para notar ainda que, depois de toda a fala sobre pontos de perfuração e de estímulo na orelha, o médico nem mesmo fez a marcação na orelhinha do bebê...


O brinco tradicional acumula muita sujeira, a começar pelo formato da chamada "tarrachinha" que o prende. As pontas afiadas da haste são também perigosas, pois podem machucar o pescoço da criança no caso de hastes muito longas, além de seu formato ser outro fator a facilitar o acúmulo de sujeira. E, até onde sabemos, esses brincos são feitos de aço cirúrgico 316L, material até comum quando se fala em body piercing, mas que não é, absolutamente, o melhor em termos de biocompatibilidade - sim, meus queridos, a perfuração corporal avançou!

Outra questão que vale ressaltar é a "dica" dos médicos para cuidar dos "furos", ao falar que é preciso mexer no brinco constantemente - dizer isso é praticamente dar carta branca para que a pessoa fique rodando a peça no furo recente, com as mãos sujas, aumentando as chances de infecção. Qualquer folheto de estúdio contendo os cuidados que devem ser tomados é mais claro e melhor redigido. Pedir que a própria pessoa retire a peça ao notar sinais de infecção ou alergia é outro problema, pois ela não tem treinamento para retirar a peça sem ferir ainda mais o local ou deixá-lo exposto a mais contaminações.

Sobre o médico dizer que não se pode colocar um piercing na cartilagem, não consigo nem mesmo começar a dissertar. Há materiais que nos mostram, claramente, onde podemos fazer as perfurações sem atingir vasos sanguíneos e há posicionamentos apropriados para se aplicar as peças. Dizer que a orelha perfurada na cartilagem deve ficar como a de um lutador de jiu-jitsu é um exagero sem fim, pois o número de casos em que isso acontece é pequeno, pois a chamada "orelha de couve flor" é causada por contusões ou infecções graves, em casos extremos. Esse hematoma que ocorre no pavilhão auricular e leva ao crescimento de tecido fibroso é causado pelo rompimento de vasos e, repetimos, esse rompimento só vai ocorrer se a perfuração não for feita da maneira correta.

Eu tomei a liberdade de pegar duas fotos tiradas em cursos ministrados pelo piercer Snoopy, Ronaldo Sampaio, para ilustrar a forma correta de se proceder com a perfuração da orelha (aproveitem para comparar com o procedimento feito pelo médico e filmado pela Globo):



Se pudesse, ficaria horas falando a respeito dos problemas da matéria exibida em um programa que se diz voltado para a saúde e o bem estar. Vergonhosa como foi, mantenho a minha preocupação de que o adorno corporal seja vítima de maiores preconceitos e opiniões equivocadas que serão formados a partir das desinformações veiculadas pelo programa.

Para ler a nota de repúdio da Associação dos Tatuadores e Perfuradores do Brasil, clique aqui.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Pela causa trans


Hoje, uma nova movimentação está rolando no Facebook. Na semana passada, com a aprovação do casamento igualitário pela Suprema Corte dos E. U. A., muita gente começou a modificar suas fotos de perfil para uma que tivesse as cores da bandeira LGBT. O que se iniciou como uma forma de comemorar rapidamente deu lugar a uma rede de apoio à causa, com heterossexuais aderindo a uma campanha global - e, não tem como negar, a uma moda, vá lá.

Acontece que, mesmo dentro da comunidade LGBT, existem "categorias" com menor visibilidade, como é o caso da letra "T", que designa indivíduos transgênero - transexuais, travestis e pessoas trans em geral.

Porque a sociedade ainda está apegada a uma lógica que associa automaticamente sexo biológico, gênero e sexualidade, muitos continuam a não compreender a condição trans, apesar dos esforços por parte de ativistas e artistas trans em torno do esclarecimento. Por vezes, pessoas trans sofrem com a rejeição até mesmo entre grupos LGBT, dentro dos quais deveriam encontrar apoio e empatia!

Como pessoa que escolheu transitar entre os gêneros, nunca senti, na pele, a mesma exclusão que pessoas trans, mas sei o quão doloroso é a jornada de cada um que deseja modificar o corpo para se sentir em conformidade com a mente. Por isso acho extremamente importante apoiar a causa e dar visibilidade às questões trans, para que essas pessoas deixem de ser vistas como "estranhas", "erradas", "doentes"... Apesar da tristeza que é tomar consciência do quão transfóbica é a sociedade ocidental, acredito no poder da visibilidade e da educação.



Peço, então, nesta sexta-feira, dia 3 de julho, e pelo restante do mês, que mudem suas fotos de perfil com as cores da bandeira trans, em apoio a nossos irmãos, amigos, companheiros, que lutam bravamente pelo direito de serem vistos como "pessoas reais".
Para aplicar o filtro, é só enviar uma foto do seu PC para o aplicativo (http://messica.codes/transflag) e salvá-la de volta - infelizmente, ele não faz a mudança automática, mas é só enviar a foto normalmente para o Facebook.

Abaixo, fiz a tradução do texto (com a devida permissão da autora) da própria criadora do app, Jessica Willow, explicando suas motivações e a importância de uma ação que, apesar de pequena, faz uma grande diferença...

Só pra constar, eu não estou nem aí pra limitar esses posts sobre meu filtro da bandeira trans (propaganda descarada - http://messica.codes/transflag). Apesar de ainda ser relativamente pequeno em termos de internet, essa iniciativa atingiu uma proporção que eu não imaginava, sendo compartilhada por celebridades trans, ativistas e grupos LGBT por todo o mundo (até agora chegou a 124 países, pra ser exata), e até mesmo iniciou uma ação no Brazil em protesto contra a violência que atinge pessoas trans.
Ainda assim, eu reparei em algumas confusões a respeito de certas coisas que eu gostaria de esclarecer. Não se trata apenas de orgulho, trata-se também de apoiar e mudar a opinião pública. É por isso que é ABSOLUTAMENTE CRUCIAL que ALIADOS CIS compartilhem e participem, bem como a comunidade trans. Como muitos de vocês sabem, a visibilidade pode ser extremamente perigosa para pessoas trans e o Facebook adora mirar em indivíduos trans por conta da política do nome “real”, então eu não estou pedindo para que nenhum trans se exponha etc.
De forma resumida, se você é um dos 26 MILHÕES de usuários do Facebook que mudaram sua foto para colocar a bandeira do arco-íris a fim de apoiar os direitos LGBT, você já deveria estar apoiando o “T”. Se você não apoia o “T”, livre-se da bandeira do arco-íris... pelo menos até você se educar a respeito da história do movimento LGBT (e não é nosso trabalho te educar também – por favor, pesquise, não é difícil)
Se você apoia o “T”, tente mudar sua foto com a bandeira para uma bandeira trans, para dar apoio à comunidade transgênero E ESPECIALMENTE A MULHERES TRANS “DE COR”, que começaram esse movimento. Nós podemos mudar a opinião pública e, obviamente, isso já aconteceu. 10 anos atrás eu não poderia imaginar que os direitos LGBT progrediriam dessa forma, mas vejam onde chegamos agora. Não podemos esperar mais 50 anos para que o “T” alcance o mesmo nível e DEMANDAMOS UMA AÇÃO AGORA. Claro que existem outras formas, reais, materiais, de nos apoiar, mas essa é uma ação bem pequena, simples, que tem o potencial de mudar o mundo.
(texto em inglês disponível no Tumblr da autora
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Sobre a questão das mulheres trans "de cor" terem dado início ao movimento LGBT, basta procurar pelo nome de Marsha P. Johnson no Google e saber quem ela foi. Eu mesma já falei um pouco dela em um texto anterior: "Sobre paradas, tensões e representações"

terça-feira, 30 de junho de 2015

Ideologia de gênero, a saga

Um comentário feito por um biólogo e que vem sendo compartilhado no Facebook está me preocupando, pois mostra que, realmente, não há esforço para compreender questões críticas que precisam ser colocadas em pauta.


É absolutamente estapafúrdio que as pessoas realmente acreditem que se quer ensinar, nas escolas, que “nascemos sem sexo”. Realmente, não tem lógica nem mesmo alguém achar que se queira ensinar isso aos alunos.

Acontece que a cromossomia do indivíduo se expressa em suas características biofisiológicas, mas não vai determinar muito do que nossa sociedade acredita ser inerente ao homem e à mulher. Cromossomos não são responsáveis por determinar que garotos gostam de azul e mulheres gostam de rosa. Cromossomos não são responsáveis por determinar que garotos vão gostar de carrinhos e super-heróis e que garotas vão gostar de bonecas Barbie e brincar de “casinha”.

Parece mais fácil, aos adultos, ignorar o fato de que NÓS é que impomos o gênero à criança antes mesmo de ela nascer, criando expectativas com base apenas no fato de ela ter um pênis ou uma vagina (ou cromossomia XX e XY, vá lá - apesar de que até isso ignoramos durante o nascimento, apenas tomando conhecimento da configuração cromossômica quando a pessoa começa a apresentar "distúrbios" em seu corpo).

Diga-se de passagem, até hoje não foi comprovado que os cromossomos exercem algum papel em determinar se o indivíduo é transgênero ou não. Pode ser que exista alguma influência. Pode ser que não. O que se sabe, porém, é que a transgeneridade tem fortes indícios biológicos, sendo a maior probabilidade a de que ocorra por ação hormonal ainda durante o desenvolvimento fetal.
Ora, se na escola ensinamos sobre outras cromossomias, como XXY, XXX, XYY, sobre hormônios, sobre reprodução sexuada, é de se pensar na possibilidade de colocar em pauta outras condições que vêm sendo estudadas e que não podem ser negadas.

Ademais, se à escola cabe ensinar e exigir o respeito, é aí que entra a discussão sobre as diferenças. E uma das diferenças que está em pauta é aquela colocada entre os gêneros, que impõe a submissão feminina, por exemplo. Não são os cromossomos que determinam que a mulher deva ser delicada, obediente e submissa, mas a cultura!

O ensino não passa apenas pela Ciência, mas também pela Sociologia e, acima de tudo, pelo respeito ao outro. Ensinar sobre as diferenças e sobre a “outridade” é, sim, função da escola, e para tratar desse tema ela precisa passar por questões de raça, gênero, classe sócio-econômica, etnia e todos os elementos que, ao serem construídos como identidades, acabam por passar também pela exclusão.

O homossexual também não é respeitado na escola, muito pelo contrário, é frequentemente condenado por apresentar um comportamento "diferente", fora das normas, o qual rapidamente associamos à sexualidade - algo que nós, adultos, ensinamos as crianças a fazerem antes mesmo de entrarem na escola. 

Não sei se vocês conseguem perceber a inconsistência na fala do biólogo, que prega que a escola deva ensinar o respeito às diferenças sem coloca-las em pauta a partir de exemplos reais – uma vez que a pessoa trans tem todo o direito de frequentar a escola e ser respeitada, reconhecida e legitimada. E prefiro não comentar sobre um biólogo que usa “homossexualismo”, termo que remete a uma doença ou ideologia/fanatismo (por conta do sufixo “-ismo”) e que não é mais usado pelo menos desde os anos 1990 (cientistas não devem se atualizar com frequência?!).

A importância de se tratar das questões de gênero são, inclusive, bem exemplificadas por essa garotinha:
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O Ministério da Saúde oferece um curso à distância, gratuito, sobre Saúde da População LGBT. Decidi me inscrever e conferir, e recomendo. É bastante didático e claro, passando pelos assuntos mais básicos em relação a gênero, sexualidade e sexo, até a questão dos tratamentos de saúde propriamente ditos. Para instruções de como se inscrever, é só acessar aqui.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Sobre novos paradigmas e o medo do desconhecido


O disparate entre as pesquisas e estudos sobre educação na academia e a prática educacional escolar ainda é grande. Obviamente, as razões são muitas e não pretendo enumera-las aqui, mas precisamos tratar de uma questão que acaba por reforçar a estagnação do ensino nas escolas: o medo do desconhecido.

A maioria dos professores que já se formaram há muito tempo têm mais confiança em seus instintos e experiências que em novas "teorias mirabolantes" e propostas que os obriguem a frequentar mais cursos de atualização - principalmente se ministrados por pessoas muito mais novas, afinal, o que eles sabem da vida?! De fato, abrir-se para mudanças não é algo que façamos pronta e facilmente. Devemos estar convencidos de que as mudanças serão positivas e que o esforço de sairmos de nossa zona de conforto poderá ser recompensado de alguma forma.

Na instituição escolar, em que experienciamos o contato social desde pequenos, aprendemos que a adaptação e a uniformização são benéficas para o andamento da organização. Sendo assim, devemos obedecer às regras que nos são colocadas visando a certa harmonia do ambiente. Aqueles que são capazes de obedecer - ou, pelo menos, de se conformar com a maior parte das regras - e "se misturar" passarão despercebidos, como indivíduos médios, "normais". Mas, sabemos, quando normas estão em jogo, há também exceções.

Outra questão importante é que os padrões de anos atrás não são, definitivamente, os padrões de hoje em dia, e a relação entre aluno e professor pode se tornar bastante problemática em se tratando do choque de gerações às quais pertencem. Nesse sentido, a pessoa recém formada pode oferecer novos insights e perspectivas para os educadores mais antigos e, eventualmente, tradicionalistas.

Quando nos colocamos a favor do ensino e discussão de questões de gênero nas escolas, não estamos falando apenas em homossexualidade e acreditar nisso é uma ingenuidade com base em generalizações grosseiras. Não se trata de "estimular homossexualismo [sic] e promiscuidade" e, honestamente, se ainda existem PROFESSORES que pensam assim, há algo de muito errado/atrasado na formação dessas pessoas.

Até hoje as escolas têm medo de tratar de sexo e sexualidade dentro da sala de aula de maneira aberta, fechando os olhos para o fato de que adolescentes (e, às vezes, pré-adolescentes) exercem sua sexualidade independente disso. Então, não interessa se a escola prefere fingir que seus alunos não são sexualmente ativos; o sexo acontece e acontecerá entre jovens tanto heterossexuais quanto homossexuais.

Ao tratar de desigualdades de gênero serão abordados assuntos como sexo consentido vs. forçado, prevenção e tratamento de doenças sexualmente transmissíveis, contracepção, comportamento sexual masculino vs. feminino, pressões sociais exercidas sobre os gêneros, entre tantos outros. A necessidade de falar de tudo isso?! Se você tirar alguns minutos para ler sobre a pesquisa realizada pelo Plan Brazil em 2014, você terá uma dimensão do quanto ainda é real a desigualdade entre gêneros em nossa sociedade, que dá mais liberdades ao gênero masculino desde a infância.
Aliás, tal desigualdade chega a ser ainda mais aterrorizante quando um dos maiores medos que atingem o cotidiano feminino, o estupro, torna-se real dentro da escola, que deveria oferecer proteção a todos.

No que diz respeito às identidades e expressões de gênero, o assunto se torna ainda mais delicado, pois nos é possível observar que muitos professores simplesmente confundem sexo, gênero e sexualidade, a ponto de não saberem lidar com alunos trans e, pior, desrespeitando-os diariamente.
A palavra "bullying" pode ser recente, mas as ofensas a homossexuais, garotos efeminados e pessoas trans dentro da escola é bastante antiga, não raro com o aval de professores - quando não são eles mesmos a fazer piadas.

A igreja, por sua vez, não deveria ter nada com as decisões de planos educacionais, por uma razão única: a escola deve comportar todas as religiões. Usar um argumento baseado em uma crença específica é amplamente discriminatório, além de infundado em termos tanto empíricos como científicos.
O poder que algumas religiões vêm adquirindo é prejudicial para a democracia. Seus líderes excluem do povo a liberdade e o poder de decidir, preferindo a doutrinação cega e o estímulo ao discurso de ódio - vide a agressividade com que religiosos, principalmente evangélicos, vêm tratando o "outro".

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Leituras recomendadas:



Sobre paradas, tensões e representações


O movimento LGBT como o conhecemos hoje tem uma história recente. Nos anos 1950 os grupos criados para advogar a favor dos gays – por muito tempo “gay” vem sendo usado como termo dominante para se referir a todos os LGBTs, uma simplificação um tanto quanto incômoda – se apoiavam em discursos de psicólogos, psiquiatras e sexólogos para deixar claro à sociedade que não podiam fazer nada a respeito de sua homossexualidade. A ideia era a de que a homossexualidade era uma espécie de patologia ou doença, sobre a qual homossexuais não tinham controle algum e da qual não se orgulhavam. Mas à parte desse “desvio”, eram sujeitos normais, que queriam ser aceitos pela sociedade.

O problema desse pensamento estava justamente no fato de não se orgulharem dessa “perversão” incontrolável, da qual, aparentemente, envergonhavam-se. Tinham um desejo de adequação e assimilação tão grandes que pareciam pedir desculpas por sua sexualidade.

Nos Estados Unidos, durante as décadas de 1950 e 60, o sistema legal/judiciário era abertamente contra o comportamento homossexual; à época, todos os estados americanos consideravam crime a “sodomia”, mesmo que o ato fosse consentido entre adultos – à exceção de Ilinois, que descriminalizou a sodomia em 1961.

A rebelião que ocorreu em Stonewall Inn, em Nova Iorque, no ano de 1969, não foi a primeira demonstração de descontentamento por parte de indivíduos LGBT, mas representou um marco na luta pelos direitos da comunidade.

Os últimos anos da década de 1960 viram o surgimento de diversos movimentos sociais, como o African American Civil Rights Movement (lutando pela igualdade de direitos civis para afro-americanos), as manifestações anti-guerra e a contracultura. Nesse espírito, indivíduos LGBT também passaram a lutar por sua legitimidade, recusando-se a permanecerem invisíveis.

O Greenwich Village, em Nova Iorque, era o bairro onde homossexuais e pessoas trans se reuniam à noite e o bar Stonewall Inn, que pertencia à máfia, era conhecido por sua popularidade entre os mais pobres e marginalizados da comunidade gay, como drag queens, transgêneros, jovens homens efeminados, sem-teto e michês. Portanto, era comum que acontecessem batidas policiais de surpresa no local. Mas em 1969 as tensões entre LGBTs e a polícia culminaram em uma série de protestos que se repetiram por várias noites seguidas, ficando conhecidos como Stonewall Riots (ou “Rebelião de Stonewall”).

Drags, crossdressers, transgêneros e gays efeminados participaram ativamente dos levantes. Naquela época, a ideia de transgeneridade não era difundida, e a verdade é que mulheres trans eram confundidas com drag queens - diz a lenda, foram as drag queens as primeiras a resistirem fisicamente à força policial em Stonewall (em entrevista para o documentário Pay it no Mind: Marsha P. Johnson, o escritor David Carter revela que algumas testemunhas oculares lhe contaram ter visto Marsha gritar "Eu tenho meus direitos civis!" e jogar um copo no espelho, dentro do Stonewall Inn, e foi justamente esse o ato a deflagrar os protestos).
Contudo, essas pessoas são hoje, com frequência, deixadas à margem do movimento LGBT, por desafiarem um padrão de “respeitabilidade” estabelecido inclusive para homossexuais, que devem ser “discretos” e permanecer “no armário” socialmente.

Ativistas importantes como Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, que se auto-proclamavam “transvestites” (palavra já obsoleta, usada para designar cross-dressers), usavam o termo “gay” para se referir à comunidade como um todo, de maneira inclusiva, uma vez que a luta de todos e todas, naquela época, focava-se no simples direito de existir e de ter controle sobre o próprio corpo.

Um ano após os motins, em 28 de junho de 1970, aconteceram as primeiras marchas do Orgulho Gay, nas cidades de Nova Iorque, Los Angeles, São Francisco e Chicago, em comemoração aos levantes. Posteriormente, as marchas foram organizadas em outras cidades e se espalharam pelo mundo, acontecendo preferencialmente em junho.

As paradas são um momento de celebração, uma comemoração daquele passo dado por pessoas excluídas da sociedade que eram espancadas e reprimidas por forças policiais simplesmente por estarem na rua. Se nos eventos de hoje as pessoas se beijam e expressam seu amor livremente, é porque foi preciso uma luta física para que isso pudesse acontecer.

No entanto, sempre que ocorrem as paradas sofremos também com o “fogo amigo”. Membros da comunidade LGBT que batem no peito para dizer que a parada não os representa, agarrando-se a argumentos moralistas e que expressam uma vergonha em relação ao movimento “gay” contemporâneo. Criticam a promiscuidade de participantes que vão à parada apenas para “fazer pegação”... Claro, em eventos e celebrações regados a música e álcool, é de se esperar que ocorram excessos. No caso das paradas não seria diferente.

Lembro-me do discurso de Clodovil Hernandez, ainda aplaudido por muitos, afirmando que não tinha orgulho de ser homossexual. Trata-se de um reforço da noção de que a homossexualidade é uma característica negativa do indivíduo; uma posição que sustenta a polarização que determina que ser heterossexual é bom e ser homossexual é ruim. Qualquer semelhança com o discurso dos grupos chamados homófilos, dos anos 1950, não é mera coincidência. Trata-se da ideia de “respeitar para ser respeitado”... um respeito aos outros que passa pela falta de respeito a si mesmo, na verdade, já que depende de uma internalização da vergonha que outros nos fazem sentir.


Não podemos nos esquecer, no entanto, que a demonstração de carinho em público é uma forma de protesto para nós, LGBTs, que ainda afrontamos o sistema com nossa simples existência, como é possível notar pelos discursos conservadores e fundamentalistas que andam se propagando. Não podemos nos dar ao luxo de reprimirmos uns aos outros dentro da comunidade, pois é isso que querem de nós os que são contra nós – a separação dos grupos, a desunião, as tensões.